ESQUEMAS TÁCTICOS DO FUTEBOL ITALIANO 2002/2003

13 de Setembro de 2002

INTER: A Grande missão de Cuper

Treinador: Hector Cuper Sistemas de jogo possíveis: 4x4x2 / 3x4x1x2 Da observação atenta das experiências de Cuper na pré-época, conclui-se que a organização ofensiva depende, directamente, da esquematização do sector defensivo ser feita com uma linha de 3 ou 4 defesas. - Hipótese 1: Em 4x4x2, o sistema clássico, já esquematizado por Cuper nas épocas anteriores. Desta forma, com a defesa a «4» sempre completa, com a dupla de centrais Materazzi-Canavarro, será o jogo pelos flancos a coordenar as acções ofensivas, sobretudo através dos médios-ala, onde as opções são: na direita, Sérgio Conceição, muito forte a partir para cima dos defesas, ou Guly, mais consistente a cobrir o flanco na hora de defender; na esquerda, poderá alinhar Recoba, magistral no drible e no passe, sempre em velocidade, repetindo a posição da época passada, ou Dalmat, que também sabe jogar na direita, mais seguro defensivamente.

A insistência de Cuper na contratação de Kily Gonzalez ou Solari, pressupõe, pela característica bífida dos dois jogadores, ambos muito fortes nas compensações defesa-ataESQUEMAS TÁCTICOS DO FUTEBOL ITALIANO 2002 2003que, que o técnico argentino prefere a segurança defensiva. A solução será Coco, o defesa-esquerdo não subir tanto, dando assim mais liberdade ao génio de Recoba. No lado direito da defesa, J. Zanetti, um lateral ofensivo, poderá atacar mais, mas nunca ao mesmo tempo do seu colega da ala esquerda. - Hipótese 2: Em 3x4x1x2, com defesa a «3», surge a novidade do trequartista, um jogador que, dotado de criatividade, joga directamente nas costas dos dois pontas de lança. Na defesa, neste sistema, jogariam, Córdoba, muito rápido nas dobras e no tackle, sob a direita, Materazzi, no centro em acções de marcação e Canavarro, um pequeno muro, sob a esquerda. Um esquema onde ganha grande relevo o papel dos laterais ofensivos, com liberdade para fazer todo o corredor: J. Zanetti e Coco, desaparecendo os médios ala, ficando a maior responsabilidade de organizar o jogo para o tal médio trequartista: Dalmat, eleito neste inicio de época como o novo centro-campista chave do projecto táctico de Cuper.

Outras opções seriam Emre, Morfeo ou Recoba, que assim deixaria de estar prisioneiro no flanco esquerdo Em ambas os sistemas, 3x4x1x2 ou 4x4x2, é ponto firme a utilização da dupla de trincos, Di Biagio-C.Zanetti (ou Almeyda), médios defensivos de grande capacidade física que se plantam à frente da defesa, e dois pontas de lança com força e técnica: Vieri e Crespo.

AC MILAN: Ancelotti e a loja das estrelas

ESQUEMAS TÁCTICOS DO FUTEBOL ITALIANO 2002 2003Treinador: Ancelotti Sistemas de jogo possíveis: 4x3x1x2 / 4x3x2x1 Com a linha de defesa sempre composto de quatro elementos (Nesta e Maldini, centrais, Simic, na direita, e Kaladze, na esquerda, laterais) a grande missão de Ancelloti, um adepto do 4x4x2, será descobrir um modelo táctico para fazer coexistir ao mesmo tempo no onze, estrelas como Pirlo, Rui Costa, Seedorf e Rivaldo, nas costas dos caçadores de golos Shevchenko e Inzaghi. Em termos individuais, a grande novidade táctica reside na nova posição de Pirlo, antes médio centro, rival directo de Rui Costa, e, esta época, mais recuado, á frente da defesa, como um trinco, fazendo o lugar que antes era de Albertini. É uma excelente opção. Tecnicamente e tacticamente muito forte, Pirlo, 23 anos, revela crescente maturidade competitiva. Na ausência de Rui Costa, é ele que pensa o jogo da equipa. Com ele está garantida a rápida transposição defesa ataque, ora saindo a jogar, ora com um passe preciso a lançar os médios-ofensivos Seedorf ou Rivaldo. Ao lado dos artistas, em qualquer sistema, é inquestionável a titularidade de Gattuso, a alma guerreira do onze, descaíndo sobre o flanco direito e partindo sempre de posições mais recuadas será sempre o primeiro apoio de Pirlo. Apesar de ambos serem grandes fantasistas, Rivaldo e Rui Costa são, porém, na essência, jogadores muito diferentes. Rui Costa é um nº10, médio-centro clássico.

Rivaldo joga atrás do ponta-de-lança, mais adiantado no terreno. Para a composição do meio campo-ataque, Ancelotti pode, assim, optar por duas soluções: - Hipótese 1: Em 4x3x1x2, com apenas um fantasista (Rivaldo) e dois pontas de lança (Inzaghi e Shevchenko) - Nesta solução, face á intenção clara de Ancelotti em fazer jogar Seedorf sob a faixa esquerda, Rui Costa terá dificuldade em encaixar no onze, pois Rivaldo irá flectir no terreno e colocar-se nas costas da dupla Inzaghi-Shevchenko, formando assim um rombo do qual Pirlo seria o vértice defensivo e o brasileiro o vértice ofensivo, rasgando as defesas. - Hipótese 2- Em 4x3x2x1, com dois fantasistas (Rivaldo e Rui Costa) e só um ponta de lança (Inzaghi ou Shevchenko). Nesta situação, desaparece o meio campo em rombo e Rivaldo encosta-se mais ao flanco direito, ficando Rui Costa com as chaves do jogo colectivo, á frente de Pirlo e nas costas do ponta-de-lança, que, neste caso, por ser exímio nas desmarcações e na busca dos espaços vazios, será preferencialmente Inzaghi

JUVENTUS: O Computador de Lippi

ESQUEMAS TÁCTICOS DO FUTEBOL ITALIANO 2002 2003Treinador: Marcelo Lippi Sistemas de jogo possíveis: 4x3x1x2 / 4x3x2x1 Fiel devoto do 4x4x2, Marcelo Lippi cristalizou a sua Juventus num compacto 4x3x1x2, onde o bloco do meio campo é o suporte de todo o colectivo. Neste sector, a principal inovação coloca-se na subida no terreno do croata Tudor, antes defesa-central e agora colocado á frente da defesa, como trinco ou médio-defensivo de grande alcance, no lugar de Tacchinardi, surgindo, na faixa direita, devido á lesão de Zambrota, a revelação Camoranesi. Um trio de médios de grande combate, num onze onde o checo Nedved se assume, cada vez mais, como grande maestro da equipa. O ponto mais fraco situa-se no flanco esquerdo do meio campo, zona ocupada a época passada por Davids, um jogador que respira melhor na faixa central. Após anos de hesitações, que se prolongaram na selecção, a última época resolveu, por fim, o dilema posicional que assaltara os últimos anos da carreira de Del Piero: médio-ofensivo, o chamado trequartista, ou avançado puro? A questão tinha como base, sobretudo, a qualidade técnica e fantasista de Del Piero, talvez o jogador italiano, depois de Baggio, com maior talento orquestral.

Tinha tudo para ser um nº10 á moda antiga mas prefere, ou exige, jogar mais adiantado no terreno, mais próximo do golo, assumindo-se como um avançado puro, ideal para fazer dupla com um ponta-de-lança mais em força e exímio cabeceador, ou seja, Trezeguet. A ausência do goleador francês nos primeiros jogos pode, no entanto, provocar alterações no plano ofensivo. Sem Trezeguet, Lippi poderá optar por duas soluções: - Hipótese 1: Manter o 4x3x1x2, colocando Salas ou Di Vaio no lugar de Trezeguet, mantendo-se o fantasista Nedved como trequartista, atrás dos pontas-de-lança. - Hipótese 2: Passar a jogar em 4x3x2x1, só com um ponta-de-lança, Salas ou Di Vaio, com Nedved e Del Piero nas suas costas, abertos nos flancos, a organizar jogo. Desta forma, o meio campo ganha mais força, mas a equipa perde intensidade ofensiva. Neste sistema, a única forma de fazer a diferença no ataque seria através da fantasia individual de Del Piero ou dos rasgos de Nedved, capaz de sozinho desintegrar uma defesa. Não é de excluir, no entanto, a possibilidade de Lippi arriscar o 4x3x3, ou até o 3x4x3, escalando o tridente ofensivo dos seus sonhos: Trezeguet, no centro, Di Vaio e Del Piero abertos nas faixas. Uma solução que exigiria grande sacrifício táctico a estes dois homens na hora de defender, obrigados a recuar para trabalhar na marcação e na recuperação da bola.

ROMA: O Império romano de Capello

ESQUEMAS TÁCTICOS DO FUTEBOL ITALIANO 2002 2003Treinador: Fabio Capelo Sistemas de jogo possíveis: 3x5x2 / 3x4x1x2 Dos grandes candidatos, a squadra de Capelo foi a que menos se reforçou. A base da equipa e o sistema táctico permanecem imutáveis. O único jogador exigido por Capello durante a pré-época foi o holandês Davids. Por este seu desejo, conclui-se que a maior dificuldade desta Roma situa-se na agressividade competitiva sob o meio campo, quer na recuperação da bola, quer no inicio das manobras ofensivas. Uma tarefa actualmente entregue a Tommasi e Emerson, num sistema de 3x4x1x2, variante dinâmica do 3x5x2, onde a acção dos laterais, Cafu, na direita, Candela na esquerda, é decisiva para o sucesso do sistema. Eles são as verdadeiras asas propulsoras do onze. Foi neste sistema que a Roma –praticamente com a mesma equipa (a única alteração é a de Panucci por Zago)- foi campeã há duas épocas. Esta será a terceira época que Capello ensaia o mesmo sistema na Roma.

Na linha de defesa a «3» mora o trio Zebina, na direita, Samuel, no centro, e Panucci, na esquerda. Todos muito fortes na marcação e nas dobras. Como médio-ala, a fechar os flancos defensivamente, muita atenção ao brasileiro Lima, na esquerda, um jogador discreto mas de grande importância táctica, num onze regido pela batuta de Totti, o nº 10. No ataque, uma dupla sempre com os olhos postos na baliza Battistuta-Montella, enquanto Delvecchio antigo avançado centro, muito contestado no tempo de Zeman, tornou-se, com Capello, num reciclado médio-ala ou extremo-esquerdo que, para além de atacar, é decisivo a defender, fechando o flanco e permitindo, com isso, as subidas de Totti. Noutro nível, aguarda-se com expectativa qual será a influência de Guardiola, depois de uma época atribulada em Brescia, nesta Roma de Capello. Com ele em campo o meio campo ganhará maior qualidade técnica, capaz, com a visão cirúrgica do maestro espanhol, de passes em profundidade mortíferos, mas também capaz, quando necessário, de trocar a bola, baixar o ritmo de jogo e congelar a bola.

No papel, o 3x4x1x2 é um sistema aliciante, mas adquire, em campo, muitos riscos defensivos. Exige defesas rápidos e laterais ou médios ala muitos fortes a defender e atacar, mas torna mais rígida a posição dos elementos na zona central, condicionados defensivamente a dobrar nas faixas, exigindo-se, para criar desiquilibrios na fase atacante, grande mobilidade e capacidade criativa dos homens mais adiantados.