O especialista: A “aprendizagem diferencial”

05 de Abril de 2017

1.

No futebol, cada vez mais, nada se cria, apenas se transforma.

“Faz um bom tempo que pensei: Ah, agora só tenho jogado como médio, então vou assumir este posto. Logo vão começar a olhar-me como jogador do meio-campo. Se continuar no Mónaco, acredito que vou seguir nesta função. Já o clube que quiser contratar-me estará a pensar que vai levar um jogador polivalente”.

Esta frase é de Fabinho, pilar do Mónaco de Jardim, uma equipa tacticamente evoluída a partir dum conceito básico que faz um treinador: conhecer os jogadores, entrar dentro da matéria mais secreta de que são feitos e tirar o melhor partido deles. Fabinho é um desses casos.

Quando há duas épocas o vi surgir como médio-centro, pivot-defensivo, contra o Arsenal, em Londres, num jogo da Champions, estranhei. Nunca o tinha visto naquela posição, nem lhe detectado qualquer vocação especial para o lugar. Fez um grande jogo e o Mónaco ganhou 1-3.

A aposta de Jardim não nascera, no entanto, da adaptação forçada dum lateral a médio. Para Jardim, Fabinho já era médio mesmo antes dele, o próprio jogador, saber. Todos o viam como lateral-direito a crescer. O treinador viu-o, como mais ninguém vira, como um médio em potência escondido. Ou seja, não viu um polivalente. Viu um especialista num lugar em que ninguém, nem o jogador, imaginara antes.

Por isso, hoje, mesmo que Fabinho pense que muitos treinadores no futuro o possam ver como um jogador mais apetecível por pode fazer diferentes lugares (o que é verdade na forma de pensar de muitos), aquilo que poderá fazer dele um verdadeiro “jogador de top” é ser um especialista, um jogador de referência, numa posição. Esses são os craques. Não os polivalentes. E Fabinho já não vai voltar a ser lateral-direito. Pode até lá voltar a jogar. Mas já será fora do lugar.

Esta “descoberta guiada” da essência do jogador é fundamental para marcar a diferença no futebol moderno. Encaixa naquilo que o professor Wolfgang Schollhorn, da Universidade de Mainz, na Alemanha, definiu de “defferential learning” (a teoria da aprendizagem diferencial).

Para ele, os jogadores aprendem de forma intuitiva a adaptar a técnica e, no jogo, tomar a decisão perante cada circunstância (sobretudo naquelas em que já antes erraram em... especificidade). Assumem, assim, a natural responsabilidade da especialização.

2.

Mais importante do que um jogador fazer várias posições, é saber fazer a mesma posição de.. formas diferentes. Esse é, para mim, o “jogador de top” do futebol moderno. Pode-se ser médio-centro, pivot, de diferentes formas, com ou sem o “hífen” defensivo, com uma dinâmica táctica ou outra. Depende dos princípios (ideias) do modelo de jogo do treinador.

É nesse outro novo “túnel de transformação” que irá, eventualmente, entrar o futebol do médio Fabinho quando for para outro clube. Poderá repetir muito do que faz hoje no Mónaco, mas será obrigado a fazer outras coisas que essa outra equipa (com outros princípios) o obrigará a fazer.

É o grande desafio à sua especialização multifunções numa posição. Não o de voltar a jogar noutra posição, como polivalente. Isso, muitos fazem. Mas nenhum deles se torna numa referência para um onze em que temos de eleger o melhor, posição por posição.

A fase de iniciação do “jogo posicional” nunca é fácil, porque o jogador nasce erradamente com a noção de que para jogar futebol (e jogar bem, com o reconhecimento do esforço), tem de estar sempre a correr o mais possível. Nada mais errado. O espaço (sua ocupação) e a bola (perceber por onde ela deve andar) é que fazem o jogo, a tal “pedra filosofal” teórico-futebolística do que é “jogar bem”. É, em suma, pensar bem o jogo posicional.

O crescimento de Fabinho é muito diferente do seu nascimento. Isto é, do seu “primeiro nascimento”. O segundo, feito com o treinador, é que lhe permitiu descobrir o jogo. Antes apenas descobrira um... campo de futebol. É muito diferente.