EURO 2004: A Queda do Império francês

26 de Junho de 2004

Ver jogar Zidane, seguindo-lhe todos os passos pelo relvado, mesmo quando a bola está longe, buscando decifrar a sua expressão ou o segredo dos seus mais pequenos tiques e toques, é um exercício estético de grande beleza plástica e, ao mesmo tempo, perturbante para qualquer adepto do belo futebol. Poucos jogadores, em toda a história, desde séculos passados, terão tido um porte tão altivo e elegante como o de mestre Zizou, um futebolista de “playsation” tal a forma desenhada como executa os seus movimentos. Está cansado, é evidente. A velocidade já não é, nunca foi, a sua principal companheira. No 4x4x2 descoordenado de Santini, ele é a batuta que procura impor o ritmo, partindo da esquerda em busca do seu habitat natural, o centro. Raramente, porém, o vemos a sorrir. Nem quando marcou os dois golos à Inglaterra, já em tempo de descontos, coroando uma reviravolta épica.

O seu semblante, romanticamente triste, nem sequer esboçou um ténue sorriso de Gioconda. Também Platini, outro ícone da velha Gália, não era um futebolista alegre em campo. Há algo de irónico na forma de jogar de Zidane. Pisa a relva como se fosse veludo. As gotas de suor que escorrem pela sua cara, a careca que brilha nas noites estreladas, parecem revelar um jogador de outras eras, outro tempo, outro ritmo, outro mundo… Um extra-terrestre que terá, anos atrás, escondido a sua nave espacial num qualquer bosque gaulês e, desde essa data, se dedica a estudar como os terráqueos jogam futebol. E, claro, não há muitas razões para se alegrar, tal a forma como o dito futebol moderno se tornou prisioneiro da táctica e da disciplina dos sistemas, encurralando neles alguns dos seus maiores artistas. Zidane vive, porém, aos 32 anos de idade terrena, noutra dimensão, muito para além destes conceitos. Há, por isso, algo de romanticamente belo na tristeza do seu futebol. Como um poema de amor não correspondido.

EURO 2004 A Queda do Império francêsEsta gigantesca crise de jogo da selecção francesa tem, no entanto, um principal responsável: Jacques Santini, o técnico que não soube entender o momento temporal em que se encontra a idolatrada geração gaulesa campeã do Mundo e da Europa, ao mesmo tempo que, mesmo perante a ausência de um fio de jogo colectivo consistente, manteve inalterável um sistema táctico preso de movimentos e sem linhas de passe ou circulação de bola. Tacticamente, portanto, a França jogou toda a primeira fase do Euro-2004 num monocórdico 4x4x2, com uma defesa envelhecida (que terá chegado ao fim da linha neste momento e na qual para substituir Thuram, Lizaerazu e Desailly já se perfilam talentos como Mexés, Evra e Gallas, central de vocação, enigmaticamente utilizado a defesa direito neste Europeu).

O grande problema desta selecção gaulesa residiu, prém, na dinâmica táctico posicional do seu meio campo. Nunca abdicou da dupla de médios defensivos, trincos de recuperação e lançamento, Makelele, Vieira e Dacourt) e, na segunda linha intermediária, jogou com apenas um ala, Pires, alternando entre a faixa esquerda e a direita, e o deprimido Zidane, partindo de um flanco (aquele que restava vazio, dependendo da posição de Pires) para o centro, na tentativa de nessa espaço nevrálgico, conseguir ordenar jogo ou traçar linhas de passe, quase sempre verticais, para as entradas em diagonal de Henry vindo da esquerda, ou servir na área Trezeguet, um ponta de lança cabeceador que nunca teve durante todo o torneio um cruzamento em condições para a sua zona de finalização.

Nos quartos-de-final, contra uma Grécia fechada, com marcações individuais (Seiteridis-Henry, Katsouranis-Zidane e Kapsis-Trezaguet) e contra ataque mórbido, a França insistiu no mesmo sistema, deixando o jogo cair num ritmo lento que satisfazia os gregos, nunca revelando dinâmica na circulação de bola. Só a vinte minutos do final, depois da Grécia ter feito o golo no seu único contra ataque do segundo tempo e que Santini, por fim, mexeu tacticamente na equipa, adoptando o sistema que desde o inicio do torneio (independentemente dos seus intérpretes) deveria ter sido a principal referência da sua selecção: um 4x4x2 em losango, transformado, com apenas um trinco (Malelele), dois alas-extremos (Rothen á esquerda e Wiltord, á direita), um playmaker central (Zidane) e dois avançados, enquanto um ficabva mais em cunha entre os centrais (Saha) o outro descaia para os flancos, arrastando marcações (Henry).

Foram vinte minutos de sufoco para os gregos, com a França finalmente a aumentar o ritmo, a jogar pelos flancos, ordenada no centro e a criar sucessivas oportunidades de golo. Já era, porém, tarde demais. O cronometro também passara a andar “mais depressa” e essa reacção ficou-se apenas pelas intenções, acabando, no final, a selecção de Zidane por cair eliminada aos pés de uma muito bem orientada mas algo rudimentar em termos de estilo, selecção grega, na qual mora um mestre da táctica no qual Santini deveria espelhar-se, Rehhagel. Depois do catenaccio de Trapatonni, do receio de Eriksson, com a Inglaterra, e do conservadorismo de Saez, com a Espanha, outro treinador acabou por sucumbir á justiça dos Deuses do Futebol, aqueles que determinam, na sua infinita sabedoria, como o medo e a vocação conservadora é o pior companheiro para quem tem a missão de organizar e esquematizar tacticamente uma grande selecção, com rótulo de potência histórica e favorita á vitória. Fica, mais uma vez, a lição da história.