Obdulio Varela

16 de Maio de 2005

Reza a história que o homem, meio mito, meio deus, que conduziu a garra charrua á imortalidade foi um alto chefe negro chamado Obdulio Varela, El Gran Capitan uruguaio, possuidor de assombrosas capacidades psicológicas, capaz de incutir um espírito destemido de vitória a toda a equipa. Actuando com médio centro, era o girassol de todas as suas manobras defensivas e ofensivas. Foram muitos os jogos onde se narram façanhas de Varela. Da forma como gelava o jogo onde tudo parecia ir cair em cima da sua equipa e depois, como carregara o onze rumo á vitória. Nenhum, no entanto, adquiriu a carga mítica da final do Mundial-50.

No livro Memórias del Míster Peregrino Fernandez, Osvaldo Soriano transcreveu uma carta que Daniel Divinsky recebera tempos depois de Varela, datada de 1972, onde narra o sucedido: “Repare bem como são as coisas. Quando fomos para a final, ninguém duvidava que os brasileiros nos iam esmagar. Nós jogávamos, pode-se dizer, contra todo o mundo. Isso, acredito, só nos deu tranquilidade. Recordo que antes do jogo, um dirigente disse-me que todos ficariam contentes se perdêssemos apenas por 4-0. Fiquei indignado e disse-lhe:« Se entramos derrotados é melhor nem jogar. Estou seguro que vamos ganhar, mas se perdermos, tão pouco será por quatro golos». Tinha 33 anos e muitos internacionais em cima. O resto da equipa eram jovens, sem grande experiência, mas que sabiam jogar. Quando íamos no túnel, rumo á cancha, disse-lhes “Saíam tranquilos.Não olhem para cima. Nunca olhem para as bancadas. O jogo disputa-se na relva.

Obdulio VarelaEra um inferno.O jogo começou e durante o primeiro tempo dominámos mas com o tempo fomos perdendo o controlo. Faltava experiência a muitos muchachos.Perdemos três golos feitos, daqueles que ninguém pode falhar. Eles também tiveram as suas oportunidades, mas o mais importante era impedir que eles tomassem o ritmo do jogo. Se tal acontecesse tínhamos de defrontar uma máquina, e aí sim, seriamos atropelados. No segundo tempo eles saíram com tudo.Sofremos um golo e parecia o fim. Quando a bola se anichou nas redes, fui lá buscá-la calmamente e encaminhei-me, em passos lentos para o meio campo, para arrefecer os ânimos. A intenção era ir falar com o árbitro e dizer-lhe que existira off-side, o líner tinha levantado a bandeira, mas logo a baixara quando viu que ia ser golo. Já sabia que o árbitro não iria atender a reclamação, mas era uma oportunidade para parar o jogo.

Fui devagar e pela primeira vez olhei para cima. Fixei o público em desafio, provocando-os. Em vez dos aplausos passaram a ouvir-se assobios. Queriam ver a sua máquina goleadora em acção e eu não a deixava voltar a arrancar. Demorei muito a chegar ao centro. Então, em vez de colocar a bola em jogo, pousei-a e disse a Andrade: “Calma, vou protestar e vais ver que quando voltar isto mais parece um cemitério”. Pedi um tradutor, falei com o árbitro do tal off-side e que blá-blá-blá. Já tinha passado outro minuto. As coisas que me diziam os brasileiros! Um deles cuspiu-me e eu nem reagi. Quando voltou-se a jogar, eles estavam cegos e nem viam a balizam de tão furiosos comigo.

Foi nesse momento que nos apercebemos que era possível ganhar. Como foi possível? Simples, um jogador tem de ser como um artista e dominar o cenário, como o toureiro domina o touro e o público, pois caso contrário, desfazem-te. No passado, já tinha disputado milhões de jogos, em todos os locais, em campos sem vedação, com o público em cima de nós e sempre tinha sadio bem. Como iria ter medo em pleno Maracana, como toda a segurança. Ai eu sabia que ninguém me podia tocar! Quando fizemos o segundo golo nem queríamos acreditar. Campeões do Mundo! Nós, que vínhamos jogando tão mal! Estávamos como loucos.

Nessa noite, fiquei pelo Rio, com o nosso massagista e saímos para beber umas cervejas.Pela rua só ouvia choros e lamentos. Foi então que entrei num bar e vi que só havia tristeza. Estavam todos a chorar. Senti-me mal, afinal eu era responsável por toda essa tristeza. Pensei no meu Uruguai. Ai sim, as pessoas estariam felizes, mas eu estava no Rio. Foi então que o dono do bar me reconheceu e disse: “Sabem quem é? É Varela!” Pensei que me iam matar. Olharam-me, voltaram a olhar-me, até que um deles aproximou-se e deu-me um abraço: “Senhor Varela, quer tomar umas cervejas connosco? Queremos beber para esquecer...” Como podia eu recusar? Ficámos toda a noite a beber e já de madrugada arrependi-me de lhes ter ganho. Se voltasse a jogar essa final, marcaria um golo na própria baliza. A sério! Não se escandalize!

O único que conseguimos com esse titulo foi dar lustro aos dirigentes uruguaios, que entregaram a si próprios medalhas de ouro, dando aos jogadores umas de prata. Nunca desde esse dia comemoraram os títulos de 1924, 1928, 1930 ou 1950. Nunca. Somos nós, os jogadores que nos reunimos todos os anos e festejámos por nossa conta. Por isso, lhe juro, se volto a jogar essa final, marco um golo na própria baliza!” Dois dias depois, Varela regressou a Montevideo. Tinha uma multidão á espera. Vestiu então uma enorme gabardina, puxou as golas para cima, enfiou um chapéu e furou por entre a gente sem que ninguém o reconhecesse. Com o dinheiro que recebeu de prémio, comprou um velho Ford de 1931 que seria roubado uma semana depois...

Obdulio Varela2É impossível entender a história do futebol uruguaio, suas raízes e estilo, sem se deter na análise do perfil físico e humano de Obdulio Varela, filho de uma humilde e numerosa família do bairro de La Tteja, em Montevideo. Com onze irmãos, foi apenas á escola durante três anos, altura em que teve de a deixar para ir vender jornais, primeiro, e depois, engraxar sapatos, em busca de algumas moedas para ajudar no sustento da casa.

Em 1936, começou a jogar na equipa de bairro, o Deportivo Juventude, até que um olheiro do Wanderers reparou nele e contratou-o por 200 pesos. Quando soube ficou indignado e disse aos directores do Wanderers que só iria, se lhe dessem os 200 pesos a ele. Assim foi. Quando nesse dia apareceu em casa, com todo esse dinheiro, a mãe quase lhe batia e não acreditou na história. Pensava que tal como a maioria dos rapazes do bairro, também o chico Obdulio envergara pela má vida. Esteve quatro anos no Wanderers, até que em 1943, ingressou, por 16 mil pesos, no Peñarol, onde ficou até ao final da carreira, em 1955, ano em que abandonou, com 38 anos. Grande estudioso, sagaz observador, gostava de mergulhar nos livros em busca da sabedoria que o tornasse ainda maior. Diziam que era introvertido, mas tinha a aura dos grandes líderes.

Em toda a carreira conservou sempre a mesma postura imponente de gran capitan que incutia respeito a todos. Nunca deu a mão a um árbitro. Saudava-os com um aceno de cabeça. Tratou-os sempre com máximo respeito, mas cumprimentá-los com aperto de mão, nunca! Não tinha que ser simpático, o seu futebol, nobre e corajoso, impunha-se por si próprio. Foi 52 vezes internacional pelo Uruguai e foi um dos grandes mentores da greve de futebolistas, em 1948, na luta pela conquista de direitos laborais e sindicais.

Depois de pendurar as chuteiras, ainda treinou durante breves tempos o Penãrol, até que, magoado, se decidiu afastar para sempre do futebol. “O futebol está cheio de miséria. Dirigentes, alguns jogadores, jornalistas todos fazem parte e um negócio onde não existe dignidade humana. Tentaram-me subornar várias vezes. Nunca os denunciei, nem corri aos pontapés. Disse simplesmente que não. Que fossem procurar outro com menor orgulho. Sempre me guiei pela filosofia simples que se aprende na rua, a grande universidade da vida”. É por isso que finda a carreira disse que se tivesse de repetir toda a sua vida, nem olharia para um relvado. “Estou muito arrependido de ter sido futebolista”, confessa amargurado.

CARREIRA

  • Club Deportivo Juventud, 1936/37.
  • Wanderers, 1937.
  • Peñarol de Montevideo, 1943 a 1955.

TITULOS

  • 6 vezes Campeão uruguaio com o Peñarol, (1944, 1945, 1949, 1951, 1953 e 1954).
  • 1 Copa América 1942.
  • Campeão do Mundo com o Uruguai em 1950.