ZAMORANO, EL CHILENO VOADOR

01 de Junho de 1999

Homens destemidos, calcinados pela própria história. Um orgulho que desenha um temperamento. Agressivo e destemido como um velho chefe índio, apaixonado e sedutor como um românico amante latino-americano. O corpo e a alma do povo chileno, libertado da tirânica colonização espanhola por Bernardo O`Higgins, marcado pela ditadura sangrenta de Pinochet, que, em 1973, derrubou Salvador Allende, continua fiel e devoto da força e do carisma herdados das anteriores gerações de lutadores e resistentes que marcaram a sua história sofrida.

Um labirinto de emoções que percorre os 4 000km que atravessam o território chileno, desde a cordilheira dos Andes até ao Oceano Pacífico, onde se escondem as raízes dos poemas de Pablo Neruda e dos golos de Ivan Zamorano. A melhor forma de entender como toda esta atmosfera desenhou o estilo e o carácter do futebol de Ivan Zamorano, que, na pena de Luís Sepúlveda , sublime contador de “estorias” chileno, simboliza o “fogo, a paixão e o vento selvagem”, está escrita na época 94/95, sob o sol de Madrid, quando Valdano, seu treinador nesse tempo, o colocou na lista de dispensas.

Triste e inconformado com esta falta de confiança, Zamorano, que na época anterior passara quatro meses sem fazer um golo, engatou uma pré-temporada fabulosa, com golos e jogadas sensacionais. Foi então que, no decorrer de um treino onde o chileno parecia querer comer o mundo, Valdano se aproximou dele e, quase numa reedição da conversa entre Pizarotti e Pasarela em 1978, perguntou-lhe: - Mas, afinal, tu jogas sempre assim ou só quando estás zangado? - Não, eu jogo sempre assim!, respondeu Zamorano de imediato. Valdano olhou-o durante alguns segundos e, convencido, disse-lhe: - Sendo assim, de certeza que nos vamos dar bem… De um momento para o outro, Zamorano passou de dispensável a imprescindível e provou que, como dizia Angel Cappa, os golos não se procuram, encontram-se!

Os velhos argentinos costumavam dizer aos filhos que eram demasiado orgulhosos para serem pobres. Nada mais certo. O que primeiro se tira a um pobre é o seu orgulho. Por isso, para os meninos descalços que, nos subúrbios da América Latina, correm atrás de uma bola, esta tem, para eles, um significado que transcende o mero divertimento. Com a bola nos pés, sentem-se com poder para desafiar todo o mundo e… ganhar! É desta a matéria que é feita a atitude futebolística de Ivan “o terrível” Zamorano, genuína expressão do rebelde futebol latino-americano. Apear de viver fora do seu país há quase uma década, nunca virou costas ao coração do seu povo, que o ama como a um velho libertador índio.

ZAMORANO EL CHILENO VOADORUma grandeza que emerge não só nos relvados, mas também fora dele, quando apoia e visita as obras de assistência social às crianças abandonadas do seu Chile. Também para fazer golos é necessário uma certa paz interior... Olhando a sua história, pode-se dizer que o Chile faz parte da segunda linha do futebol sul-americano. Nunca foi visto como um gigante, mas, por várias vezes, deu ao Mundo talentos que ultrapassavam a sua imagem rebelde. Foram os casos de Jorge Toro e Leonel Sanchez, nos anos 60, Figueroa e Caszley , nos anos 70, e Paco Yanez, nos anos 80, até que, nos anos 90, surgiu a explosiva dupla “Za-Sa”, Zamorano-Salas. No França-98, houve quem dissesse que a melhor selecção sul americana, teria a defesa do Paraguai e o ataque do Chile, o que reconhece o valor da explosiva dupla Salas-Zamoranam, num torneio onde estavam Ronaldo e Batistuta. Com 32 anos, Zamorano entrou na recta final da sua carreira. Continua com o mesmo poder de explosão e impressionante capacidade de impulsão. Dá a ensação eu pára no ar e ao ver a forma como ataca cada bola que surge dentro da área, tem-se a impressão de que todo o seu passado esteve destinado para esse instante. Ivan «Bam Bam» Zamorano, o homem que Madonna considerou o jogador mais sexy do mundo do desporto, continua capaz de incendiar o jogo mais glacial.

Há três anos no Inter, já conquistou a admiração de todos os tifosi. « O segredo é encontrar um equilibrio interior o mais distante possível dos elogios e das criticas dos outros», revela. Depois de ver um jogo seu, acontece muitas vezes, darmos por nós a pesar como será a vida dos que estão no futebol e não o vivem com a emoção de Zamorano, uma estrela dos relvados no coração do Chile.

OS GOLOS E AS EQUIPAS DE ZAMORANO

85/86 Cobreandino (Chile), 33 jogos, 27 golos 86/87 Cobresal, 32 jogos, 21 golos 87/88 Cobresal, 18 jogos, 14 golos 88/89 Saint Gallen (Suíça), 33 jogos, 23 golos 89/90 Saint Gallen (Suíça), 6 jogos, 1 golo 90/91 Sevilha (Espanha), 29 jogos, 9 golos 91/92 Sevilha, 30 jogos, 12 golos 92/93 Real Madrid, 34 jogos, 26 golos 93/94 Real Madrid, 36 jogos, 11 golos 94/95 Real Madrid, 38 jogos, 28 golos 95/96 Real Madrid, 29 jogos, 12 golos 96/97 Real Madrid, 31 jogos, 7 golos 97/98 Real Madrid, 13 jogos, 2 golos Selecção do Chile, 41 jogos, 23 golos

TITULOS

  • Copa do Chile- Cobresal, 1987.
  • 1 Liga espanhola, 94-95 (Real Madrid).
  • Melhor marcador da Liga, (28 golos) 94-95 (Real Madrid).
  • 1 SuperTaça de Espanha 93-94 (Real Madrid).
  • 1 Copa do Rey 92-93 (Real Madrid).
  • 3º clasificado na Copa América 1991 (Chile).
  • 1 Taça UEFA 98-99 (Inter de Milán).