Valderrama

03 de Dezembro de 2002

A HISTÓRIA E O PERFIL DE UM FUTEBOLISTA QUE VIROU ESTÁTUA

Toda a Colômbia ficou assombrada. Nunca no mundo se construíra uma escultura de bronze com tão grandes dimensões, 9 metros, para homenagear, até á eternidade, um futebolista. Uma obra colossal, erguida na terra que o viu nascer, há 41 anos, Santa Marta, destinada a homenagear um mito do futebol sul americano: Carlos Valderrama, El Pibe de Colômbia, que enquanto ainda passeia o seu futebol de memória nos EUA, continua a sonhar em terminar a carreira no clube que o viu nascer, o Union Magdalena.

Os anos passam, mas o visual permanece igual. O cabelo enorme, louro e desordenado, as pulseiras e os colares da Sierra Nevada, o perfil de Caudillo e o olhar meio perdido, sempre de poucas palavras, «Todo bien, todo bien», repete ao ritmo do toque, o estilo de jogo que, nos anos 90, deu uma identidade própria ao fútbol colombiano de Pacho Maturana, não como mera opção estética, mas antes como a estratégia de jogo ideal para talentos irreverentes como Carlos Valderrama, dengoso e cerebral, a camisola por fora dos calções, as meias caídas e a bola a seus pés, poema de técnica, como uma amante submissa.

Um estilo de jogo que parecia zurzir uma espécie de teia que avançava com a bola de pé para pé, envolvendo o adversário, confundindo-o e escondendo-lhe a bola, para, logo depois, em surdina, o ferir de morte, com um passe milimétrico e preciso para um espaço vazio. Por isso, diziam que jogava um futebol de memória. Hoje, no calor do Colorado, nos states, para onde partiu, em 96, deixando La cancha de Barranquilla, como no mar das Caraíbas que namora o pueblo de Santa Marta na Colômbia, sua terra natal, ainda parece o mesmo Pibe que há três décadas atrás começou, no Unión Magdalena, a dar os primeiros pontapés na bola, pela mão de seu pai Carlo Jaricho, então defesa central do clube que, em breve, iria descobrir o jogador mais famoso da história do futebol colombiano.

Aos 41 anos, de regresso ao seu pueblo, junto de velhos amigos, como El Chonto Herrera, famoso cantante colombiano, Bernardo Redín, Mario Coll e Luís Carlos Perea, entre outros, Valderrama sente-se de novo Pibe, homenageado pelo alcalde de Santa Marta, Hugo Gnecco, orgulhoso por o voltar a receber, descerrando, na entrada do Estádio Eduardo Santos, uma estátua de bronze sua, ideia do ex-futebolista Juan Tito Gomez, com sete metros de altura e sete toneladas de peso, erguida num pedestal de dois metros, obra do célebre escultor Amilcar Ariza, realizada durante 8 meses com o apoio de 20 trabalhadores de Bogotá, e destinada a eternizar por toda a Colômbia, a memória do seu maior jogador de todos os tempos. A retirada dos relvados é que continua adiada. No horizonte, pelo menos mais uma época no Colorado americano, mas, na mente, sempre o sonho de, um dia, terminar a carreira no clube que o viu nascer, o Union Magdalena.

De Pibe a Caudillo

valderramaEm meados dos anos 80, a explosão de Valderrama abalou todo o futebol colombiano que, finalmente, após longos anos na segunda linha do futebol sul-americano, descobria uma estrela capaz de o fazer sonhar. Depois de passar, sem grande brilho, pelo Milionários de Bogotá, o seu verdadeiro descobrimento sucedeu, em 85, no Deportivo Cali, quando fez dupla com Bernardo Redín, alcançando dois subtítulos nacionais.

Em 1988, ingressa no futebol francês, no Montepellier, e vence a Taça de França em 90. Passaria ainda pelo Valladolid, mas seria na Colômbia que voltaria a soltar o seu futebol de cristal, agora no Junior Barranquilla, com o qual vence dois campeonatos colombianos, (93 e 95), para além da meia-final da Copa Libertadores em 93. Em 1996, sentindo o crepúsculo da careira a aproximar-se deixou-se seduzir pelo canto de seria americano e ingressou na milionária MSL, a Liga Americana de Soccer, passando por Tampa Bay, Miami Fusion e, na última época, Colorado Rapids. Em todos deixou a inconfundível marca do seu talento, ocupando, ao fim de cinco épocas, o primeiro lugar no Ranking de assistências na história do futebol americano, como 116 passes de morte para golo. E a história continua...

A EUROPA E A SELECÇÃO: Ás portas do paraíso

Em termos internacionais, Valderrama nunca jogou em nenhum clube de grande dimensão mundial ou europeia. O Montpellier, em França, em Espanha, o Valladolid, na época de 91/92, pela mão do seu treinador paternal, Maturana, e junto com o amigo Higuita. Nas canchas espanholas, porém, como por todo o Velho Continente, poucos entenderam a beleza poética do seu futebol. Chamaram-lhe o estilo Pescadito, aquele que parece que nunca sai do sitio, pelo que passaram a assobia-lo constantemente. Maturana, sugeriu-lhe então, para o proteger e colocar água na fervura, só disputar os jogos fora, onde a pressão dos adeptos seria, obviamente, muito menor. Orgulhoso, convencido da superioridade moral do seu jogo de toques curtos, Valderrama respondeu-lhe sem mover um pelo da sua gigantesca cabeleira loura: «Mire Professor, faço-lhe outra proposta. Entro sempre nos jogos em casa e fico no banco nos de fora». A palavra medo nunca fez parte do seu vocabulário. É nesse estado de confiança que nascem os verdadeiros líderes, os famosos Caudillos, do futebol mundial.

Com a selecção em três Mundiais

Valderrama vestiu por 94 vezes a camisola da selecção colombiana. O seu primeiro jogo foi em 1985, era seleccionador Gabriel Ochoa, frente ao Paraguai, nas eliminatórias para o Mundial.86 e perdeu 0-3. O último foi em França, no Mundial-98, quando perdeu frente á Inglaterra por 2-0. Durante 13 anos ele foi a Colômbia de calções e chuteiras. Esteve presente em 3 Mundiais, 90, 94 e 98. Entre elas, porém, reside o terrível fracasso do EUA-94, quando após uma fase de apuramento fabuloso, culminada com uma inolvidável vitória na Argentina por 5-0, a selecção colombiana chegou aos EUA como uma das grandes favoritas. Era a geração fantástica de Asprilla, Rincón, Valência, entre outros. A eliminação na 1ª fase (derrotas com EUA, 2-0, e Roménia, 3-1) mergulhou todo o país no desespero e o assassinato do central Escobar no regresso a casa colocou o marco trágico numa caminhada que parecia destinada a só terminar no paraíso. Como sua maior proeza na selecção, figura o 3º lugar na Copa América de 1987, sendo eleito o melhor jogador sul-americano do ano, á frente de Maradona e Francescoli.

A CRUZADA DE VALDERRAMA

Data de Nascimento, 2/9/1961, em Santa Marta, Colômbia.

Equipas

  • Union Magdalena (1981-1984),
  • Milionários de Bogotá (1984-1985),
  • Deportivo Cali (1985-1988),
  • Montpellier (1988-1991),
  • Valladolid (1991-1992),
  • Medelín (1992-1993),
  • Atlético Barranquilla (1993-1996),
  • MLS/EUA: Tampa Bay, Miami Fusion, Colorado Rapids (1996-2002).