YASHINE

16 de Junho de 2005

Era uma vez um homem todo vestido de preto que deu um novo sentido á vida entre os postes. Era russo e chamava-se Yashine. A partir dele, a vida dos guardiões das balizas nunca mais voltou a ser a mesma. O guarda redes, em teoria, é o único homem do onze que vive á margem do jogo colectivo da equipa.

A lenda de Lev – leão, em russo – Yashine, a aranha negra, nome que o imortalizou por equipar sempre todo de preto, atravessou gerações e ainda hoje ele é visto como a suprema referência quando se fala em grandes guarda redes. Não tanto pelos seus dotes técnicos, mas sobretudo por ter sido o percursor de uma nova forma de estar na baliza. A partir da era da aranha, eles deixaram de estar imóveis entre os postes, vivendo apenas nos últimos onze metros do campo, passando a ter um papel mais activo, saindo da baliza e iniciando jogadas de ataque, tornado-se de corpo inteiro um jogador de equipa.

Tudo começara em 1943, num ano em que a pátria soviética se esvaia em sangue na luta contra o monstro nazi, quando um pequeno rapaz de 14 anos, aprendiz de esmerilador e começava a dar os primeiros passos como jogador de futebol na equipa da fábrica, treinado pelo memorável I. Shubin. Poucos anos mais tarde, no exército e com a patente de coronel esse jovem fez-se homem e tornou-se num mito do futebol da URSS: Lev Yachine, a aranha negra, que em 1949 ingressou no Dinamo de Moscovo, convidado pelo treinador Chernyshov, que orientava, ao mesmo tempos, a equipa de futebol e de hóquei no gelo.

A sua missão era a de substituir a velha glória Komitch, o tigre das redes. Foi o inicio de uma mítica carreira toda dedicada á baliza do Dínamo. O único clube da sua vida, onde jogou durante 22 épocas, detendo, ainda hoje, o record de jogos realizados no campeonato soviético: 326.

Logrou 5 títulos de campeão nacional, 54, 55, 57, 59 e 63.

Jogou 78 vezes pela selecção soviética. Em todos eles, sofreu 70 golos.

Foi campeão olímpico em Melbourne-58 e campeão europeu em 1964.

Esteve presente em 4 Mundiais, 58, 62, 66 e 70, embora neste apenas no banco.

Em 1963, venceu a Bola de Ouro, sendo eleito o melhor jogador europeu do ano. A única vez que o trofeu foi atribuído a um guarda-redes.

Fez o seu último jogo em 1971.

Foi sempre uma imagem do regime comunista e na década de 70 foi nomeado Director da Secção de Futebol do Comité Estatal de Desportos da URSS, responsável pela formação das novas gerações de futebolistas soviéticos, onde se engloba a tradição de uma elegante escola de guarda-redes. Uma vida feita de entrega e sofrimento. Em 1981, dizia numa entrevista: É agradável olhar o passado quando os bons momentos se acumulam. Hoje os jovens soviéticos não sabem sofrer ou, por outras palavras não querem enfrentar os sacrifícios inerentes ao futebol, sendo possível que o maior nível de vida actual da nossa sociedade influa nisso.

A aranha desapareceu em 1989, no fim de uma doença prolongada que lhe levou á amputação de uma perna. Na memória eterna os jogos de exibição da selecção da FIFA, no passado alvo de grande atenção. Exibia-se a nata da bola mundial. Nos anos 60, entre as redes, era usual jogar, numa parte, Soskic, e, na outra, Yashine. O jugoslavo era um assombro, o que ele voava. Uma delicia para os fotógrafos. Mas depois vinha o russo e estragava tudo. Defendia de pé, sem malabarismos ou voos razantes, o que o outro defendia com todo aquele espectáculo. No final, todos ficavam deslumbrados com Yashine, que fazia o mesmo trabalho, com metade do esforço. Para sempre fica a lenda de Lev Ivanovich, um mito eterno do mundo do futebol, o mais famoso guarda redes de todos os tempos.