ESPANHA: Uma elite de pontas de lança

13 de Fevereiro de 2002

É tudo uma questão de golos e bolas a beijar as malhas. Por definição, o ponta-de-lança é o homem solitário que vive destemido nos últimos 20, 30 metros do campo e que sabe e adora jogar de costas para a baliza, em cunha entre os seus adversários. O típico avançado-centro latino, o clássico n.º 9, gosta antes de recuar dois ou três metros no terreno e jogar de frente para os centrais adversários. Gosta de entrar de trás, aparecendo quando a bola cai nas costas da defesa. É este o seu movimento táctico de marca. Quando um este exemplar futebolístico surge no contexto de um onze latino, estes tornam-se temíveis aos olhos de todos.

Desde os tempos da fúria aos actuais, de maior plafond técnico, o design técnico-táctico do futebol espanhol, como o de todo o mundo latino, sempre se estruturou num jogo apoiado e de passe curto. Um futebol de médios, como lhe chamam os críticos. Nesse contexto, na hora de formar a sua linha de ataque, também a Espanha, que durante muitos anos alimentou o seu ego com a lenda de Zarra, mito dos anos 50, teve buscar, de lanterna em punho, um verdadeiro goleador.

Observando as ultimas três décadas, descobrimos grandes goleadores, como, em finais dos anos 70, Quini e Santillana, a que se seguiram, nos anos 80 90, figuras como Rincón, Manolo e Julio Salinas, entre outros, mas, no final, acabavam sempre por ser médios ou os chamados segundos pontas de lança, como Juanito, Luís Henrique ou, acima de todos, Butragueño, a resolver os jogos. Com a chamada geração de El Buitre confirmou-se a tese de que o bom futebol latino, se tacticamente coeso e rápido, pode, mesmo sem um grande ponta-de-lança marcar muitos golos e formar grandes equipas. Apesar da qualidade desses chicos, a selecção espanhola continuou, no entanto, longe dos grandes títulos e sem descobrir um verdadeiro homem golo.

A nova mentalidade goleadora

ESPANHA Uma elite de pontas de lançaNa hora em que Camanho afirma em que para, por fim, conciliar a história com os resultados é necessário aprender a jogar o “outro futebol”, aquele que, dizem os críticos, sabe jogar mal para ganhar, eis que nas canchas hispânicas explode uma imensa geração de grandes avançados centros, goleadores natos, que, apesar das imensas estrelas estrangeiras que povoam a milionária Liga espanhola, assaltaram o topo da lista dos melhores marcadores.

Não existe uma explicação científica para esta explosão de grandes pontas-de-lança no futebol espanhol. Como tentativa de entender este fenómeno pode-se citar a nova mentalidade, mais ofensiva, o chamado futebol-espectáculo, que desde há uma década, data da chegada de Cruyff ao banco do Barcelona e dos investimentos milionários que roubaram ao Calcio os melhores jogadores do mundo, invadiu o futebol espanhol. No presente, enquanto coça a cabeça de preocupação, Camacho já afirmou que, na hora de decidir quem irá ao Oriente no próximo verão, algum desses caçadores de golos terá que ficar em casa. Há dois anos, no Euro-2000, tal drama sucedeu com Morientes, goleador do Real Madrid, preterido a Alfonso e Urzaiz. No Mundial-98, chegou a jogar o argentino Pizzi, naturalizado espanhol. Hoje a decisão é ainda mais difícil. Na linha de partida como seleccionáveis podem-se citar, pelo menos, nove ou dez nomes candidatos a jogar ao lado de Raúl nos relvados da Coreia e do Japão.

A ESPANHA E SEUS HOMENS-GOLO, ANO 2002

ESPANHA Uma elite de pontas de lança

MORIENTES /REAL MADRID

25 Anos

LIGA 2001/2002: TITULAR: 18 JOGOS/ 15 GOLOS

O grande candidato a acompanhar Raúl no ataque da selección no Mundial-2002. É um grande cabeceador, herdeiro, em Madrid, do estilo de Santillana. Muito forte nos remates em corrida, é um jogador que cresce sempre que a bola lhe chega perto. Esquecido no Euro-2000, este é o seu ano de explosão definitiva.

URZAIZ / ATH.BILBAO

30 ANOS LIGA 2001/2002:

TITULAR: 22 JOGOS 10 GOLOS

Lembra o estilo de Júlio Salinas pela forma como se movimenta, mas possui um remate muito mais potente. Sabe segurar a bola e sente-se confortável de costas para a baliza, para, depois, descobrir sempre um caminho para o golo. Poderoso fisicamente, é muito difícil de segurar.

TRISTÁN / CORUNHA

26 Anos LIGA 2001/2002:

TITULAR: 17 JOGOS 10 GOLOS

É, de todos, o mais evoluído tecnicamente. Move-se com destreza junto á baliza adversária e revela grande serenidade dentro da área, onde possui um sangue frio impressionante em frente ao guarada-redes. Sabe tocar a bola, tabela, é exímio nas desmarcações e com ele em campo, o golo parece sempre perto de acontecer.

MOISÉS / SEVILHA

31 Anos

LIGA 2001/2002: TITULAR: 22 JOGOS 11 GOLOS

Possante, lutador e muito experiente, é um velho caminhante das áreas da Liga espanhola, mas nunca antes tinha feito tantos golos na divisão principal. O seu ingresso no Sevilha, onde nasceu, foi como se tivesse entrasse numa segunda vida.

LUQUE / MALLORCA

24 Anos

LIGA 2001/2002: TITULAR: 24 JOGOS 10 GOLOS

O tipo de ponta de lança que ganha sempre a chamada segunda bola. Uma astúcia que activada dentro da área vale muitos golos. Feito no Mallorca, destaca-se também no jogo aéreo e na facilidade de remate com ambos os pés. A revelação da época.

TAMUDO / ESPANHOL

24 Anos

LIGA 2001/2002: TITULAR: 21 JOGOS 9 GOLOS

Um periquito puro criado na cantera do Espanhol. Rápido e com grande visão de jogo, é exímio nas jogadas de contra ataque. Muito inteligente a fugir ás desmarcações, gosta de entrar de trás, em drible, e, por isso, muito vêem-no antes como um segundo ponta de lança.

ALFONSO / MARSELHA

29 Anos

LIGA 2001/2002 (Barcelona):

TITULAR: 3 JOGOS 0 GOLOS

40 vezes internacional, é um clássico na selecção. O tipo de avançado centro esquivo que fura por entre as defesas e parece ter um íman nas botas que chama a bola. Uma espécie de Romário espanhol. Depois de brilhar no Bétis, falhou em Barcelona e busca agora relançar a carreira em Marselha, onde voltou aos golos.

CATANHA / CELTA

30 Anos

LIGA 2001/2002: TITULAR: 24 JOGOS 11 GOLOS

Um brasileiro naturalizado espanhol. Não sendo muito rápido, nem sendo um grande driblador, parece muitas vezes adormecido em campo. Pura ilusão. Quando menos se espera, eis que surge no sitio certo. O que lhe falta em agressividade compensa com um sentido de oportunidade letal.

SALVA / VALÊNCIA

26 Anos

LIGA 2001/2002: TITULAR: 20 JOGOS 5 GOLOS

Um tanque. O típico ponta de lança peitudo que ganha no choque e adora as jogadas corpo-a-corpo com os defesas. O seu potente pontapé com o pé esquerdo causa terror aos guarda-redes. Com pouca mobilidade, falta-lhe um pouco de técnica e criatividade para se tornar uma ameaça ainda maior.