ROBERTO MANCINI: “Efeitos especiais”

29 de Maio de 1999

Quando, no decorrer de um jogo, as câmaras fixam um grande plano de Mancini, vem-nos à mente, num ápice, a imagem de um feroz oceano subitamente feito num calmo e imenso lago. Segundos que se perdem no olhar de um jogador que parece viver noutra era, onde há tempo para tudo e o futebol é jogado em "slow motion", mas com maior beleza e eficácia. De Mancini, uma referência obrigatória para os românticos do futebol, pode dizer-se tudo: classe, estilo e personalidade. Para ele, a bola não tem segredos. Nos seus pés, ganha efeitos de outras eras, viaja no tempo e sente-se como entre um grupo de meninos alegres a jogar nos baldios de qualquer vila italiana. Depois, ao anoitecer, vestindo "smoking", é capaz de a convidiu para jantar à luz das velas e fazer-lhe uma irresistível declaração de amor. Sedução italiana, claro. É impossível, depois de ver Mancini jogar, não se ficar a gostar de futebol.

Com 34 anos, Mancini sente que está a chegar ao fim o seu longo caminho pelas rotas do Calcio. O suave aroma do seu futebol percorreu diferentes épocas do futebol italiano. Desde os anos 80, quando Liedholm adormecia nos jogos, até à "zona pressionante" de Sachi nos anos 90, passando pelo "cattenacio" de Trapatoni. Sistemas atrás de sistemas. Em qualquer um, manteve o mesmo estilo e ritmo de jogo, como um relógio suíço. Um jogador para todas as épocas, com inteligência para decifrar o jogo, fantasia para inventar um lance decisivo e, por fim, técnica deslumbrante. Tão depressa se adaptaria ao futebol de fins do séc. XIX, como ao estilo físico dos nossos dias. Quando, em Julho de 97, vestiu o azul-celeste da Lazio, depois de 15 anos - uma vida! - com o azul-marinho da Sampdoria, sentiu-se como no primeiro dia de escola. Na memória de Super-Mancio, repousa o utópico "scudetto" da "Samp-simpatia", em 91. Ainda hoje, oito anos depois, os "tiffosi" genoveses, quando se lembram desse dia, festejam-no da mesma forma, como se estivesse a suceder neste preciso momento. Mas, agora, a realidade é outra. Hoje, os dois heróis dessa conquista, Mancini e Vialli, grandes amigos, brilham longe. Uma amizade eterna como o futebol de Mancini, dizem. Há tempos, durante um especial de rádio, "Mancio", na altura em que se falava que podia jogar em Inglaterra, respondia a perguntas dos ouvintes quando surgiu, já perto do fim, uma chamada diferente: «Sou adepto do Blackbum, falo de Londres para lhe dizer, a si e ao seu treinador, que não o queremos na Liga inglesa». Gargalhada de Mancini. É Vialli que fala, do outro lado. E sefor para jogar na equipa de Gianluca?, pergunta-se: «Não, porque sei que ele não me poria a jogar. . .» Os dois, juntos, no limiar da realidade. «Estou certo qtie voltaremos a jogar juntos... nas velhas-guardas!», responde Mancini, alegre.

ROBERTO MANCINI Efeitos especiaisDizem que esta Lazio das estreias tem a vantagem de ter dois treinadores: Eriksson, no "banco", e Mancini, no relvado. Nada mais ~ certo. Rendido, Eriksson, quando faIa do seu elenco de estrelas, diz convicto: «Todos podem ainda melhorar mais... Mancini, não sei!» Custa a entender como um jogador como Mancini viveu quase sempre à margem da selecção. Os treinadores preferem os jogadores que não inventam e correm muito, mesmo atrás das bolas que vão sair, aos profetas da criação. A única concessão foi para Baggio, e só a espaços. Nem Fellini faria melhor. O seu período "azzurro' é entre 87 e 90, entre um Europeu e um Mundial. Mas mesmo nessa fase, em pleno projecto- Vicini, foi sempre um artista incompreendido. A hora do adeus? «Veremos um ano de cada vez, acredito que ele quer bater o recorde de Vierchowod», solta Eriksson. Anos atrás, Mancini disse que gostaria de terminar a carreira nos EUA. Até lá, continuem atentos aos seus números de magia. Se a Lazio vencer o "scudetto", ninguém acredita que Mancini deixe de jogar na próxima Liga dos Campeões. Afinal, o seu lugar por vocação e mérito.

CARREIRA

  • Bolonha: 30 jogos, 9 golos.
  • Sampdoria: 424 jogos, 133 golos.
  • Lazio: 126 jogos, 24 golos.
  • Leicester: 4 golos.
  • Internacional italiano
  • 36 vezes, 4 golos.
  • Bologna 1981/82.
  • Sampdoria, 1982 a 1997.
  • Lazio 1997 a 2000.
  • Leicester 2001/02.

TITULOS

  • 4 Copas Italia: Sampdoria, 1985, 1988, 1989, 1994.
  • 1 Taças das Taças com a Sampdoria, 1990.
  • 1 Supercopa de Italia com a Sampdoria, 1991.
  • 1 Scudetto com a Sampdoria, 1990/91.
  • 2 Copas Italia com a lazio, 1998 y 2000.
  • 1 Taça das Taças, Lazio, 1999.
  • 1 Supercopa de Italia com o Lazio, 1999.
  • 1 SuperTaça de Europa com o Lazio, 1999/00.
  • 1 Scudetto: Lazio, 1999/00.