MIJATOVIC: IMORTAL!

27 de Julho de 1998

Amsterdão, 20 de Maio 1998. Diante de 70 mil espectadores que quase a devoram com o seu olhar, uma bola gira perdida dentro da área da Juventus. Peruzzi, por terra, observa-a impotente. As redes da baliza anseiam por uma decisão. Centésimos de segundo que parecem séculos. Num ápice, Pedja Mijatovic encontra o seu objecto de desejo. Acaricia-o, ensina-lhe o caminho e faz-lhe a vontade...GOL! Este seu simples e perfeito movimento acabou com uma obsessão madrilista que resistia há 32 anos. O Real Madrid era, de novo, Rei da Europa. “o que recordo daquele momento são os 12 ou 15 segundos após fazer o golo. Foi algo incrível Durante esses instantes perdi a consciência de tudo o que estava á minha volta. Pela cabeça passou toda a minha vida, desde que nasci até esse instante. Foram imagens muito rápidas, das mais bonitas que alguma vez me vi” A partir desse momento, também Mijatovic se tornara imortal, digno de figurar ao lado de outros monstros brancos que há décadas atrás criaram a lenda do Real Madrid.

Pendurado ao seu peito. Mijatovic leva um cordão de ouro e brilhantes com duas letras: L y A, as iniciais dos nomes dos seus filhos: Luca e Andrea. Ainda jogava em Valência quando este último nasceu com graves problemas de saúde, um terrível handicap que o irá acompanhar para a vida:“Quando me apercebi que a doença do meu filho era verdadeiramente grave senti que tinha de transformar esse drama numa fonte de energia positiva em toda a minha vida. Pode parecer ilógico, mas o seu handicap incentiva-me a procurar os meus limites: na vida como dentro do relvado, enquanto jogo. Todos os meus golos são para ele. Mal acabam os jogos, guio rumo a Valência para ficar junto dele. Para qualquer um seria fatigante repetir este caminho várias vezes por semana, mas quando regresso a Madrid para junto da equipa, sinto que em cada visita ao meu filho recarrego as baterias” Foi nele que mais pensou nos alucinantes 15 segundos de Amsterdão, quando os primeiros pontapés na bola em Podgorica, capital do Montenegro, hoje integrante, com a Sérvia, da nova Jugoslávia, lhe pareceram subitamente tão próximos e tão distantes. Cresceu sob o manto da guerra e do fratricida ódio étnico, mas confessa que como futebolista foi sempre um privilegiado em relação a outros jovens. Em 93 rumou para Espanha, conquistou Valência e seduziu Madrid, onde reencontrou aquele que é hoje o seu grande amigo: Suker, croata de nascimento. Fora do futebol são inseparáveis, nos estágios compartem o mesmo quarto, passam hora a conversar mas nunca falámos de política. Conhecemo-nos há onze anos e o problema entre a Croácia e a Jugoslávia nunca afectou a nossa relação. A política é uma coisa, a amizade é outra.

MIJATOVIC IMORTALQuando menino o seu ídolo era o argentino Kempes. Usava os cabelos longos como ele mas quando se tornou profissional adoptou o seu próprio estilo. Nas equipas jovens começou a jogar como médio centro, onde guardei o amor pelos gestos técnicos, o movimento belo. Nunca esqueci esse meu papel de criador. O que importa não é somente o golo, mas também um belo passe, uma bela acção colectiva. Estreou-se como profissional contra os croatas do Rijecka. No final os jogadores mais antigos disseram-me que tinha jogado como quem já tivesse feito 500 jogos antes. Mijatovic é um jogador tão elegante que parece transformar o futebol em ballet. Com a ponta do pé, pára a bola no ar como se a fizesse levitar. Com ele, a bola nunca sofre e comporta-se como uma mulher apaixonada, sempre pronta a cair aos seus pés. Uma questão de sedução pura. Um Don Juan dos relvados, pose que cultiva também fora das canchas, com roupa de marca, quase sempre vestido de preto, ao volante de um Ferrari, junto do seu amigo Suker e Ana Obregon.

O ponta-de-lança é a única actividade em que o egoísmo é uma qualidade. No entanto, Mijatovic não se considera um verdadeiro avançado-centro Não sou um jogador egoísta, um goleador clássico. Hoje, graças ao meu passado, mesmo fazendo muitos golos, sou também capaz de pensar rapidamente e fazer um passe decisivo. Sinto até maior prazer depois de fazer um passe decisivo do que após marcar um golo. Ao contrário do que se diz não considero os grandes goleadores jogador egoístas. Pensando na definição que Platini deu a este tipo de híbridos jogadores que povoam o futebol actual, Mijatovic, não é nem um típico nº10, mentor de jogo, nem um clássico nº9, homem-golo, é uma espécie de 9,5. Não faltam no futebol actual muitos outros exemplos desta linhagem de artistas da bola, que jogam preferencialmente nas costas dos predadores do golo, Para estes, eles são os seus melhores amigos dentro das verdejantes quatro linhas.. Com 30 anos nunca teve uma lesão grave que o obrigasse a parar muito tempo. Daqui a quatro ou cinco anos gostava de regressar a Podgorica para lá jogar os últimos seis meses da minha carreira. Para ajudar o clube e dizer da melhor maneira adeus ao publico que me viu crescer. No fundo o futebol, igual que a vida, é um eterno recomeçar..

CARREIRA

ÉPOCA - CLUBES - JOGOS - GOLOS

  • 1987/'88 Buducnost Titograd (Joe ) 31- 4
  • 1988/'89 Buducnost Titograd (Joe ) 28- 2
  • 1989/'90 Partizan Belgrado (Joe ) 15 -1
  • 1990/'91 Partizan Belgrado (Joe ) 33 -14
  • 1991/'92 Partizan Belgrado (Joe ) 25 -13
  • 1992/'93 Partizan Belgrado (Joe ) 31 - 17
  • 1993/'94 Valencia (Spa1) 35 - 16
  • 1994/'95 Valencia (Spa1) 29 - 12
  • 1995/'96 Valencia (Spa1) 40- 28
  • 1996/'97 Real Madrid (Spa1) 38 -14
  • 1997/'98 Real Madrid (Spa1) 24 -10
  • 1998/'99 Real Madrid (Spa1) 28- 5
  • 1999/2000 Fiorentina (Ita1) 16 - 2
  • 2000/2001 Fiorentina (Ita1) 13- 1
  • 2001/2002 Fiorentina (Ita1) 13 - 1
  • 2002/2003 Levante (Spa )