VIALLI

27 de Abril de 1997

"Mamma Mia" Gianluca Vialli! "Expressão criativa" do temperamental "calcio", por entre "o charme discreto da burguesia juventina",entre o "bravissimo" e o "pecato", tão fabuloso a jogar e a marcar, como a criar climas de confusão. Uma carreira caleidoscópio de emoções, desde a Cremonese á mítica Juventus, passando pelos "tempos românticos" na Sampdória, até á descoberta de uma "nova vida" no Chelsea. "Ciao!" Itália, "Hello"! Inglaterra.

Como que nascido de um pacto com qualquer entidade divina, o futebol em Itália é "um estado de alma", expressão latina por entre ambientes ternos e truculentos, onde as "estrelas" brilham mais alto. Gianluca Vialli considerado pelo escritor italiano Walter Sitti "o maior fenómeno cultural do país" é uma personagem controversa, como o pássaro de Bhagavad Gita, que mergulha e volta á superfície sem ter molhado as penas.

Vialli- 1,86 m., 83 k.- nasceu no ano de 1964, estavam nessa altura os Beatles no auge, em Cremona, capital da província da Lombardia, uma cidade cercada por velhas muralhas, conhecida no sec.XVII e XVIII pelas suas oficinas de instrumentos musicais e pela indústria de tecidos e chapéus. Foi aí, no "clube da terra", a Cremonese que começou a dar os primeiros pontapés na bola, até 1984, ano em que um homem chamado Paolo Montovani, descobriu nele o talento e a "grinta", garra, que sempre desejou ver "dentro" das camisolas da Sampdória, e o levou para Génova, no compartimento da Ligúria, uma cidade que vista do mar justifica o qualitativo de "mágica", com um pitoresco panorama de igrejas, palácios e casas, por entre a zona velha emaranhado de ruas estreitas e tortuosas, contrastando com os edifícios altos e as avenidas largas dos tempos modernos.

Foi nessas atmosferas, passeando pela comercial Via Garibaldi e pela notável ponte Carignano, que Vialli, encontrou a inspiração para "decorar" o estilo raçudo do seu futebol, fonte mágica de impulsão para a conquista de um "scudetto" histórico, em 1991, onde foi junto com o amigo Mancini, o profeta da Samp-simpatia, uma equipa onde também brilhavam o "eterno" brasileiro Toninho Cerezo e o "furacão" Lombardo, que conquistou, sob as ordens do jugoslavo Boskov, os "corações do calcio".
Dele, dizia este carismático técnico jugoslavo, seu principal confidente e conselheiro, ele também antigo jogador do clube que:" Vialli é igual no centro, na direita ou na esquerda do ataque. Defende como um tigre, ataca como um leão e é ágil como um puma, com ou sem a bola. Para além disso ele é muito estranho e forte. Têm todas esses traços e ainda uma enorme personalidade. Um treinador ou um companheiro de equipa pode sempre falar com ele, discutir com ele, aconselhá-lo, ajudá-lo. Um grande, grande profissional!"

Esta época de 96-97, Vialli largou a "bota da europa" e rumou "para lá da mancha", rumo a uma aliciante aventura no futebol inglês, no ocaso de uma carreira brilhante, mas ainda a tempo de seduzir os milhares de excitados e apaixonados adeptos ingleses com a sua notável categoria e com emoção, ou melhor, como o próprio Gianluca diz "com adrenalina. Se calhar é sobretudo por isso que deixo Itália.

Reparem, em 15 anos de Calcio aconteceu-me de tudo. Ganhei muitas coisas, perdi também muitas coisas. Quando entendi que a Juventus já não tinha a intenção de me conservar, poderia ter ido para Parma, regresssar á Sampdória, ou ir jogar para qualquer outro clube italiano. Mas a adrenalina nunca mais seria a mesma. Quando Gullit me telefonou senti de imediato que o Chelsea era a escolha certa. E se Rudd não tivesse pensado em mim, teria assinado pelo Glasgow Rangers."

VIALLI1Para trás fica Turim, onde chegara em 1992, numa altura em que Montovani já mais nada podia fazer para o segurar em Génova, transferindo-o para a Juventus por uma soma "record" nessa altura. Fora um ano de "emoções fortes" para Vialli, recuperado das "loucas noites romanas" do Mundial-90, voltara a ser o emblema da "squadra azzurra" de Vicini, mas ao chegar á "casa juventina", envolto em milhões de liras, cedo se notou que a adaptação a novos métodos não seria fácil. Trapatonni e, sobretudo Boniperti, director desportivo, real mentor do espirito da "Juve", queriam fazer dele um centro-campista, um "playmaker", e diziam que o faziam para o fazer regressar á selecção de que se despedira, em Moscovo, depois de falhado o apuramento para o Euro-92.

Diz Vialli:"Boniperti? Não estivemos de acordo em muitas situações, é certo, mas sempre apreciei o facto de ele respeitar as ideias diferentes das suas. A intenção de me transformar num centro-campista era uma manifestação de estima. Ele queria que eu fosse em campo como ele fora no seu tempo: um leader. E para ele um leader deve estar no meio-campo. Pensava transformar-me num Matthaus (como jogava no Inter, entenda-se) para arrancar de trás e ter potência para chegar á baliza ainda com força para rematar, ou tudo com sentido táctico para passar a bola em velocidade. Mas duas partidas depois, era claro que isso não resultava, mas ainda agora não considero essa ideia uma loucura".

Na mente de Boniperti estava a ideia de reinventar o estilo de Platini, mas Viali desmestifica:"Platini foi um lider dentro do campo, unia-o o grupo no relvado, eu faço a união do grupo no balneàrio" Nesses tempos, Sachi, chegava à "nazionale", e com ele um esquema de jogo que dispensava Vialli. Em Dezembro de1992, em Malta, durante o estágio para um jogo, Gianluca queixou-se a Ancelotti, seu antigo colega de equipa e actual seleccionador-adjunto, dos métodos de Sachi e do seu estilo duro e rígido, que insistia em os jogadores se levantarem da cama ás 8 da manhã, e não brincarem á mesa ou não dizerem piadas no autocarro, uma "atitude de vida" completamente oposta á personalidade sinuosa, ora super-profissional, ora mais "blazé", descontraída, de Vialli, com fama e perfil atípico de "D.Juan".

Desde esse jogo iriam suceder-se paralelamente na imprensa os confrontos com Sachi, que receoso da "carga emocional" de Vialli nunca mais o voltou a convocar, sugerindo indirectamente "que certos jogadores não têm suficientes requisitos morais para representar a Itália". Sachi disse que era "uma consideração genérica", mas todos perceberam o destinatário da mensagem. A partir desse momento, o seleccionador italiano com "olhos de cientista louco" nunca mais quis voltar a falar no assunto, mesmo perante as declarações "lança-chamas" de Vialli: "Sachi voltará cedo para casa, e eu poderei voltar sem ele. Nunca nos entendemos, não me importo de dizer que na final do Mundial dos EUA torci pelo Brasil!", ou após a derrota, em casa, contra a Croácia(1-2), no apuramento para o Euro--96: "Bem, não correu muito mal, pois não? Reparem, a Itália jogou três jogos nos últimos dez dias e ganhou dois: contra as reservas e contra a equipa amadora de Arezzo...".

Vinte dias antes da convocatória para a fase final em Inglaterra, quando o tema apaixonava todo o país futebolístico, e quando Sachi, muito pressionado pela critica dizia que "a porta não está fechada na cara de Vialli", Gianluca, quase um "bicho exótico" do "calcio" declarava:"O que espera que aconteça? Espero que não me chame e que toda a opinião pública a considere uma opção errada". E foi exactamente o que sucedeu, afirmando Sachi que fora "uma mera opção táctica".

VIALLI2Aos olhos do infernal mundo do "Calcio", Vialli sempre pareceu uma personagem autêntica, verdadeira, dentro e fora do relvado, o seu carisma e o seu "glamour" eram o local privilegiado de gestação dos seus sublimes golos e dos seus técnicos e poderosos movimentos, mas as constantes e surpreendentes mudanças de "look", lembrando figuras ora saídas de uma narrativa de "Gengis Khan", ora saídas de um guião do "Caminho das Estrelas", revelavam a sua instabilidade psicológica e a sua inicial desadaptação aos "labirintos" de Turim, onde já "brilhava outra estrela", fascinante, por quem esperavam, com máquinas fotográficas, as dezenas de "ragazzas", ambiciosas dos olhos de Ornella Mutti, dos peitos de Sabrina e das pernas de Sophia Loren, ao frio, expectantes, ansiosas de ver passar... Roberto Baggio!

As exibições de Vialli revelavam-se irregulares, a pouco e pouco apagam-se os ecos das proezas genovesas, da mesma forma que se esbatem nas paredes da cidade os antigos cartazes de Harry Belafonte. A "prensa" caí-lhe em cima: Vialli "finitto!". Mas num ápice, quando toda a Itália "ressacava" da tristeza do mundial americano, Vialli, torna-se um "gigante", um "touro enraivecido" como que saído do preto-e-branco do filme de Scorcese, no desafio ás cúpulas do "calcio" e á famosa declaração do presidente Matarrese:"Vialli e Zenga nunca mais voltarão a jogar pela selecção", e explode, possante, com a força de um "Deus grego", blasfemo, implacável a devastar as redes adversárias, a voar para a bola, objecto de desejo, que saí fulminante dos seus pés, sete quilos mais forte do que quando passeava na "Samp", com a aura de um "líder" e um corpo de culturista corre o campo todo, na defesa e no ataque, e sorri, ironiza, ergue os punhos, oferece a camisola aos "tiffosi", renasce! Vialli rescreve a sua estória e leva a Juventus, órfã na maioria do tempo do "toque de midas" de Baggio, á conquista do "scudetto" e da Liga dos Campeões por que suspiravam há uma dezena de anos.

É com emoção que Vialli fala destas conquistas:"As duas ultimas épocas foram magníficas porque a unidade e a identidade no balneário era total, uma questão de espirro, cheia de "homens fortes" como Ravanelli, Sousa, Vierchowod, ou até jogadores que não eram titulares com Marochi e Carrera. Espero que Lippi consiga recriar um grupo com este espirito mágico. Não será fácil, é uma magia que existe ou não. Pode-se comprar o melhor jogador do mundo, mas se não estiverem com ele como nós, não vai a lado nenhum".

VIALLI4Jogadores e homens com os traços de Vialli, ás vezes intratáveis e inacessíveis ao diálogo, seduzem desalinhados e "fantasmas", mas "desaparecem" por entre os "ghettos" do seu carisma irascível. Perde ele, perde o futebol. Incomoda e abana a prepotência de dirigentes e personagens paralelas mal formadas, mas ficando a ideia de que um Vialli menos polémico, e ao mesmo tempo autêntico, quisesse verdadeiramente regressar á selecção o teria conseguido, tal só serve para apagar prematuramente o brilho, necessariamente efémero, destas "estrelas", "candentes" por vocação e temperamento.

O mítico Gigi Rivera, emblema da Itália nos anos 70, e hoje seu embaixador futebolístico, comentou ironicamente que:"Até Vialli ser seleccionador nacional, as suas chances de jogar pela Itália são zero! Não se pode passar todo o tempo a atacar e a criticar o seleccionador e depois esperar que este o convoque..." Neste momento, os duelos com o Milan ou os "derbys" com o Torino, passaram a ser uma mera recordação. Para Vialli a adrenalina passou a estar nos centenários jogos do Chelsea com o Arsenal e o Tottenham. Em Stanford Bridje, "casa" do Chelsea, bairro rico de Londres, na margem esquerda do Tamisa, o amigo Gullit recebeu-o de "braços abertos", e a sua adaptação ao futebol inglês não foi difícil, "existe mais Fair-Play em Inglaterra, menos drama que em Itália. Como jogador sinto-me mais inglês do que italiano", após um primeiro treino em que "me senti como um menino no primeiro dia de aulas", mas "quando vesti a camisa nº9 do Chelsea senti a mesma emoção de que quando vesti pela primeira vez a camisola de Itália".

Um sentimento que espera retribuir nos relvados dos típicos estádios ingleses:"Gostaria de ganhar algo com o Chelsea, mas sinto que em Inglaterra ganhar significa em primeiro lugar jogar bem, o melhor possível, depois logo se vê se é possível ganhar um titulo. Ganhei três taças europeias, esta época vamos tentar colocar o Chelsea de volta nas competições europeias". "No futuro sonho mais em ser dirigente do que treinador. Espero encontrar uma pessoa que confie em mim e me peça para gerir uma equipa. Sem estar a pensar na Juventus, gostaria de ao regressar a Itália, encontrar um Agnelli que me peça para fazer o papel de Boniperti. Não sei se seria capaz, mas as experiências que tive ao longo dos anos, mais esta que estou a viver em Inglaterra, dão-me esperanças nesse sentido". Gianluca Vialli "símbolo requintado" de um tipo de jogadores que ao abordar o jogo com a superioridade dos predestinados, merece, sempre, análise atenta, uma "fogueira de paixões" onde se eleva a chama do futebol.

CARREIRA/TITULOS

  • Internacional italiano 59 vezes, 16 golos.
  • 325 jogos na Serie A, 123 golos.
  • Cremonese, 1980 a 1984.
  • Sampdoria, 1984 a 1992.
  • Juventus, 1992 a 1995.
  • Chelsea, 1995 a 1997.
  • Watford.

TITULOS

  • Melhor marcador da Liga italiana 1991.
  • 1 Taça dos Campeões: Juventus, 1996.
  • 1 Scudetto: Juventus, 1995.
  • 1 Copa Italia: Juventus, 1995.
  • 1 Supercopa de Italia: Juventus, 1995.
  • 3 Copas de Italia com a Sampdoria, 1985, 88 e 89.
  • 1 Taça UEFA, com a Juventus, 1993.
  • 1 Scudetto com a Sampdoria, 1991.
  • 1 Taça das Taças, com a Sampdoria, 1990.
  • 1 Supecopa de Italia com a Sampdoria, 1991.
  • 1 Taça de Inglaterra, Chelsea 1997.

Como treinador:

  • 1 Taça das Taças, Chelsea, 1998.
  • 1 Taça da Liga inglesa, Chelsea, 1998.
  • 1 SuperTaça de Europa, Chelsea, 1998.