PUSKAS

21 de Agosto de 2002

ESTA NOITE, EM BUDAPESTE, HOMENAGEM A FERENC PUSKAS.

Quando recorda os velhos tempos, a sua voz treme e os olhos enchem-se de água. Homens destes não deviam morrer nunca. Eles são a personificação do verdadeiro e belo futebol: Ferenc Puskas. O único homem que viveu duas vidas graças á incomparável magia do futebol. Na Hungria, com o Honved e a fabulosa selecção húngara dos anos 50, foi o Major Galopante. Em Espanha, com o grande Real Madrid e a selecção espanhola foi Pancho Puskas, El canõncito.

Quando esta noite vislumbramos a sua silhueta, que, apesar do passar dos anos, continua inconfundível, baixote, morfologicamente arredondado e com o cabelo preto coberto de brilhantina, reluzindo sob as estrelas de Budapeste, iluminando as águas do Danúbio, todos nós, simples mortais, devíamos parar para agradecer aos Deuses do Futebol este momento das nossa vidas.

Na nossa frente estará um dos maiores mitos vivos do futebol mundial: Ferenc Puskas. Graças á sua história, o particular entre a Hungria e a Espanha que hoje se disputa no velho Nepstadion, rebaptizado agora Estádio Ferenc Puskas, é muito mais do que um simples jogo de futebol. Frente a frente, numa sentida homenagem, estarão as selecções das duas pátrias que, no passado, o acolheram e, ao serviço e nos relvados das quais, mostrou ao mundo o seu futebol de encantar, com um centro de gravidade muito baixo escondendo uma assombrosa agilidade que, desenhada por um mágico pé esquerdo, atingia em poucos metros de terreno uma velocidade de tal forma estonteante que parecia capaz de, com a bola dominada, atravessar todo o campo num abrir e fechar de olhos, só parando quando o couro encontrasse o aconchego das redes. A linha que divide as suas duas vidas de Puskas, nascido a 2 de Abril de 1927, em Budapeste, no bairro de Kispest, tem uma data precisa: Outubro de 1956. Pelas ruas de Budapeste, crescia o descontentamento com o regime estalinista de Rakosi. Ao mesmo tempo, o Honved de Puskas encontrava-se em Bilbao para um jogo da Taça dos Campeões. Foi então que perante a crescente revolta os tanques soviéticos invadiram a cidade e esmagaram a revolução. Receosos, muitos jogadores, como Puskas, Kocsis e Czibor, decidem ficar no Ocidente em exílio forçado. Unidos, conseguem organizar uma digressão pelo Brasil, realizando vários jogos de exibição que valeram algumas receitas e repartindo depois religiosamente o dinheiro entre todos, como conta Puskas nas suas Memórias.

Chegaram a jogar no Maracanã e havia húngaros que lhes pagavam os hotéis e as refeições. Só dois anos depois ingressaria no Real Madrid. Era o inicio da aventura espanhola, a sua segunda vida. Apesar dos anos que passou em Madrid, acarinhado por toda a nação espanhola, Puskas, ao contrário de, por exemplo, Di Stefano, outro herói de dois mundos que ficou a viver em Espanha, nunca hesitou na hora de afirmar qual a sua verdadeira pátria: Hungria. Vetado pelo regime comunista, esteve 25 anos sem pisar o solo magiar.

Regressou, por fim, em 1991. Foi recebido como um herói pelo povo e pelos seus antigos companheiros do Honved, onde já não estava o amigo de infância Bozsik, morto em 1978 e que ao contrário dele regressara depois do jogo de Bilbao. Para ele, como gosta de dizer, quando nostálgico desfila as suas memórias, “o futebol foi mais do que a própria vida”. E foi, de facto.

HUNGRIA (1943-1956)puskas3

Kispest / Honved: 4 vezes campeão húngaro (50, 52, 54, 55)

Selecção húngara: 84 jogos (campeão olímpico 52, finalista Mundial-54) Em 1945, com 18 anos, foi, pela primeira vez, internacional pela Hungria, contra a Áustria. Integrado, a partir de 1949, no grande Honved, tornou-se em pouco tempo, uma grande estrela do futebol magiar, então a viver o seu período áureo.

Os seus grandes momentos, autênticas obras de arte do futebol mundial, seriam vividos, no entanto, com a sobrenatural selecção húngara dos anos 50: a Aranyacspat (equipa de ouro, em húngaro) que entre 14 de Maio de 1950, derrota na Áustria por 5-3, e o 4 de Julho de 1954, data da dramática final do Mundial-54 ficaria quatro anos sem perder, somando, em 32 jogos, 29 vitórias e 3 empates, 143 golos marcados e 33 sofridos.

Era um onze de sonho onde, ao lado de Puskas, brilhavam magos como Kocsis, Hidgkuti, Czibor, Bozsik, Lantos e tantos outros. Orientado pelo sábio Gustav Sebes eles dariam ao mundo um novo conceito de futebol: o 4x2x4, desmistificando, em pleno Wembley, no nariz dos altivos ingleses, o mítico WM, bastando para isso, mexer, tacticamente, na posição de um homem em campo: o avançado centro, que, no sistema húngaro recuava no terreno arrastando consigo o seu marcador, abrindo assim um espaço no centro da defesa adversária por onde entravam, em diagonais vertiginosas, vindos dos flancos, os velozes Kocsis e Puskas.

Era um esquema que, no papel, desenhava-se em MM, sem bola, e UM, com bola. Esquerdino prodigioso, Puskas era fundamental para o êxito desse forma superior de jogar futebol. A final do Mundial-54, onde actuou lesionado, mancando 90 minutos, vitima de uma violenta entrada do alemão Liebrech, ainda num jogo da primeira fase, marcaria o fim dessa epopeia magiar. Apesar das dores, Puskas, que já não actuara nos dois jogos anteriores, decidiu entrar em campo, fazendo logo aos 6 minutos o primeiro golo. Para a eternidade, a frieza dos resultados assinala a vitória alemã por 3-2, mas para os estudiosos da bola fica a memória de um golo mal invalidado, por fora-de-jogo, a Puskas, nos derradeiros minutos, e que daria o 3-3 aos húngaros. A história poética do futebol merecia esse outro resultado.

ESPANHA (1958-1968)

puskas4Real Madrid: 5 vezes campeão espanhol (61, 63, 64, 65, 67); 3 Taças dos Campeões (1960) Selecção espanhola: 4 jogos (Presença no Mundial-62) A renúncia em regressar a Budapeste iria ter consequências. Inclemente, a FIFA, pressionada pela Federação húngara aplicou-lhe um castigo de um ano e meio meses sem jogar.

Quando terminou o castigo, em Julho de 1958, Puskas estava com 31 anos, tinha engordado 18 quilos, e os grandes clubes desconfiavam que ainda fosse o mesmo. Foi então que, através do húngaro Emil Osterreicher, antigo director do Honved que também fugido da pátria magiar se refugiara em Espanha, surgiu o Real Madrid a contratá-lo.

Em Madrid, Puskas, entre 1958 e 1966, fez 372 jogos e marcou 324 golos, ficando então conhecido como Pancho Puskas, El Cañoncito. Uma aterrorizante capacidade goleadora que o levaria a ser convidado, já com 35 anos, para jogar na selecção espanhola no Mundia-62. Era um conjunto de perfil balzaquiano, onde ainda moravam Gento, Santamaria, Del Sol e, entre outros, Di Stefano que, lesionado, não realizaria, no entanto, nenhum jogo. Formando dupla atacante com Peiró, ao lado de Suarez e Gento, acabou vitima dos sistemas ultra-defensivo do seleccionador Helénio Herera, condenado a viver nos últimos trinta metros do terreno sem o mesmo apoio que dispunha no tempo da equipa de ouro magiar. Apenas faria quatro jogos com a selecção espanhola.

Mesmo assim, a verdade é que, diz-se, foi devido a temer o seu terrível rasgos que, no jogo com o Brasil, Didi decidiu jogar mais recuado no terreno, como cabeça-de-área, receoso que, sozinhos, os centrais Zózimo e Mauro, não conseguissem segurar a dupla atacante espanhola. Para quem sente o futebol como algo de sagrado foi muito estranho vê-lo, oito anos depois do memorável Mundial-54, vestir a camisola espanhola.

Entre a Hungria e a Espanha, de 1943 a 1966, apontou 511 golos em 533 jogos oficiais. Retirou-se dos relvados com 39 anos e enveredou pela carreira de treinador.