SANDOR KOCSIS

16 de Junho de 2005

Ficou conhecido como o homem que queria conhecer os pássaros, tal a forma como saltava ou voava para a bola. Em Espanha, chamaram-lhe pássaro louco. A sua história é das mais emocionantes da história do futebol mundial. Nasceu em 1930, filho de um carpinteiro dos arredores de Budapeste. Com 16 anos, ingressou no Ferencvaros, que reparou no seu talento em 1946.

Poucos anos depois, começava-se a formar a grande equipa do Honved, que de imediato vislumbrou nessa jovem promessa, então com 19 anos, um jogador de grande futuro. No onze do exército e na selecção magiar, Kocsis, alinhando como interior direito, mesmo nas costas de Puskas, tornou-se um dos jogadores mais influentes. Rápido, exímio nas diagonais, surgia muitas vezes como um verdadeiro ponta e lança, no centro da área, para cabecear os centros precisos de Budai, na direita, e Czibor, na esquerda. Um estilo que, na Hungria, lhe valeu a denominação de Cabeça de ouro. Marcou 75 golos em 68 jogos internacionais, sagrando-se o melhor marcador do Mundial-54 com 11 golos, sendo elevado á categoria de capitão de infantaria pelos serviços prestados á nação.

Foi sempre um homem introvertido, que não gostava de falar muito. A invasão soviética de Budapeste também o apanha junto com os seus colegas do Honved, em Bilbao. Como todos os outros, hesita muito em regressar. Ao contrário de Puskas e Szabo, é autorizado a reentrar no país. Pensa muito e decide partir com a sua família para Berna, onde passa um ano como jogador-treinador do modesto Young Fellows. É então que o seu amigo Laszy Kubala, há 6 anos em Barcelona, resolve falar deles aos dirigentes catalães. Diz-lhes que Kocsis é só um dos melhores jogadores do mundo. Pouco antes já os convencera a contratar Czibor. Em 1958, o cabeça de ouro ingressa no Nou Camp. Os seus primeiros tempos foram de difícil adaptação. Passa os dias triste, nostálgico da sua Budapeste onde ficaram todos os seus amigos. Quando começa a falar a sua língua, o bom futebol, torna-se um temível avançado que vai marcar uma era no clube blaugrana, conquistando duas Ligas espanholas, 59 e 60, duas Taças UEFA, 58 e 60 e uma Taça de Espanha, 59.

SANDOR KOCSISA 16 de Outubro de 1968, com 39 anos, Kocsis, abandonou os relvados. Naturalizado espanhol, tenta a carreira de treinador, no Alicante. Um ano depois, porém, sente-se insatisfeito. Não encontra mais prazer no futebol fora dos relvados e abre um bar-café perto do Nou Camp, a que chama Le Kocsis. O negócio não corre muito bem. Depressivo, Kocsis refugia-se na bebida. Pouco tempo depois, recebe a noticia de que a sua perna esquerda sofre de trombose. Após inúmeros exames, com vários médicos, chega a brutal decisão que o obriga á amputação da perna. É o desespero. Em poucos dias o seu cabelo fica quase todo branco.

Ao mesmo tempo fica a saber que, na Hungria, Bozsik e Lantos tinham morrido e Budai agonizava com uma hemorragia cerebral. Kocsis recusa usar uma prótese e todos os dias diz desejar a morte para ir ter com o seu pai e amigos. Esconde-se num quarto do Hotel Royal, onde estava com sua mulher, deixa de falar com todos, não quer saber sequer os resultados dos jogos e começa a delirar. Um dia, quando sozinho, cambaleia até uma janela e, suicida-se, atirando-se para a rua, onde todos ficam estupefactos. Recusam-se a acreditar ser aquele o fim do futebolista que anos antes os fizera felizes. É um Domingo de Julho de 1979. O dia em que o mundo parou para Kocsis. Ás portas do Nou Camp, continua a existir um bar que anos antes fora seu, chama-se agora Ya-Ya. Para a história, fica a memória do homem que, dizia-se, falava com os pássaros quando saltava para cabecear a bola.