EURO 2004: A Táctica e a estética dos sistemas

21 de Junho de 2004

FRANÇA: 4x4x2 com “playmaker”

Defesa a «4», com um ala-extremo clássico (Pires, contra a Inglaterra, Wiltord, contra a Croácia), colocado sobre o flanco direito, dando profundidade ao jogo, enquanto partindo da outra faixa, a esquerda, emerge o maestro Zidane, flectindo no terreno, para se assumir como “playmaker”, enquanto que nas suas costas, com o corredor liberto, pode subir, o lateral canhoto Lizarazu (contra a Inglaterra, Silvestre, contra a Croácia). No eixo defensivo, duas possibilidades de combinação de centrais: Silvestre-Thuram ou Thuram-Desailly, descaindo Gallas, clássico central no Chelsea e na maioria dos jogos de apuramento, para lateral-direito. Outra solução seria Sagnol. Em qualquer opção, é evidente a pouca velocidade e jogo de cintura dos centrais, o que impede todo o sector defensivo gaulês de defender “alto”, sob pena de ser apanhado em contra-pé, muito adiantado, através das bolas longas metidas nas suas costas a solicitar a velocidade dos avançados adversários (o que sucedeu com Owen, Rooney e Vassel, sprinters ingleses, que desta forma, através de um contra-ataque serpenteado do novo “wonder boy” de Everton, ganhou um penalty que poderia ter sido fatal).

Á frente da defesa, uma clássica dupla de médios defensivos de contenção: Vieria (box to box, transportador de bola que joga de área a área, e Makelele ou Dacourt, espécie de relógios de cuco, que recuperam e fazem o primeiro passe, quase sempre curto, na saída de bola para o ataque, acção onde, quase sempre, surge Zidane, recuando e flectindo no terreno, para, de cabeça e careca levantada traçar as coordenadas do colectivo) No ataque, Trezeguet, entre os centrais adversários, mortífero ponta de lança, típico nº9 cabeceador e predador da área, acompanhado por Henry, que parte de trás, quase sempre da esquerda, aproveitando o espaço vazio deixado por Zidane, para se camuflar entre os médios, fugir ás marcações e depois surgir, em velocidade, desintegrando os assustados defesas adversários)

INGLATERRA: 4x4x2 com meio campo em “linha”

EURO 2004 A Táctica e a estética dos sistemasDepois de testar, em vários jogos de preparação, o losango a meio campo (a fórmula-diamante como lhe chamam os ingleses), Eriksson esquematiza um clássico 4x4x2, com os médios em linha, variante do sistema que melhor se adapta à idiossincrasia táctica do futebolista inglês. O quarteto intermediário é formado por Beckham (flanqueador direito), Gerrard e Lampard (volantes centrais, com Lampard a avançar mais sobre o centro, ficando Gerrard a fechar atrás) e Scholes (sobre a esquerda, embora sempre com tendência a flectir para o centro deixando a faixa esquerda inglesa vazia –só ocupada pelas subidas de Cole- o que desiquilibra o onze, impedindo-o de se alargar a toda a largura do terreno). Desta forma, pode-se dizer que é na dinâmica táctico-pocional de Scholes que reside o principal problema do meio campo inglês, enquanto que o seu ponto mais forte mora, claramente, na notável precisão de passe ou cruzamento de Beckham, ao mesmo tempo que cresce o entrosamento, “sobe-desce”, entre Gerrard e Lampard.

A grande inovação desta Inglaterra de Eriksson reside, porém, na sua renovada cultura defensiva, adquirindo agora um estilo mais “continental” no plano das marcações, mais rigoroso na ocupação dos espaços, fechando as linhas de penetração adversária. Uma postura quase, digamos, “italianizada”, que torna, no entanto, a equipa muito longa na saída para o contra-ataque, fase onde impera como opção preferencial o passe longo em profundidade, quase sempre executado pela chuteira cirúrgica de Beckham, para os “velocistas” Owen-Rooney, uma dupla supersónica que ainda pode ser complementada com a entrada de outro sprinter, Vassel, remetendo para o banco o ponta-de-lança armário Heskey.

HOLANDA: 4x3x3

EURO 2004 A Táctica e a estética dos sistemas1A filosofia e os princípios básicos de jogo que fizeram a glória do idolatrado futebol holandês mantêm-se: posse e circulação de bola. Entre as mágicas selecções laranja dos anos 70 e até da segunda metade dos anos 80 e a confuso onze do presente existe, no entanto, um abismo a separá-las. Após hesitar entre vários sistemas, 4x4x2, 4x2x3x1 ou 4x3x3, passando pelo dilema a partir do 4x2x3x1 na fase defensiva. O problema reside em descobrir como conciliar o must de estrelas holandesas com uma ideologia colectiva de jogo.

Frente à Alemanha, jogou com Van der Vaart como médio centro, nas costas do ponta de lança Van Nistelrooy, fazendo o chamado rombo ofensivo à frente dos trincos-volantes Cocu-Davids, ficando nos flancos, como extremos, Overmars, á esquerda, e Van der Meyde, á direita. A meio do segundo tempo, a perder, introduziu o 4x4x2, com Van Nislterooy e Van Hooijdonk na frente de ataque, forçando quase um 4x2x4 que encurralou os germânicos. Atitude completamente diferente seria demonstrada no jogo seguinte. Contra a Republica Checa, Advocatt preferiu antes um 4x4x2 que se transformava numa espécie de 3x4x3 com o recuo de Cocu na fase defensiva, soltando Seddorf, que partia da direita, e Davids, que surgia da esquerda, para organizar jogo sobre o centro, no espaço deixado vazio por Vander Vaart. Na ala esquerda, surgiu o veloz e criativo Robben. Sem um nº10 clássico organizador de jogo, o onze perdeu a principal referência de circulação de bola, facto agravado no segundo tempo pela saída de Robben e a entrada de outro médio defensivo, Boosvelt, com a missão de vigiar Nedved sobre o centro.

ITÁLIA : 4x2x3x1 e 4x3x1x2

EURO 2004 A Táctica e a estética dos sistemas2O dramático mundo do futebol italiano. Partindo tacticamente do 4x2x3x1, Trapattoni esquematizou, no primeiro jogo frente á Dinamarca, um meio campo rude e cara feia, com Perrota e C.Zanetti como trincos, atrás de Totti como regista, ficando na ala direita Camoranesi, á direita, e Del Piero, aprisionado ao flanco direito, mas sempre com a intenção de flectir no terreno, em diagonais sem bola, para se encostar a Vieri, ponta de lança, ou procurar zonas de criação mais centrais. No segundo jogo, frente á Suécia, sem Totti, Trapatonni reciclou o sistema e surgiu, de inicio, num sedutor 4x3x1x2, com dois avançados, Vieri-Cassano, á frente de Del Piero, de regresso á sua posição de maestro trequartista. Á frente da defesa, maior classe e mais garra, resultado da entrada de Pirlo, espécie de regista recuado, classe pura no trato da bola, cabeça levantada, bola a rolar de flanco para flanco, notável precisão de passe, curto e longo. Tudo “sem osso”. No lugar de C.Zanetti, surge o guerreiro Gattuso, incansável na recuperação da bola, a personificação da alma “azzurra”, tecnicamente limitado, rudimentar até, mas com uma atitude competitiva de dentes cerrados, trincando a língua em cada lance divido, mantendo-se Perrota sobre o lado direito, completando a primeira linha de cobertura defensiva.

Na defesa, sempre a clássica defesa a «4» (Panucci, Nesta, Canavaro e Zambrotta, lateral esquerdo muito ofensivo). Neste sistema, realizou uma excelente primeira parte, ofensiva, dinâmica e defensivamente segura. No segundo tempo, emergiu a histórica tentação italiana de defender o resultado, recuando Trapattoni, nos últimos vinte minutos, para um 4x5x1, saindo Cassano e Del Piero. Neste estilo conservador, resgatando o espírito do “cattenacio”, a Itália perdeu o controle do jogo e acabou sufocado pela pressão sueca. Um drama táctico que, mais uma vez, aprisionou o futebol italiano na hora das grandes decisões.