EU SEI O CAMINHO PARA GANHAR

23 de Julho de 2014

Sempre que vejo a seleção da Inglaterra sinto que ela é vitima da grandeza do seu próprio campeonato para justificar tantas criticas. A quantidade de equipas-multinacionais que marcam hoje a Liga inglesa originou uma competição espetacular, mas não diz nada sobre a sua seleção e adulterou, inclusive, a pureza do estilo britânico. Tirando, porém, o titulo de 66, esse estilo nunca lhes deu, apesar de andarem sempre de nariz no ar, grandes conquistas. A história da seleção inglesa é um manual de sofrimento. Do fim da era de Charlton, herói careca dos anos 60, até às calças rasgadas “Dolce & Gabana” de Beckham.

Pode este Mundial ser diferente? Dificilmente. O renovado onze da “Velha Albion” espelha o desejo por novos heróis. Provavelmente, essa maior esperança até começará o Mundial no banco, Barkley, um miúdo com técnica potente que cresceu depressa no Everton.

Ver Sturridge como ponta-de-lança é, porém, o maior exemplo de como se pode mudar a tradição inglesa do clássico nº9 inglês que tinha mais lesões nos dentes do que nas pernas. Sturridge fez a bola descer à relva. E a equipa percebe isso. Em vez do jogo aéreo, as desmarcações e a mobilidade. O jogador inglês refinou-se tecnicamente no sentido de gostar de ter a bola e trocá-la sem a perder de vista, recusando a “profundidade imediata”. E reciclou Gerrard para jogar a pivot, como espécie de “farol” para a equipa.

Neste contexto, questionar Rooney é não compreender esta mudança geracional de estilos. Ninguém como ele conseguiu, nas ultimas décadas, incorporar o melhor desses “dois mundos temporais”. A “raça direta” do passado e a qualidade técnica do presente. Rooney é um jogador de “todos os tempos”. Com um feito difícil, claro. Como todos os grandes jogadores.

Por uma razão muito simples: eles sabem sempre como fazer para ganhar um jogo mas precisam que a equipa também perceba isso para o conseguir. Poucas vezes, porém, o resto dos “jogadores mortais” têm essa capacidade. E, por isso, os fracassos acumulam-se. Não pode haver frustração maior dentro do campo para um grande jogador.

A ÚLTIMA “ROCK-STAR”?

EU SEI O CAMINHO PARA GANHARJá o disse noutros momentos. Perturba-me como hoje deixaram de existir “rock-stars” para passarem a dominar as “pop-stars”. Na música, na vida, no futebol. Depois de Best, Cruyff, Maradona, o que nos resta? Gosto de pensar que ainda existem focos de resistência. Como Ibrahimovic, que não está neste Mundial. Gostaria que a minha outra esperança fosse verdade. Balotelli. Mais do que expressão de contestação tem expressões de loucura. É muito diferente. Não abana consciências, abana conceitos. Será curto para ser considerada futebolisticamente uma “rock-star”...

A Itália é sempre a equipa com mais estilo em qualquer competição com que entra. Fico sempre com a sensação que os jogadores pisam a relva da mesma maneira que o fazem em fatos “Armani” quando entram para reconhecer o relvado horas antes ou quando depois o fazem de calções e chuteiras nos 90 minutos.

Chegam ao Mundial com o seu habitual dilema de como encaixar dois criativos na equipa mas desta vez recuaram o debate no terreno. O dilema é conciliar dos “registas recuados”: Pirlo e Verrati. Podem jogar juntos, mas não... próximos. Só há um relvado.