Eu gostava de viver no mundo de Ibrahimovic

15 de Março de 2015

Eu gostava de viver no mundo de Ibrahimovic
A calma como olhou a equipa do Chelsa aos saltos e saiu do campo explicou num gesto como o seu futebol é grande demais para todo este xadrez táctico-físico atual.

Como futebolista construiu um autêntico império emocional em seu torno. Olhar desafiador em passos seguros de 1.92m, que começa mal entra em campo a caminhar com a equipa. Um imagem altiva, o mundo de baixo para cima, que depois se torna em unidade de medida para tudo que faz com o jogo a decorrer.

O poder, diz-se, sempre teve um instinto primário para se mostrar. O combate a ele, também. Por isso, muitos vem Ibrahimovic como um inimigo.

Só que, a bola passa-lhe perto e, de repente, a sua personalidade puramente artística e poderosa, ou agitadora, desconcerta-os a todos com gestos, jogadas ou golos de extraterrestre. Pouco depois, porém, voltam a ter por ele medo e talvez repulsa. Sentem que tudo aquele poder tem um lado autodestrutivo. Na verdade, ninguém sabe como o defrontar, ninguém sabe o que vai sair do seu corpo, génio, loucura, tantas expressões, tantas cabeças.

Por isso, quando entrou naquela bola dividida com Óscar, no campo de batalha de Londres, todas essas emoções e ideias estavam em conflito no subconsciente de quem via. A expulsão exagerada só pode ser contada e entendida neste registo inalcançável. Foi tão grotesca como poética.

A forma serena como encarou a turba aos saltos da equipa do Chelsa nesse momento (mesmo de joelhos parecia maior que todos) e logo depois saiu do campo, em direção ao “seu mundo”, explicava, num gesto-metáfora em andamento, como o seu futebol era (é) grande demais para caber naquele tabuleiro de xadrez táctico em que se tornara as quatro linhas do relvado de Mourinho e Blanc.

Em campo ficavam duas equipas. E porque Ibra não era daquele jogo, o mesmo... jogo continuou como se estivesse onze contra onze. Para ambas.

A parábola quase bíblico-futebolística de Thiago Silva (vilão, inferno, herói, paraíso) questiona por quantas emoções passa um jogador durante um jogo. Juro que, no comentário, não conseguia ver a bola tocar-lhe na mão, mas ele admitiu que sim, que lhe tocou, de raspão.

Mourinho levou a análise do jogo para uma perspectiva mais correta do que o tentou levar no relvado. Ou seja, quando fala que não foi uma questão de quebra física (embora isso fosse a parte visível na equipa) e fala de uma questão do sistema nervoso central (a parte invisível da mesma equipa, mas a mais decisiva) está a tocar no ponto certo que, nestes jogos, faz o cérebro tático dos jogadores em movimento.

O estádio não entendeu que quisesse controlar o jogo a partir do controlo do resultado. Os jogadores também não o perceberam. E não o souberam intepretrar. A sensação clara que fica é que se estivesse a perder, a precisar de dar a volta ao resultado, o Chelsea jogaria muito melhor, a estratégia seria diferente, o sistema nervoso central também.

Tão estranho como natural.

SABER QUEM ESTÁ AO LADO

A marcação individual nos cantos é hoje dominante na maioria das equipas. A zona que apela mais à inteligência perde terreno para a opção-homem em que fica clara a responsabilização individual no caso de falhas. O Chelsea sofreu dois golos de canto.

Questão de concentração, e do tal sistema nervoso, até no intrigante ultimo golo em que Terry, com tanta voragem de marcar o homem que tem perto de si, nem se apercebe que é o seu colega, Cahill que está a querer ganhar-lhe a frente. Thiago Silva fez, ironicamente, o golo nas costas de todo este exército de marcações individuais.

À margem disto tudo, jogando ao ritmo da pantera-cor-de-rosa, Pastore, um argentino que deve ter crescido num futebol de rua que já tinha um jardim de condomínio por perto. Olha-se para ele e recorda-se o que diziam os velhos argentinos aos treinadores que lhes pediam mais garra: “era só o que faltava que para jogar futebol tivesse de correr!”. Para que serve, para que está aqui, afinal, a bola?