Pelé

16 de Junho de 2005

pelé O Rei do futebol nasceu a 23 de Outubro de 1940, numa cidadezinha chamada Três Corações, a 250 quilómetros de S.Paulo. O seu primeiro rasgo futebolístico terá sido mesmo na barriga da mãe: “Como o bebé, chuta”, terá dito Dona Celeste acariciando o ventre onde se começava a gerar o maior jogador de futebol de todos os tempos. As primeiras peladas de rua, foram com um time de moleques chamado Sete de Setembro, mas a primeira equipa onde calçaria chuteiras, seria o Ameriquinha, e a primeira onde vestiria um equipamento completo chamava-se Cruzeirinho.

A grande caminhada de Pelé rumo á coroa real começaria, porém, quando o seu pai Senhor João Ramos do Nascimento, conhecido como Dondinho, saiu de Três Corações para ir jogar no Lusitânia, mais tarde o Bauru Atlético Clube, em 1945, tinha Pelé 5 anos. Seria nessa pequena cidade que Pelé se faria jogador de futebol, jogando no Baquinho, onde começou a destacar-se. Pelé viveria em Bauru durante onze anos, saindo para o Santos, em 1956, com apenas 16 anos. Dois meses depois ele já era titular da primeira equipa de S.Januário. Nove meses depois já era titular da selecção brasileira e um ano e nove meses depois já era campeão mundial com todo o mundo do futebol a seus pés. A maravilhosa história de Pelé na selecção brasileira começou a ser escrita a 7 de Julho de 1957, data da sua estreia no escrete canarinho. Jogava-se Brasil-Argentina, em pleno Maracanã e essa histórica opção pertenceu ao técnico Sylvio Perillo que, ao intervalo, a perder por 1-0, trocaria Del Vecchio pelo futuro Rei do Futebol. Aos 77 minutos, Pelé assinaria a sua primeira obra canarinha marcando o golo do empate. Tinha então 16 anos. Quando conquistou o mundo em 1958, tinha 17 anos e oito meses.

peléA origem do nome Pelé, pelo qual ficou mundialmente famoso o cidadão Edson Arantes de Nascimento, tem a ver com um guarda redes que praticamente ninguém conheceu. Tudo começou quando Dondinho foi jogar no Vasco da Gama de São Lourenço. Como o menino Edson tinha apenas 4 ou 5 anos e não podia ficar sozinho em casa, o “papai” futebolista levava-o para os treinos. Nesse tempo jogava então no clube, um guarda redes chamado Bilé que achando muita piada ao garoto costumava brincar com ele, dando-lhe bolas para ele chutar á baliza. Durante os jogos, ouvia depois a torcida a gritar: “Segura Bilé, Boa Bilé!” e aquilo foi ficando na sua cabeça até que, um dia, em 1944, quando a família já mudara para Bauru, resolveu incorporar esse guarda redes quando brincava com o pai Dondinho.

Quando agarrava as bola chutadas poe ele, o garoto Edson passou então também a repetir “Defendeu Bilé!” só que o seu sotaque mineiro tratou de mudar o nome e, trocando b pelo p, acabava por pronunciar Pelé, quando queria dizer Bilé. as pessoas acharam piada e começaram a chamá-lo também por Pelé, ou por Dico, o outro nome porque era tratado nas peladas de rua. Esta história foi confirmada por várias pessoas, inclusive o próprio Pelé que confessa ter brigado com quase todos os seus colegas porque não queria, de maneira alguma, que o tratassem assim. A lenda falaria, no entanto, mais alto. Quanto ao Bilé verdadeiro, sabe-se que depois de passar pelo Volta Redonda, deixou o futebol e tornou-se electricista, mas, conta quem o conheceu, que não passava um dia sem contar esta história de ter sido ele a dar o nome ao maior jogador d futebol de todos os tempos. Morreria em 1975, sem nunca mais voltar a encontrar Pelé.

Pelé, 1,80 m. de altura, era tudo num só jogador. Como escreveu Luiz Mendes,“nasceu para o futebol, trouxe no sangue o ritmo do samba aplicado ao futebol e jogava com a elegância de um sambista do morro, driblava com a firmeza de um passista e as suas arrancadas nos faziam escutar uma estranha sonoplastia, como se rufassem tambores ou como se cuícas e tamborins se fizessem ouvir na voz roufenha e vibrante das multidões empolgadas. Pelé era a mescla de tudo o que foi e é bom nos outros craques”.

pelé2Dele, Tostão guarda a imagem de “um guerreiro que, no campo, crescia quanto mais dura era a marcação. Sua perfeição unia-se com a simplicidade. Para além do brilho e magia, o seu futebol era objectivo. Quase nuca jogava para trás, nem fintava para os lados. Olhava sempre em frente, em direcção ao golo. Depois, era difícil derrubá-lo devido á sua potência muscular e equilíbrio. O seu futebol não continha excessos, nem carências” Vítor, defesa central do São Paulo que o teve de marcar muitas vezes dizia que “o que assusta é o olhar do Pelé. Já marquei atacantes que olham na bola e tenho jeito para lidar com eles. Há outros que olham no olho da gente e isso nuca me incomodou. Há outros que olham para os companheiros de equipa e vê.se logo que é o tipo de gente boa que não mexe com a nossa vida. Agora, o olhar do Pelé, eu não consigo entender nem pegar. Parece que só os olhos estão ali no rosto. O olhar não. Vocês compreendem o que estou a dizer?”

Descalço, perseguindo uma bola que saltitava na terra revolta como um sonho rebelde, o menino Dico sente-se um herói de banda desenhada. Pouco tempo depois, já calçava umas chuteiras velhas e gastas, e, após engraxar alguns sapatos num vagão de comboio conseguira sacar as moedas necessárias á inscrição num Torneio, onde, deslumbrado, faz parte de uma equipa de bairro organizada com os outros amigos de rua: o Sete de Setembro. Nas margens do campo, acotovelam-se olheiros de vários clubes. Entre eles, Valdemar de Brito, vedeta do futebol brasileiro dos anos 30, que fixa-se na arte e na fantasia de Dico, que então já respondia ao nome de Pelé, e convida-o a ir para o Santos.

Ainda hoje Pelé diz recordar-se de ver Valdemar conversando com sua mãe, tentando-a convencer a deixar o garoto a ir com ele: “Mas é uma dádiva de Deus”, e Dona Celeste respondia: “Mas o meu marido partiu a perna, a gente está toda hora sendo despejada e o clube onde ele joga não paga.” O pai de Pelé, Dondinho, era também jogador de futebol. Num jogou num grande clube, andava sempre de uma terra para outra em equipas de segundo plano, nunca atingindo a categoria de um verdadeiro craque. O problema maior estava, no entanto, em que eles moravam muito longe do campo do Santos, no meio da cidade de São Paulo. Pelé tinha de ficar no lar do clube, longe do “papaí” Dondinho e da “mamãe” Celeste. Valdemar de Brito chegou a chorar para tentar convencer Dona Celeste, mas isso nem era muito invulgar, pois ele era um sentimental. Um coração de manteiga que passava a vida a chorar por tudo e por nada.

pele3Seduzido pelo sonho, Pelé acabou por ir, mas logo poucos dias depois ficou tonto de saudades, até que decidiu fugir: «Não aguentava mais. Só queria voltar para casa. Uma noite, quando tudo dormia, eram seis da manhã, vi a porta do lar aberta, sem o guarda, arrumei uma troxa e botei pés ao caminho. Ao sair da porta, porém, surgiu Sabuzinho, um humilde funcionário do Santos, filho da cozinheira do clube que áquela hora se preparava para ir á feira que me perguntou “onde é que você pensa que vai? Volta já para seu quatro, seu moleque!” Vocês imaginam a loucura que eu ia fazer? Eu ia fugir!». Se Pelé tem conseguido escapar, o futebol hoje seria bem diferente sem a arte que o Rei lhe deu. Um pequeno episódio na vida de um garotinho com saudades que podia ter mudado toda a história do futebol. Mesmo assim, os remorços remoeram-no durante dias e Waldemar Caetano, velho companheiro desse tempo, conta no livro De Edson a Pelé, ainda hoje conservar religiosamente uma carta que Pelé lhe enviou de Santos desculpando-se: “Como foi possivel eu deixar que o Sete tenha perdido com o Marabá! Que vergonha. Pronto estarei de volta. Se Deus quiser ainda vou por ordem na equipa do Sete de Setembro.” Anos depois, o dedicado Sabuzinho, morreria afogado, quando já era auxiliar de roupeiro e uma espécie de faz-tudo do Santos, mesmo em frente a Pelé, quando durante uma folga tinham ido pescar para o alto de uma pedra na Praia Grande. Foi quando, distraído, Sabuzinho, escorregou, e caiu no mar. Apesar dos gritos de Pelé, que não sabia nadar, pedindo socorro, seria impossivel salvá-lo e assim, morria, anónimo, o homem que, afinal, pouco tempo antes, sem sequer desconfiar, ao agarrar um moleque fujão, mudara, para sempre, a história do futebol mundial.

CARREIRA:

Baurú Atlético. Santos, 1956 a 1974.

Cosmos de Nova York, 1975 a 1977.

TITULOS

3 vezes Campeão do Mundo (1958, 62 e 70)

2 Taças Intercontinentais com o Santos, 1962 e 63.

2 Copas Libertadores com o Santos, 1962 e 63.

11 Campeonatos paulistas com o Santos, 1956, 58, 60, 61, 62, 64, 65, 67, 68, 69 e 73.

11 vezes melhor marcador do campeonato paulista: 1957 (17 golos), 1958 (58), 1959 (45), 1960 (33), 1961 (47), 1962 (37), 1963 (22), 1964 (34), 1965 (49), 1969 (26) e 1973 (11).

6 Copas do Brasil (Santos, 1961, 62, 63, 64 , 65 e 68).

1 Liga do EUA com o Cosmos de Nova York, 1977.