ZAMORA

21 de Janeiro de 2001

CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DE RICARDO ZAMORA

Reza a história que o primeiro grande guarda redes da história do futebol mundial morou em Espanha. Chamava-se Ricardo Zamora, El divino, e faz esta semana, 100 anos que nasceu, em Barcelona, a 21 de Janeiro de 1901.
São poucos que ainda se lembram de o ter visto jogar. Era os longínquos anos 20 e 30. A sua lenda, no entanto, atravessou gerações e, a partir da sua era, a baliza da selecção espanhola passou quase a ser um local sagrado, onde se podem vislumbrar, depois de Zamora, quatro grandes dinastias de guarda redes: Ramallets, Iribar, Arconada e Zubizarreta. No momento em que muitos projectam em Iker Casillas a face da nova geração, um olhar aos grandes monstros das redes espanholas...

«Dispo-me com lentidão, entre o clamor triunfal. O cordão das botas –apertado de mais- faz um nó e resiste a desprender-se. Sinto no rosto o roçar da camisola como uma carícia de despedida. Encontram-se ali, no banco e no chão, as peças de vestuário que mais vezes e melhor usei. Com ele recortou-se a minha silhueta em todas as balizas e todas as latitudes. Deram-me personalidade, fizeram-me no que sou. A seguir, viria uma noite de insónia. Que fazer? Abandonar o futebol, agora? Endoideceste! Mais um ano, só mais um ano. Se fui capaz de fazer isto agora, porque não o farei dentro de um ano?»

Estas são palavras de Ricardo Zamora, escritas no que chamaria ser o seu epitáfio futebolístico. Foram emoções sentidas em 1936, no balneário do Mestalla, em Valência, depois de disputar e vencer, pelo Real Madrid, a final da Taça de Espanha, frente ao seu Barcelona. Foi um jogo memorável, eternizado por uma monumental defesa sua, no último minuto, quando desviou, em voo, um mórbido remate de Escolá que se colava ás redes, garantindo o triunfo por 2-1. Vinte anos de futebol concentraram-se ai, nesse momento!, escreveu El Divino, muito tempo depois.

ZAMORAO guarda redes é um solitário por natureza, um eremitas das balizas condenado a, num ápice, se tornar no salvador ou no carrasco da equipa. O passar dos anos fez, porém, a inclemente tribo do futebol entender que, no fundo, ele é apenas o fiel depositário do jogo táctico da equipa. As posturas defensivas deram-lhe maior protecção, alguém com quem falar durante os 90 minutos. O seu papel e acção é hoje muito diferente do da antiguidade, mas os seus traços de base permanecem inalteráveis: personalidade, agilidade e uma certa dose de loucura para meter a cabeça onde os outros metem os pés.

Ao longo de 20 anos de carreira, são muitas as exibições monumentais e as defesas impossíveis que se contam Zamora ter feito. Muitas delas ganham asas apenas no imaginário popular, mas, num histórico jogo, essas defesas, atingiram, seguramente, contornos épicos. Foi nos quartos-de-final do Mundial-34, contra a Itália de Meazza, em que Zamora defendeu tudo, perante o avassalador ataque azzurro, durante 120 minutos, garantindo o empate, 1-1, que levaria a decisão para um segundo jogo, onde, no entanto, Zamora, totalmente esgotado da exibição da véspera, não poderia alinhar, acabando a Espanha por ser eliminada, com Nogués na baliza. Como ele próprio escreveu nas suas memórias, Zamora, o lendário guarda redes, morreu em 1936, com 35 anos. Ricardo, o comum mortal, desapareceria mais tarde. Sucederia em 1978, com 77 anos. Através dos tempos, outros gigantes ocuparam a baliza espanhola, na sua senda divina, quase como uma sucessão dinástica, tal a duração dos seus legados futebolísticos. Foram eles, Ramalets, Iribar, Arconada e Zubizarreta.

AS GRANDES DINASTIAS DA BALIZA ESPANHOLA

Hoje, no inicio do Séc. XXI, o futebol espanhol busca um novo herdeiro, digno da herança destes monstros, que, nos últimos 40 anos, se concentraram numa fabulosa dinastia de três lendários porteros bascos. O novo príncipe tem, no entanto, berço castelhano. Chama-se Iker Casilas, estreou-se com apenas 18 anos na baliza do Real Madrid e já é dono da baliza de La seleccion. Muitos apontam-no como o sucessor de Zubi, o líder para uma nova geração. Enquanto pensamos o futuro, observemos a magia do passado:

ZAMORA (ANOS 20-30)

ZAMORA1

Nasceu em 21-1-1901, em Barcelona Internacionalizações: 46 ; Golos Sofridos: 42 Jogo de Estreia: Dinamarca-Espanha 0-1, nas Olimpíadas de 28, em Bruxelas.

Esteve presente nos Jogos Olímpicos de 28 e na Fase Final do Mundial-34. Jogou no Espanhol, Barcelona e Real Madrid.

A origem teológica da fama de Zamora remonta aos Jogos Olímpicos de Antuérpia, em 1920, quando liderou entre os postes, um grupo de heróis que conquistou a medalha de prata para Espanha, exibindo um jogo que as crónicas do tempo eternizaram de agressivo, ambicioso e empenhado. Era o início do mito da fúria, mais do que um estilo de jogo, um estado de espirito, inspirador de um quase futebol tauromáquico, que não conhece a palavra medo, tudo o que personificava Zamora.

Um ano antes, em 1919 já assinara pelo Barcelona, proveniente do Español, no qual se estreara na primeira equipa, com apenas 15 anos. É certo que os tempos eram outros, o futebol era muito diferente, a Liga nem sequer se disputava ainda – a primeira edição foi em 1929- mas as qualidades que os registos da época descrevem de Zamora já seriam suficientes para se começar a escrever a sua lenda.

Para trás tinham ficado os estudos de medicina, que iniciara anos antes, por vontade do seu pai, conhecido médico de Barcelona, que morreria era Zamora ainda portero do Espanhol. A sua transferência, em 1929, da Catalunha para o Real Madrid envolveria então a verba louca de, uma fortuna para a época, e que constituía record no futbol espanhol.

CARREIRA

  • Universitari de Barcelona Espanyol, 1916 a 1919.
  • F.C. Barcelona, 1919 a 1922.
  • Espanyol, 1924 a 1930.
  • Real Madrid, 1930 a 1936.
  • Como treinador
  • Atlético de Madrid, 1939 a 1945.
  • Celta, 1947/48.
  • Espanyol. Seleccão nacional espanhola.

TITULOS

  • Medalha de prata nos Jogos Olímpicos de Antuérpia 1920
  • 2 Ligas espanholas no Real Madrid, 1931/32 e 32/33.
  • 2 Taças de Espanha no Barcelona.
  • 1 Taça de Espanha no Espanhol, 1928/29.
  • 2 Taças de Espanha no Real Madrid, 1933/34 e 35/36.
  • 3 vezes o guarda redes menos batido da liga espanhola, 1929/30, 31/32 e 32/33

RAMALLETS (ANOS 50)

ZAMORA2Nasceu em 4-6-1923, em Barcelona Internacionalizações: 35 ;

Golos sofridos: 51 Jogo de Estreia: EUA-Espanha 1-3, no Mundial-50, no Brasil Esteve presente na Fase Final do Mundial-50 Jogou no Barcelona, onde se tonou famoso, e no Mallorca.
Ganhou 6 Ligas. Foi eleito o melhor guarda redes de toda a história do clube. Ágil, ficou célebre pela fabulosa exibição feita no Mundial-50, contra a Inglaterra, segurando a vitória por 1-0. Depois desse dia muitos passaram a chamá-lo o gato do Maracanã. Fez a sua carreira durante os anos 50, numa altura em que a selecção espanhola, depois do 4º lugar- o melhor da sua história- no Brasil, não voltou a qualificar-se para os Mundiais, o que impediu que tivesse maior projecção internacional.

IRIBAR (ANOS 60)

ZAMORA3Nasceu em 1-3-1943, em Zarauz, Guipúzcoa Internacionalizações: 49: Golos sofridos: 42. Jogo de Estreia: Espanha-Bélgica 1-1, em 1963 Esteve presente na Fase final do Mundial-66 e do Euro-64 Fez toda a carreira no Athletic Bilbao, onde ainda hoje é uma verdadeira instituição. Chamavam-lhe El Chopo. Estreou-se na primeira equipa de Bilbao em 63/64, com 20 anos, ocupando o lugar do também famoso Carmelo. Cultivava o estilo Yashine, jogando sempre de negro. Muitas vezes defendia de pé, sem grandes esforços, o que os outros defendiam a voar. Para muitos foi o melhor guarda redes de todos os tempos. No futbol espanhol, o seu misticismo entre as redes apenas é superado pela memória de Zamora. Foi campeão europeu em 1964, batendo na final a URSS, por 2-1. Na outra baliza estava.... Yashine.

ARCONADA (ANOS 70/80)

ZAMORA4Nasceu em 26-6-1954, em San Sebastián, Guipúzcoa. Internacionalizações: 68 ; Golos sofridos: 67 Jogo de estreia: Espanha- Hungria 1-1, em 1977 Esteve presente nos jogos Olímpicos de 76, nos Europeus de 80 e 84, e no Mundiais de 78, embora nunca tenha jogado, e 82. Começou no Lengokoak e no San Sebastián, mas fez toda a carreira sénior na Real Sociedad, da qual defendeu as redes entre 1974 e 1989, estreando-se com 20 anos. Foi duas vezes campeão espanhol, 81 e 82 Era um guarda redes com um estilo espectacular, uma delícia para os fotógrafos que se colocavam atrás da sua baliza á espera dos seus voos em direcção á pelota. Despediu-se da selecção na final do Euro-84, jogo que ficou marcado pelo golo que sofreu na transformação de um livre por Platini. Quando parecia ter a bola segura, deixou-a escapar por debaixo do corpo, abrindo caminho á vitória gaulesa.

ZUBIZARRETA (ANOS 80/90)

ZAMORA5Nasceu em 23-10-1961, em Vítoria, Alava Internacionalizações: 129 (record espanhol); Golos sofridos: 105 Jogo de estreia: Espanha-Filândia 3-1, em 1985 Esteve presente nos Mundiais de 86, 90, 94 e 98; nos Europeus 88, 92 e 96. Jogou no Alavés, Ath Bilbao, Barcelona e Valência. Estreou-se como titular das redes de Bilbao com apenas 19 anos, em 81/82, lançado por Javier Clemente. Foi 6 vezes campeão espanhol. A sua centenária presença entre as redes hispânicas merecia melhor fim do que o frango que lhe invadiu a baliza no jogo com a Nigéria no França-98. Era um guarda redes sóbrio. Transmitia segurança. Excelente a orientar a defesa. Muitos acusavam-no de falta de garra, a tal fúria. Despediu-se após a goleada, 6-1, contra a Búlgária: Meus senhores, suou el timbre, é hora de terminar, acabou o recreio, afirmou introspectivo.