MICHEL PLATINI

16 de Maio de 2005

Foi no último mundial da década do disco sound, em 78, que se iniciou a era dourada do futebol francês, quando Michel Hidalgo descobriu Platini, versão de Asterix como jogador de futebol. O seu projecto exibicional não tinha o génio de Pelé e Maradona, ou o fulgor de Di Stefano e Eusébio, ou até a magia de Bobby Charlton, mas tinha uma personalidade invulgar, um pouco á imagem de Bobby Moore ou Beckenbauer. Uma elegância sem passes transviados, um pouco á imagem de Bobby Moore ou Beckenbauer, mas no meio-vampo onde desprezando os lances de choque, foi o exemplo perfeito do "regista", aliada ás explosões de técnica em movimento, dentro da orquestração que foram, no fundo, o projecto exibicional de Michel Platini.

Neto de um imigrante italiano de Piamonte, o pequeno Platini crescera na vila de Jouef, situada na região mineira de Loraine, habitada por muitos imigrantes italianos e polacos, onde o seu pai, um grande apaixonado do futebol, tinha um café. Le Café de Sports. Também ambicionara ser um grande jogador de futebol, mas uma lesão no joelho roubou-lhe esse. Jogo em pequenos clubes, o que acumulava com a profissão de matemática, até aos 40 anos e diz o filho Michel que marcava muito bem livres. Foi por esa altura, com menos de 10 anos, que se lembra de ter visto jogar um famoso emigrante polaco naturalizado francês, Kopa. Nesse jogo, como quase sempre, Koipa estivera divinal. Houve então um lance que marcou o pequeno Michel. Kopa receber a bola mais ou menos na meia lua, á entrada da área, muito marcado não tinha espaço para fugir, foi quando inventpou um passe de calcanhar para um espaço vazio onde surgiria emcorrida outro jogador que, em corrida, captou a bola e fez a jogada que daria golo. Platini ficou de boca aberta e perguntou ao pai: -"Mas, como foi posivel, como sabia ele que ia aparecer algúem naquele sitio?" -"Sabia, sabia, meu filho. Ele quando fez o passe, viu pelo canto do olho esse seu colega a correr, calculou o tempo que ele demoraria a chegar aquele espaço vazio e fez o passe com a velocidade exacta para a bola lhe surgir á frente quando ele lá chegasse", respondeu professoralmente o pai.

Michel ficou espantado. Calou-se por alguns segundos até que se virou para o seu velho e dise-lhe com os olhos mais felizes que nunca: -"Agora já sei o que quero ser quando for grande. Quero ser como Kopa e fazer em campo as memas coisas que ele faz!", profetizou aquele menino que naquele tempo começava a pensar qual seria o seu futuro na vida.

MICHEL PLATINIEntretanto começava a destacar-se nas peladas de rua. Teinava os livres na porta da gargem que ficava numa rua estreita pelo que para tocar nela mesmo na parte de cima, tinha de dar um grande efeito na bola. Foi ai que iniciou essa sua arte de cobrar livres directos que o faria admirado em todo o mundo do futebol: “Adoro, sempre adorei marcar livres. Não sei explicar, não era por pensar que assim conseguiria melhores contractos. Era como um jogo á parte para mim, uma diversão onde estava em vantagem e só u podia tocar e fazer o que quisesse da bola”.

De pequeno, Platini era magrote e tinha alguma dificuldade em respirar porque não tinha uma caixa toráxica muito forte. Quando foi treinar ao Metz, com 15 anos, os olheiros logo quiseram que ficasse. Foi fazer os testes fisícos e quando chegou á hora de ter de soprar para um aparelho que media a capacidade pulmunar, nunca atingia os minimos exigidos. Bufou cerca de 30 vezes e nada. Para tentar resolver o problema que começava a criar-se disse que era o aparelho que tinha de estar estragado, que era muito forte mas não convenceu o médico. Voltou a bufar. começou a perder o fôlego, viu tudo á roda e desmaiou. Os médicos do clube diagnosticaram-lhe então uma insifuciência cardíaca e foi dispensado porque, segundo eles, não estava apto para jogar futbol. Ficou triste porque o Metz era o seu clube desde pequenini, mas como queria muito jogar futebo, tentou o Nancy e, sm ter de se sujeitar a tão intensos exames médicos, lá ficou.

Com ele o clube começou a ganhar jogos e a dar nas vistas, mas o seu primeiro jogo, foi quase um desaste. Entrou a substituir o lateral esquerdo Kozowsky e praticamente não acertou uma jogada. Tinha apenas 17 anos. “era difícil para um miúdo tão novo jogar no meio de jogadores já feitos. Depois eu era em geral um jogador normal. Não era como, por exemplo, o Cruyff que aquela idade já era rápido e marcava nesse aspecto a diferença.” No segundo jogo em Lyon surgiu, por fim, a confiança. Passou a pedir a bola, a distribuir jogo e asimrealizou uma grande exibição, macando um golo e fazendo os psses para outros dois. E tudo isto a jogar como defesa-esquerdo! Em pouco tempo despertaria a atenção dos granddees clubes franceses e, em 19xx, ingressou no Saint Etienne, o maior clube gaulês dssa época onde começou a consagrar toda a sua classe.

Era um verdadeiro leader, classe pura, jogo útil, sem osso, quase sobrenatural, sempre com a camisola fora dos calções, falando e gesticulando com os colegas. Foi, com passes em profundidade, o regista de uma orquestra de luxo estrelada por pianistas como Tigana, Giresse e Fernandez. Bastava um olhar seu para iluminar jogadas ou corrigir posições. Com Platini e o seu cativante sorriso de Gioconda, a França recuperou a elegância e aurevoir tristesse, Allez les blues!

Ele é, para a eternidade, o senhor futebol francês, internacional 72 vezes, 49 delas como capitão, autor de 41 golos, 17 deles nos Mundiais. Conta o polaco Boniek, que um dia, farto das partidas de Platini, no tempo em que jogaram juntos na Juventus, resolveu vingar-se do irredutível gaulês: «Era a última jornada do Scudetto 83-84. Jogo com o Génova. Platini tem 20 golos e luta por ser o melhor marcador. Zico tem 19. No decorrer do jogo cheguei perto dele e disse-lhe: acabei de ouvir, a Udinesse vence com dois golos de Zico. Ficou branco. Em cinco e cinco minutos vinha a correr implorando: “Passa-me a bola, Zubi, dá-me um golo a marcar”. Não o consegui. Ele ficou furioso, mas pouco importava. Era mentira, Zico não marcara um golo sequer. No final, na sala de imprensa, Platini apareceu descontraído e disse sem pestanejar: “O titulo de melhor marcador? Não me importa, o fundamental é a Juve”. Que desplante, como é possivel?» Platini sem ser um "monstro-fisico", tinha uma personalidade invulgar- um "leader" por excelência, classe pura, jogo util, "sem osso", tudo com grande eficácia prática quase sobrenatural, com a camisola invariavelmente fora dos calções, falando e gesticulando para os colegas, ás vezes parecia "escondido", e de repente aparecia, decisivo, com golos e milimétricos passes longos "capazes de meter a bola dentro de uma lata de cerveja", tudo com um cativante sorriso de "Gioconda em travesti".

Com a sua classe, elegância e visão de jogo de pintor renascentista, sempre com a camisola fora dos calções, cultivando dentro do campo, o ar “blazé” de todos os grandes génios, expresso ora em livres em “folha seca”, ora em passes em profundidade capazes de meter a bola dentro da abertura de uma lata de cerveja, ele foi o líder incontestado de uma geração que, 26 anos depois, faria esquecer a remota casta de Kopa e Fontaine. Foram os chamados “anos Platini”, eterna referência de futebol dotado de elevada beleza estética, opção artística de uma geração de nº10, onde viveram, no mesmo onze em simultâneo, Tigana, Giresse e Fernandez, vencedores do Euro-84 e semifinalistas dos Mundiais 82 e 86. Apesar da vitória de 98, “la belle seleccion” de 82 permanecerá para sempre na memória romântica de todos como referência de culto quando se falar em bom futebol.

MICHEL PLATINI1Em 82/83, a primeira a época de Platini na Juventus corria sem grandes feitos. É então que o Avvocato Agnelli desabafa a um jornal: Estou triste por Platini ainda não me ter dado um golo de livre. Tranquilo, Platini respondeu que o Avvocato também ainda não lhe dera nenhum Ferrari. No jogo seguinte, com 0-0 no placar, já perto do final, a Juve ganha um livre á entrada da área. Platini ajeita a bola, cobra a falta, folha-seca... golo e explosão no velho Communale! Na manhã seguinte, Platini acorda cedo. Abre o jornal enquanto toma o pequeno almoço e fica atónito com um titulo: Promessa de Agnelli: Ofereço um Ferrari a Platini!

Platini pendurou as chuteiras em 1987, depois de se tornar um mito Juventus, por já não se sentir com forças para voltar a ser o nº1, o único lugar em que, face ao prestigio alcançado, fazia sentido estar. Dezoito meses depois, porém, surge á frente da selecção francesa que órfã em campo da sua geração mágica perdera o brilho anterior. Com ele no “banco”, recuperou o respeito internacional, mas o seu carisma levou-o a vestir fato e gravata, assumindo o cargo de co-presidente da Organização do Mundial-98. Homem de confiança de Blater, Platini é hoje uma figura influente nos meandros da FIFA e as suas opiniões são sempre tidas em conta. Do futebol francês só poderá ouvir duas palavras” Merci Beaucoup Monsieur Platini!”

CARREIRA

ÉPOCA - CLUBE - JOGOS - GOLOS

  • 1972/'73 AS Nancy (Fra1) 5 2
  • 1973/'74 AS Nancy (Fra1) 8 2
  • 1974/'75 AS Nancy (Fra2) 32 17
  • 1975/'76 AS Nancy (Fra1) 38 22
  • 1976/'77 AS Nancy (Fra1) 38 25
  • 1977/'78 AS Nancy (Fra1) 36 18
  • 1978/'79 AS Nancy (Fra1) 18 12
  • 1979/'80 Saint-Étienne (Fra1) 36 16
  • 1980/'81 Saint-Étienne (Fra1) 35 20
  • 1981/'82 Saint-Étienne (Fra1) 36 22
  • 1982/'83 Juventus (Ita1) 30 16
  • 1983/'84 Juventus (Ita1) 28 20 1
  • 984/'85 Juventus (Ita1) 30 18
  • 1985/'86 Juventus (Ita1) 30 12
  • 1986/'87 Juventus (Ita1) 29 2

TITULOS

  • 312 golos ao longo da carreira 127 con el Nancy, 82 con el Saint Etienne y 103 con la Juventus,
  • SELECÇÃO 72 Jogos ,41 golos.
  • Melhor marcador do Europeu-84, 6 golos.
  • 1 Taça dos Campeões: Juventus, 1985.
  • 1 SuperTaça da Europa: Juventus, 1984.
  • 1 Taça das Taças, Juventus, 1984.
  • 2 Scudettos, Juventus, 1984 e 1986.
  • 1 Liga francesa, Saint-Etienne, 1980/81.
  • 1 Copa Italia, Juventus, 1983.
  • 1 Taça de Francça, AS Nancy, 1977/78.
  • 1 Taça Intercontinental, Juventus,1985.
  • 3 vezes melhor marcador da liga italiana, em 1983 com 16 golos, em 1984 com 20 golos e em 1985 com 18.
  • 3 BOLAS DE OURO- Melhor jogador europeu do ano: 1983, 84, 85