ESPANHA: Da «fúria» às novas gerações técnicas

21 de Março de 2000

ESPANHA Da «fúria» às novas gerações técnicas

Há dez anos, no banco da selecção espanhola, Luís Suarez, o homem que com o cabelo coberto de brilhantina, perfil de galã de cinema mudo, brilhava mais nos jogos à noite, e que foi talvez o futebolista espanhol mais famoso de todos os tempos – Di Stefano tinha berço argentino, era um técnico preso entre dois mundos, separados por tempos futebolística e culturalmente distantes e diferentes no estilo, na forma e na concepção competitiva de abordar o jogo. No seu passado repousava a memória dos “Beatles anos 60” onde lograra a “Bola de Ouro” de melhor jogador europeu do ano, época em que ensinara ao mundo como podia ser elegante o “tauromáquico” futebol espanhol.

O contributo técnico de Luisito fora, no entanto, apenas um ténue toque de classe da alma espanhola, desenhado sob rígidos sistemas tácticos, nos emblemáticos Barcelona e Inter de Herrera. Di Stefano chamou-lhe o “arquitecto”, mas por entre o seu futebol de Rodolfo Vallentino estava sempre presente o espírito aguerrido, aquele que nunca “manda flores”, típico do “fútbol” espanhol. Assim, durante muito tempo, foi pacífico definir-se o futebol espanhol como a “Fúria”.

O rótulo destemido remonta aos anos 20, data dos jogos Olímpicos de Anturérpia, quando onze aguerridos heróis, liderados pelo mítico guarda redes Ricardo Zamora, conquistaram a medalha de prata para Espanha e deram corda à “Lenda da Fúria”. Porém, mais do que um estilo de jogo, a Fúria era antes um estado de espírito. Uma atitude competitiva feita por jogadores que jogavam “hasta la muerte”, com a língua a arrastar pelos relvados à procura de todas as bolas que surgiam por perto, mesmo as que iam sair irremediavelmente pela linha de fundo.

Uma imagem de garra que regeu o temperamento e o sistema do futebol espanhol até início dos anos 80, mas que, no fundo, mais do que uma clara opção de método, era antes resultado da babibilónia de povos, atmosferas e influências culturais que secularmente moldaram o sentir e pulsar do “mundo hispânico” e que, inevitavelmente, condicionou o seu futebol, expressão dentro das quatro linhas das múltiplas idiossincrasias que abrigam a região ibérica. As diferentes atmosferas regionais produziram um futebol eclético, híbrido, onde coexistiram diferentes escolas, desde a combatividade basca à técnica andaluza, passando pela cosmopolita escola castelhana, embrião do grande Real Madrid, onde ao longo dos tempos, chegaram jogadores e treinadores de todo o mundo. Entre húngaros, jugoslavos, argentinos e franceses, cada um deles deixou algo do seu futebol e gerou um estilo que embora temível carecia de homogeneidade táctica e estilística.ESPANHA Da «fúria» às novas gerações técnicas

Geneticamente latino, escola de virtudes técnicas, o “fútbol” espanhol cresceu, assim, debaixo de uma crise existencial. Os seus adeptos exigiam-lhe “o mundo”, mas ao longo dos anos, embora ganhasse o respeito da comunidade futebolística internacional, nunca se tornou a nível de selecções um verdadeiro gigante do futebol mundial.

Ainda hoje, olhando a sua selecção, o “balonpied” espanhol é um futebol de “lágrima fácil”. Através dos anos, a imagem de marca da “fúria” atravessou gerações, até chegar ao final do século, momento em que um “must” de jovens artistas da bola a olharam de lado e resolveram inventar um novo “design” para o egocêntrico futebol espanhol.

ANOS 80: O INÍCIO DA NOVA ERA E A AURA DE SANTIESTEBAN

ESPANHA Da «fúria» às novas gerações técnicasO novo conceito futebolístico foi iniciado nos anos 80 com o emergir de um grupo de talentos onde moravam entre outros, Butragueño, MÍchel, Gallego, Señor e Martin Vasquez, todos com classe acima da média em comparação com a fúria das gerações anteriores, na altura em que se sentia o último fôlego de jogadores da têmpera de Juanito, Asensi, Migueli, Victor, etc, “guerreiros” puros.

Em 1990, Don Luís encontrava-se no centro dessa encruzilhada estilística, sem, no entanto, ter a certeza da futura opção geracional que a partir desse momento optara definitivamente por, dentro das “canchas”, tratar com maior carinho a “pelota castellana”. A dourada geração dos anos 90 cresceu sobre esses novos ditames técnico-tácticos, nova fonte de inspiração nas escolas de formação dos clubes espanhóis.

Uma simbiose de técnica e picardia que molda hoje o novo futebolista espanhol, aquele que vê a fúria como um ser menor para quem gosta de ter a bola nos pés e jogar de cabeça levantada, estilo personificado por Raúl, novo motor e símbolo da selecção A, e Xavi, o pequeno Guardiola, motor do onze campeão mundial júnior Sub-20, em 1999, na Nigéria. Uma filosofia de formação que tem nomes e rostos: Iñaki Saez é hoje o responsável máximo pelas selecções jovens.

Até chegar À Federação através de Clemente, após a saída de Goikochea, passara a maior parte da sua carreira no Ath.Bilbao, primeiro como jogador e depois como treinador, onde foi coordenador do centro de formação de Lezama e, várias vezes, em situações de transição, treinador da equipa principal. Foi sob a sua orientação que a Espanha atingiu os títulos de campeão da Europa Sub-21 e campeão Mundial Sub-20, mas, para a grande maioria, o homem que é visto como um pai para todos os “chavales” da “cantera” chama-se Juan Santiesteban, antigo jogador do grande Real Madrid dos anos 50. Astuto detector de talentos, conquistou já três Europeus Sub-16, o último em 1999 na República Checa, foi vice-campeão mundial sub-17 em 1991 e venceu a prestigiada Copa Meredian em 1997. Mais do que os títulos a aura de Santiesteban reside sobretudo na forma mágica como comunica com os “chicos” que chegam às suas mãos como simples diamantes em bruto, para delas saírem como estrelas em potência.

AS NOVAS ESTRELAS DA “PÁTRIA CHICA”

ESPANHA Da «fúria» às novas gerações técnicasA primeira década do Sec.XXI será o palco da geração campeã do mundo em 1999. No talento de Pablo, Gabri, Varela, Marchena, Xavi e Casillas, poderá estar a glória do futuro futebol espanhol. Na sombra dos pequenos génios, outro grupo de “chicos”, que sem terem atingido consagração planetária, também emergem como revelações da multinacional “La Liga”: o andaluz Tristan, de 23 anos, ponta-de-lança do Mallorca, foi dispensado do Bétis apesar de ter feito 34 golos em três épocas (95-98) na equipa filial, confirmou nas baleares os seus dotes goleadores; o lateral esquerdo Valcarce do Málaga, de 25 anos, produto da cantera do Real Madrid, onde também nasceu o “ariete” Ruben Navarro, com 21 anos, hoje no Numancia, após ter se estreado na primeira equipa madrilena em 96/97 pela mão de Jorge Valdano; no Oviedo de Luís Aragonés que luta desesperadamente pela fuga à despromoção, atenção a Boris, 19 anos, um personalizado central que gosta de sair a jogar com a bola nos pés.

Da tumultuada passagem de Rainieri pelo At.Madrid fica a aposta no médio Baraja, de 24 anos e no rápido lateral direito Gaspar, de 20 anos, já antes referenciado por Sacchi. Uma aposta segura no mesmo posto onde no Barcelona actua Puyol, de 21 anos, mais vocacionado para tarefas de marcação. Na revelação Alavés muita atenção a Javi Moreno, com 25 anos, feito na cantera do Barcelona, esta época chegado do Numancia, a lança do sensacional onze de Mané. Todos eles argumentos para evitar a polémica decisão de Clemente em alinhar, no Mundial-98, um argentino naturalizado, Pizzi, na frente do ataque espanhol...

Espelho de diversas culturas e atmosferas, o futebol espanhol teve, assim, sempre grandes dificuldades em encontrar o seu verdadeiro estilo. Agora com o eclipse da “fúria” e o eclodir de uma nova classe de jogadores poderá finalmente tornar-se mais personalizado, artístico e fiel ao modelo latino que o gerou. Camacho, o actual seleccionador, é, ele próprio, um “filho da fúria”, nomeado por Angel Villar, o dinâmico e influente internacional presidente da Real Federation Espanhola, um homem que nasceu e cresceu na cantera basca, a única que verdadeiramente tem aproveitamento a nível sénior. Camacho viveu e jogou com a “fúria” mas sentiu na pele a insustentável leveza do seu ser na hora das grandes decisões internacionais. A nova história do fútbol espanhol começará onde esta acaba. Um futebol com alma progenitora palpável a que não lhe falta nada. Basta identificar os protagonistas: “El Buitre”, Gallego, Señor, Míchel... Descendentes? Raúl, Guardiola, Guerrero, Guti ... e o mais que as “canchas” nos segredarem aos domingos pela tarde.

ANOS 90: A GERAÇÃO DOURADA ESPANHOLA

O glorioso arranque da nova era do futebol espanhol surgiu quando um empolgante onze Sub-23 onde habitavam “géniozinhos” como KiKo, Guardiola, Alfonso, Ferrer, Toni e Luís Henrique conquistou a medalha de ouro nos Jogos de Olímpicos de Barcelona em 1992.

Foi a suprema inspiração para os fantásticos anos 90 onde moram os seguintes feitos: SUB-21 (Esperanças): Europeu / 94 - 3º Lugar Europeu / 96 – 2º Lugar Europeu / 98 – Campeão SUB-20: Mundial Qatar / 95 : 4º Lugar (Torneio onde surgem talentos como Raúl, De la Peña, Etxeberria, Michel Salgado e Morientes) Mundial Nigéria / 99 : Campeão (Principal figura: Xavi) SUB-18: Europeu / 95 : Campeão ( Principal estrela: Celades) SUB-17: Mundial / 97 : 3ª Lugar SUB-16: Europeu / 91 : Campeão Europeu / 97 : Campeão (Com uma selecção onde já alinhava o guarda redes Iker Casillas, campeão mundial Sub-20 em 99 e, aos 19 anos, actual titular, com todo o mérito e contra todos os ventos e marés, na baliza da equipa principal do Real Madrid) Europeu / 99 : Campeão.

Antes desta década dourada porém na história do jovem futebol espanhol, que a nível da selecção A o máximo que logrou foi o título europeu em 64 e o vice campeonato em 84, já se inscreviam os seguintes feitos:
OLÍMPICOS: Medalha de Prata em 1920; SUB-21 Campeão da Europa em 1986, 2º Lugar em 1986: SUB-18: Campeão da Europa em 1952 e 1954, 2º Lugar em 1957 e 1964; SUB-16: Campeão da Europa em 1986 e 1988.

DA ANDALUZIA AO PAÍS BASCO: UM UNIVERSO DE CONTRASTES

ESPANHA Da «fúria» às novas gerações técnicasPor entre as águas calmas de uma secular monarquia de 800 anos, hoje sem velhas caravelas mas com iates de sonho, toda a Espanha é um complicado “puzzle” de povos e emoções, ciclicamente abalado pelas tendências independentistas da Catalunha, Galiza e, sobretudo, do País Basco, expresso no aterrador rugido da ETA.

Após a queda de Franco, a nova constituição consagrou, no início dos anos 80, um Estado descentralizado onde emergiram as regiões autónomas. O futebol, que atravessava então uma crise de estádios vazios e descrédito competitivo, conheceu um decisivo impulso desportivo e, sobretudo, financeiro.

O Mundial de 82 foi o grande arranque, seguido depois por uma dinâmica política de investimento e divulgação do produto futebol que, aos poucos, gerou o “monstro milionário” em que se transformou o actual futebol espanhol. Desde logo, ao lado da histórica Madrid, emergiram quatro grandes comunidades: A Catalunha, embrião do Barcelona, a sublimação épica do povo catalão como lhe chamou, a Galiza dos outrora modestos Celta e Deportivo mas hoje equipas de topo, embora o onze da Corunha tivesse chegado ao ponto de num jogo desta época só ter alinhado um único jogador espanhol – o eterno Fran –, o País Basco e a Andaluzia, entre as quais o contraste de climas e culturas geraram dois estilos de futebol completamente diferentes.

Procurar pontos de contacto entre as duas escolas, a norte e a sul do território, é uma tarefa de todo inútil. O futebol basco continua a ser um oásis na política de formação mas o seu estilo tipicamente britânico, jogado quase sempre sob fortes chuvadas, nunca será o melhor para servir de suporte à nova escola técnica espanhola. Apesar do Ath.Bilbao, que em 1997 contratou Etxeberria por 500 milhões de pesetas com apenas 17 anos, ser um caso exemplar de aproveitamento das suas escolas, forte argumento no aceso debate entre estrangeiros e canteranos que corre todo o país, o futuro do futebol espanhol terá que encontrar principal abrigo noutras regiões, desde a Castela madrilena de Raúl à Catalunha altiva de Guardiola, enquanto se anseia pelo renascer da escola andaluza, morada do Bétis e Sevillha, mergulhados em profundas crises, mas historicamente uma referência de arte técnica.

No cocktail de estilos, a escola andaluza, namorada do calor mediterrânico, miradouro da quente África branca, tornou-se a referência do pormenor técnico, da bola na relva, jogada de pé para pé em toques curtos, quase ao estilo sul-americano. Em Huelva nasceu oficialmente em 1903, o primeiro clube da história do futebol espanhol: O Recreativo. Através dos anos sucederam-se as gerações de artistas a bola, mas o aroma técnico permaneceu, alimentado e influenciado pelo clima abrasador que sufoca a capital Sevilha durante grande parte do ano.

A Andaluzia tornou-se, assim, no refúgio do futebol técnico, aquele que desconfiava da palavra fúria no seio do futebol feito arte. Quem tinha de correr era a bola. A comprovar a lenda, reza a história de Rogélio, estrela do Bétis dos anos 60, a quem o treinador bético à época gritava incessantemente desde o banco exigindo-lhe que corresse mais. Rogélio, coerente e respeitador das tradições locais, nem pestanejava e mesmo no campo explicava a sua concepção futebolística: “Correr é para os cobardes”, gritava-lhe, invocando a superioridade moral do seu jogo e de todo o futebol andaluz.

Uma vez quando perguntaram a Liceranzu, um duro defesa central do Ath.Bilbao dos anos 80, o que esperava da Final da Copa do Rey que ia disputar dentro de dias, respondeu: “Espero que chova!”. Para qualquer leigo esta resposta pareceria caricata, mas para os teóricos da bola nas palavras de Liceranzu estava apenas o desejo de encontrar nessa final o chuvoso habitat típico do País Basco.

Outras regiões também deram um grande salto económico e social: as Astúrias, hoje agoniada com a crise do seu Sporting Gijón, a Comunidade Valenciana, onde a paixão pelo futebol acolheu um “pilho argentino”, Claúdio Lopez e uma “cobra romena”, Adrian Ilie, Aragão, terra do histórico Saragoça, a cidade que rodeada por muralhas resistiu, no Séc XVIII, às invasões francesas;

Estremadura, onde o futebol é visto ao lado de uma opípara perna de presunto e, entre outras, as ilhas Baleares e Canárias, onde um dia desembarcou um argentino sonhador, Valdano, que levou o Tenerife, hoje na IIª Divisão, à Europa do futebol e onde mora agora o renovado Mallorca.

Todas abrigam diferentes formas de expressão cultural, complexo mosaico de um país louco de ritmo, cheio de contrastes, ora aberto, ora fechado, tocado pela “movida”, mulheres de capa de revista, telas de Dali e Picasso, o cheiro das “paellas” e das “tortillas”, as “sevilhanas” e as “chicas” de Almodovar, um país todos os anos à beira de um ataque de nervos, sempre acalmados pelo abrasador sol de Verão, canículas mediterrânicas que despertam as noites locas, das baleares Ibiza, o pecado com duas pernas, aos “tacones lejanos” de Madrid. O futebol, fosso de paixões, coexiste por entre todo este ambiente. “Olé España!”

JÚLIO SALINAS: O PATRIARCA DA LIGA

O seu Alavés é a grande sensação da temporada. É o actual símbolo do aguerrido futebol basco. No meio da loucura, já há quem sonhe com a Liga dos Campeões. Há cinco anos, no entanto, estava na Segunda B.

Em 1997, ainda como secundário, eliminou o Real Madrid da Copa do Rei. Subiu à Primeira Divisão em 1998, mas a época passada sofreu até ao fim para evitar a despromoção. Nessa altura, temendo a queda no abismo, contratou um velho caminhante goleador do futebol espanhol que, chegado de uma reforma dourada no Japão, parecia então decidido a pendurar as botas: Júlio Salinas, antiga glória do Ath.Bilbao e do Barcelona, o ponta de lança que parecia sempre a ponto de perder a bola e que depois, num ápice, inventava um “regate” e “do nada” fazia um golo.

Com 36 anos, o gigante basco aceitou o desafio e com os seus golos, 4 em 12 jogos completos, ajudou a salvar o Alavés. O tempo, porém, não perdoa. Esta época, com a equipa em alta, o técnico Mané tem optado quase sempre por deixá-lo no banco. Era ai que estava, descontraído comendo pevides durante todos os noventa minutos, no último jogo disputado na Corunha. Por isso, Salinas já disse que está a perder a ilusão. Assim não vale a pena continuar. No seu horizonte estava ultrapassar o lendário Puskas, 12º na tabela dos melhores marcadores de sempre da Liga espanhola, liderada pelo lendário Zarra, outro mito basco, com 251 golos. Para isso apenas lhe faltam 7 golos. Puskas fez 155 enquanto Salinas de 1982 até agora apontou 148. Algo perfeitamente ao seu alcance se recordarmos que nos 537 minutos que alinhou esta época já por 5 vezes fez a bola beijar as redes.

Ele também foi, no seu tempo, e com o seu estilo “desengonçado”, um artífice do renovado futebol espanhol. Ainda sentiu os ventos da fúria, mas do alto do seu 1.88m soube contorná-la e floriu o seu futebol com passos de bailarino. Com, 37 anos, faz 38 em Setembro, ele é o patriarca da Liga, o homem que, do Sol nascente a Mendizorroza, recusa perder a ilusão de continuar a jogar futebol.