SÓCRATES

16 de Junho de 2005

Nunca encontrei nenhuma pessoa com quem não aprendesse qualquer coisa. A frase é de Sócrates, filósofo grego, mas pode ser utilizada para definir a personalidade de outro Sócrates, o médico futebolista, que esteve no futebol como na vida. Formou-se em medicina aos 24 anos, mas o seu sucesso nos relvados levou-o a largar a medicina para se dedicar por inteiro ao futebol, no Corinthias e, claro, na selecção brasileira, foi muitas vezes capitão de equipa. Seria ele, no inicio dos anos 80, o grande impulsionador, entre os jogadores, da célebre Democracia Corintiana.

Quase 20 anos depois sente ter deixado nesse tempo de fascinação o melhor da sua vida terrena, mesmo dizendo agora que futebol nunca mais. Na profundeza de Ribeirão Preto, encostou a bola num canto do jardim de sua casa e, com 47 anos, mergulhou na outra face da sua vocação humana, a medicina. Conserva, porém, a mesma barba de culto esquerdista, simpatizante do PT, o partido de Lula, engordou um pouco, fuma para pensar melhor e confessa que, hoje, quase todos os seus amigos nada tem a ver com o futebol.

SOCRATESNos relvados, Sócrates, famoso pelos seus toques de calcanhar, sempre transmitiu serenidade. Quando a bola ia parar a seus pés, parecia que o jogo ficava em slow-motion. Num ápice, porém, quando a começava a tocar, colocava a técnica ao serviço do espirito e levantava o Estádio. Quando chegou ao Corinthias, em 1978, apenas erguia um braço para comemorar seus golos. Depois, na euforia do Parque São Jorge vibrava como ninguém.

Fez 294 jogos e 168 golos, entre 78 e 84. F oi 3 vezes campeão paulista, 79, 82 e 83. Nos anos do bicampeonato, foi ele a grande estrela, marcando 39 golos e liderando o grupo, dentro e fora da quatro linhas. Jogou no Corinthias até 1984, ano em que se transferiu para a Fiorentina. Em Itália, no entanto, nunca foi o mesmo que brilhara no Mundial-82. Realizou, uma pálida época, em 84/85, 25 jogos e 6 golos, regressando ao Brasil, para jogar no Flamengo, após um discreto Mundial-86. Tinha então 32 anos.

No futebol carioca, porém pareceu sempre desmotivado e acabou por abandonar os relvados mais cedo do previsto. Tinha a festa de despedida marcada para 15 de Setembro. Abandonou cinco meses antes, cansado do futebol.

SOCRATES1Em finais de 1999, reapareceu, já com a barba mais branca, na Região dos Lagos, no litoral do Rio, num paraíso chamado Cabo Frio, como treinador de uma equipa da segunda divisão do futebol carioca: O Cabo Frio Futebol Clube. Levou como seu adjunto Leandro, o lateral direito da selecção de 82, e instaurou naquele pequeno clube uma filosofia que fazia lembrar os saudosos tempos da democracia corinthiana.

Para começar, Sócrates libertou os jogadores dos estágios, coisa que ele sempre detestou nos seus tempos de futebolista e estimulou a discussão em grupo, realizando plebiscitos entre os jogadores sobre várias questões, consulta que estendeu á cidade para toda a população escolher as cores da nova camisola do Cabo Frio. Outra iniciativa foi colocar um quadro no balneário. Ali, todos os dias os jogadores teriam de colar uma manchete de jornal escolhida por eles próprios e discuti-la antes dos treinos. Convidou psicólogos para fazer palestras sobre sexo, doenças venéreas e política e adoptou a capoeira e a técnica chinesas Tai Chi Chuan na preparação física dos jogadores.

MASOPUST3Detesta dar prelecções aos jogadores e no banco raramente o vemos a gritar. Passa quase todos os jogos de pé, fumando, com uma mão no cigarro e a outra num copo de café. O trabalho de preparação, para ele, faz-se durante a semana. Vestir um fato e colocar uma gravata é que parece estar fora de questão. Nos dias mais frios orienta a equipa de Jeans e camisa por fora das calças. Nos dias de calor, dirige de bermudas e chinelos. É assim, sempre foi, uma das personagens mais carismáticas do futebol brasileiro.

Continua a fumar, passa horas nos bares da Praia do Forte e do Peró bebendo cervejinhas bem geladas, participando em rodas de viola e lendo o mais que pode. "Vou continuar sempre assim. Até quando? Até quando não tiver cara de rotina!”.

 

CARREIRA:

1973 - 1978 Botafogo.

1978 - 1984 Corínthians.

1984 - 1985 Fiorentina.

1986 - 1987 Flamengo.

1988 Santos.

1989 Botafogo.

TITULOS:

Campeão Paulista no Botafogo 1979.

Campeão Paulista no Botafogo 1982 e 1983.

Campeão Carioca no Flamengo 1986.