Essa palavra “intensidade”

01 de Março de 2016

Quando por momentos vê-se o que se quer

Fala-se muito em “intensidade de jogo”. Em subir ou baixá-la. Durante o tempo de Lopetegui no FC Porto ficou claro, independente dos resultados, que a equipa jogava, no geral, em intensidade baixa. A dedução normal é que também treinaria em intensidade baixa.
Sintomas concretos da palavra aparentemente abstrata, tem a ver com um comportamento colectivo de ação (e reação) perante o jogo onde entra velocidade de tomadas de decisão, concentração a níveis altos permanentes, controlo de ritmos, “encurtamentos” permanentes ao adversário, chegar/invadir primeiro os espaços, ter a bola e segurá-la. Numa definição hábil: “agressividade táctica”. Fazer a equipa “respirar” e ditar a “frequência cardíaca do jogo” através dessa sua “máquina táctica”.
Peseiro quer mudar a face dessa realidade – subir a intensidade de jogo e, acredito, de treino- numa altura em que ela já está colada à equipa e não tem tempo para mudar hábitos de raiz. Consegue-o em alguns momentos.
O assunto central do treino é o próprio jogo e a relação com a bola (cultivar a posse em diferentes momentos e com diferentes princípios para diferentes fins); A aptidão física, táctica e técnica são três elementos que se interligam no jogo e no treino. Ou seja, o jogo determina tudo. É o começo e o fim de um ciclo, que se inicia com o... treino seguinte e conclui-se no fim do... jogo seguinte.
Por isso, não intrigou que, contra o Belenenses, a equipa revelar essa intensidade (pressão em não deixar jogar, recuperar, ter bola e espaços) na primeira parte e, depois, não o conseguir nbelem-portoa segunda. Não o manteve porque não a tem assimilada nem no corpo, nem na mente.
Não fez a época assim. Por isso, é natural que a certo ponto “desligue” a ficha da intensidade. E o “transfer” disso é, claro, táctico, a tal “perda da organização”. Tudo que se passa no “FC Porto táctico” (e aparentemente físico) é, assim, tão lógico como inevitável.

Quanto a pressão "amordaça" a criatividade e mete o jogo num saco

intensidade

Se ha local onde a palavra intensidade faz sentido aparecer é quando se fala na postura de Jesus e Sérgio Conceição no banco no comando das suas equipas. Sporting e V. Guimaraes são essa imagem na forma como entram em campo e abordam cada jogo, cada jogada. Outra coisa é, depois, a organização (e capacidade de reorganização) que revelam a cada momento alternado do jogo.
A intensidade, porém, essa, nunca baixa. A questão é que nem sempre é utilizada da melhor forma. Uma coisa diferente é, então, um "jogo intenso" quanto essa atitude competitiva se traduz em "pressão contra pressão" e desaparece o espaço para o futebol mais pensado.
É quando se nota a diferença que um jogador com essa, digamos, "intensidade mais pensadora" pode mudar o jogo e a forma como se trata a bola, os espaços e s relva. Brian Ruiz foi esse jogador na primeira parte da "batalha de Guimaraes". Nota a sua equipa, o jogo, o adversário e até o tratador de relva. Um passe bem feito "fintando a pressão" e tudo muda.
Mas este é outro Sporting táctico quando mete jogadores de faixa clássicos colo Bruno César e Gelson diferentes dos falsos alas que fazem movimentos interiores para pegar no jogo, como João Mário (puxado para o centro) e, claro, Ruiz.
É no meio desta equação que "brilha um jogador pela ausência", Adrien, o motor que carrega a equipa para a frente, como um dia o definiu, como ele fosse uma empresa individual de mudanças tácticas. E, na verdade, neste Sporting, até é.
Não é fácil entrar na cabeça de um jogador mas é impossível não imaginar que o "pensamento amarelo" andou pela mente do Slimani pre-Derby.
A intensidade nem sempre é, portanto, um bom princípio. Quando fecha os espaços e mete a criatividade num saco acaba por se traduzir num relvado transformado numa "jaula táctica".
As defesas de um guarda-redes que canta com a claque fizeram o resto. Esta equipa do Vitoria joga com o coração na ponta das botas. Sobreviveu com ele até ao fim.
O campeonato pode continuar. A pressão vai atingir níveis máximos depois de um jogo condicionado pela pressão. Do jogo e da ameaça dos amarelos.