EURO 2004/ GRÉCIA, NOVO CAMPEÃO EUROPEU: O camaleão táctico de Rehhagel

02 de Julho de 2004

Bem vindos ao mórbido mundo táctico da Grécia de Rehhagel, um onze que é um verdadeiro camaleão táctico, uma equipa com várias faces, expressa em 4x2x3x1, 4x5x1, 4x3x2x1 ou, entre outras variantes, 5x4x1, que resgatou do baú táctico as velhas marcações individuais, ressuscitadas neste Euro-2004 pela mão de um legitimo representante da escola alemã que sente uma especial atracção por sistemas de três defesas (o esquema que lhe garantiu a qualificação), mas que, procurando dar maior consistência defesa-ataque ao colectivo helénico, optou, preferencialmente, neste Euro-2004, por uma espécie de 4x5x1, com capacidade de se desdobrar, na saída de bola para o ataque, em 4x3x2x1 ou 4x2x3x1.

Trata-se, em traços largos, de um sistema que vive apenas com um avançado fixo (Vryzas, contra Portugal, Espanha e Republica Checa; Nikolaidis, contra a França), e outro, aberto nos flancos, papel desempenhado com mestria, por Charisteas, encostado à faixa direita, da qual parte, muitas vezes, em diagonal, no apoio ao ponta de lança, desenhando então um sistema muito próximo do 4x4x2, enquanto no outro flanco, sobre a esquerda, surge, como principal referência, o veloz Giannakopoulos, um jogador de rasgos, muito perigoso a entrar de trás.

Os trincos e o terceiro central: as fontes de transformação táctica

EURO 2004 GRÉCIA NOVO CAMPEÃO EUROPEU O camaleão táctico de RehhagelAo relegar para o banco, desde o primeiro jogo, o histórico nº10 da última década no futebol grego, Tsartas, um maestro do passe, Rehhagel disse claramente, com esse simples gesto, que era sua principal preocupação aumentar o ritmo de jogo da equipa e, ao mesmo tempo, incutir-lhe maior agressividade competitiva em todo o meio campo, a zona onde, em tese, se decidem quase todos os jogos. No seu lugar, como principal transportador de bola, destacou-se a velocidade e o carácter de Karagounis, um criativo com agressividade. Junto de Basinas que na selecção joga um pouco mais recuado do que faz no Panatinaikos (onde é um nº10), como que formam os dois pratos da balança do sistema grego. Ou seja, se Karagounis é o desiquilibrador, Basinas é o pensador, o cérebro que faz a bola circular, junto de Zagorakis, o guia espiritual de todo onze, sempre que a bola vem parar aos seus pés toda a Grécia respira fundo e, mesmo que por breves instantes, fica descansada que nada mal lhe poderá ocorrer.

A principal fonte de metamorfose táctica desta Grécia de Rehhagel situa-se, no entanto, em termos de sistema de jogo, nas distintas formas em como se pode esquematizar a sua postura defensiva, ora com uma clássica linha de quatro, ora num sistema de três centrais, dois esquemas que, muitas vezes, se confundem no próprio jogo, fruto da versatilidade táctico-posicional de alguns dos seus elementos, sobretudo o trinco ou central Katsouranis, um jogador capaz de fazer as duas posições no mesmo jogo, e Seitaridis, um lateral direito destacado, nos dois últimos encontros, para marcações individuais (Henry, contra a França, e Baros, contra a Republica Checa), o que por vezes o colocou na zona dos centrais. O outro ponto crucial de variação táctica reside na versatilidade dos seus trincos-volantes Zagorakis e Basinas, espécie de jogadores “centauros”, isto é de linguagem bífida, exímios, ao mesmo tempo, a recuperar a bola e depois a entregá-la, em toques curtos à chamada zona criativa do meio campo, onde surgem, como principais desiquilibradores, Karagounis e Giannakopoulos.

AS DIFERENTES SOLUÇÕES TÉCNICO-TÁCTICAS:

Marcações individuais, contra-ataque e as diagonais dos alas

EURO 2004 GRÉCIA NOVO CAMPEÃO EUROPEU O camaleão táctico de Rehhagel1Vejamos, portanto, as diferentes variantes adquiridas pelo onze grego neste Euro-2004: Solução 1: 4x3x2x1 com variante 5x4x1. Utilizada frente à Espanha, quando jogou com uma linha de três médios de cobertura Zaorakis-Katsouranis-Karagounis e dois homens abertos nas pontas, Charisteas, na direita, e Giannakopoulos, na esquerda. Parte da clássica defesa a «4» mas, com Katsouranis destacado para marcar em cima Raul, segundo avançado no 4x2x3x1 espanhol, transformava-se, em 5x4x1, quando Raul subia para a área, dando, assim, maior automatismo à marcação “mista” zona-homem a homem feita pela defesa grega em todos os jogos, com Dellas, libero, solto nas dobras, e Kapsis, “stopper”, destacado para marcações individuais, o que fez exemplarmente na maioria dos jogos, Pauleta, frente a Portugal, Morientes, com a Espanha, Trezeguet, contra a França e Koller, com a Republica Checa. Solução 2: 4x2x3x1.

Utilizado no primeiro jogo contra Portugal e frente à Rússia. A variante surge nas duas linhas do meio campo, apostando apenas em dois médios de cobertura defensiva, marcando à zona, soltando, na segunda linha, mais uma unidade na fase de construção ofensiva, o que, na prática, no jogo contra Portugal, se traduziu em dar maior liberdade de movimentos a Karagounis. No ataque, Vryzas em cunha entre os centrais, apoiado por Charisteas sobre o flanco direito.

O cérebro Basinas e o império da marcação ao homem

Solução 3: 4x5x1 na variante 5x4x1 ou 4x4x1x1 com marcações individuais. Sistema utilizado frente á França. Embora o sistema de marcação não seja verdadeiramente, por si só, um esquema de jogo, ele condiciona decisivamente todo o seu desenvolvimento. Foi o que sucedeu no jogo frente ao 4x4x2 da França. Embora, no papel, fossemos levados a pensar ir a Grécia jogar em 4x3x2x1, em campo, viu-se que com Katsouranis a marcar Zidane, Seitaridis a seguir Henry e Kapsis a vigiar, o onze defendia quase sempre com cinco elementos fixos em tarefas de cobertura, só se soltando, quando a bola passava a linha de meio campo, para uma espécie de 4x4x1x1, com Charisteas a aproximar-se de Nikolaidis, ou nas, muito calculistas, subidas de Karagounis. Solução 4: 4x3x1x2 com marcações individuais e um claro médio centro ofensivo, Karagounis. Sistema utilizado na meia-final contra o 4x1x3x2 da Republica Checa, onde o jogo de marcações ao homem traduziu-se em Seitaridis sobre Baros, Kapsis sobre Koller e Katsouranis sobre Nedved, o que durante a primeira meia-hora, quase levou Seitaridis para central e Katsouranis para lateral direito numa linha, a espaços, de cinco defesas. Dentro desta dinâmica, a meio campo, Basinas é o elemento que se solta da zona dos trincos para organizar jogo e Karagounis continua a ser o chamado “enganche rompedor”, o tal desiqulibrador que parte de trás no transportar de jogo para os homens mais avançados, Vryzas e Charisteas. Solução 5: 3x4x2x1 com três defesas e laterais ofensivos. Sistema ainda não utilizado como ponto de partida neste Euro-2004, mas muito utilizado na fase de apuramento, sobretido na variante 3x4x1x2, com dois avançados e um playmaker. Neste sistemas, Seitaridis e Fyssas teriam maior liberdade para subir, Katsouranis fixa-se como terceiro central, desaparecem os alas fixos, surge um médio centro mais ofensivo e os dois avançados jogam mais próximos. É muito improvável, porèm, que Rehhagel resgate agora este esquema.

4X3X2X1: O ESQUEMA PARA “ADORMECER” PORTUGAL

O espirito de de Karagounis num sistema de três trincos

EURO 2004 GRÉCIA NOVO CAMPEÃO EUROPEU O camaleão táctico de Rehhagel2Longe de ser uma equipa deslumbrante, esta Grécia apura-se, para espanto de toda a Europa futebolística, jogando nos espaços vazios dos adversários que estuda pormenorizadamente antes de cada jogo, encaixando depois com mestria no seu plano táctico de forma a que depois, com o frasco de veneno escondido, soltar o mortífero contra-ataque, ou, então, surpreender em traiçoeiros lances de bola parada. Trata-se, claramente, de uma equipa que se sente melhor, e é mais perigosa, nos jogos em que é pressionada, do que naqueles em que é obrigada, por estar a perder, a ter a iniciativa. Para o jogo com Portugal, porém, tendo em conta o mesmo previsível jogo de marcações individuais (com Kapsis-Pauleta ou Nuno Gomes, Katsouranis-Deco, residindo a grande arma portuguesa no facto de ter sempre os extremos, Figo e Cristiano Ronaldo, a trocar de flanco, o que irá baralhar a missão de Seitaridis), no qual deverá manter um estilo de jogo muito próximo do utilizado frente à Espanha (que tal como Portugal também jogava em 4x2x3x1), não sendo de prever uma postura tão aberta como no primeiro jogo no Porto, a principal preocupação de Rehhagel reside na substituição de Karagounis, um jogador-chave até agora na dinâmica de ligação meio campo-ataque, mas que não poderá jogar devido a estar suspenso por acumulação de amarelos.

As duas soluções: Tsartas ou as subidas de Basinas

EURO 2004 GRÉCIA NOVO CAMPEÃO EUROPEU O camaleão táctico de Rehhagel4Para substituir Karagounis, saltam à vista duas soluções. A entrada de Tsartas (como sucedeu na segunda parte do jogo frente à Espanha) ou, mantendo o 4x3x2x1, inserir Giannakopulos, de inicio, na ala esquerda. Na primeira opção, o onze, apesar de ficar mais macio, conciliando ao mesmo tempo os dois grandes pensadores do futebol grego, Basinas e Tsartas, ganharia maior precisão de passe, sobretudo longo, no qual Tsartas é exímio, colocando a bola onde quer. Neste sistema, optando mais pelo “jogo directo” emergente dos passes em profundidade para Tssratas (coimo no golo á Espanha) teria, no entanto, para poder funcionar o seu circuito preferencial de jogo, que conseguir impor um ritmo de jogo claramente mais lento.

Desta forma, a opção mais previsível será a de um 4x3x2x1, com defesa a «4» com marcação mista zona-homem a homem, três médios de contenção (Basinas-Katsouranis-Zagorakis), dois alas abertos com liberdade para flectirem em diagonal, Charisteas, vindo da direita, e Giannakopulos, vindo da esquerda, e um ponta de lança, Vryzas, deambulando entre os centrais portugueses. Outras soluções, podem passar pela utilização de Papadopoulos, como sucedeu frente á Rússia, onde, num sistema de 4x2x3x1, jogou sobre o lado esquerdo, ou pela, pouco provável, entrada de Lakis, que até agora só jogou os minutos finais contra a França, um perigoso médio ala direito com grande profundidade ofensiva.

Opção 1. 4x2x3x1 (variante 4x5x1)

Nikopolidis Seitaridis Dellas Kapsis Fyssas Basinas Zakorakis Charisteas Karagounis Giannakopoulos Vryzas É o sistema no qual, apesar da sua vertente defensiva sem bola, a selecção grega revelou, neste Europeu, a sua face mais ofensiva, fruto, sobretudo, do facto de soltar mais um elemento na fase de criação do meio campo, papel no qual Karagounis se destacou como um excelente trasportador de bola, rompendo de trás no apoio á dupla mais avançada, composta por Vryzas, e, entrando da direita em diagonal, Charisteas.

Opção 2. 4x3x2x1

Nikopolidis Seitaridis Dellas Kapsis Fyssas Zagoranis Katsouranis Basinas Charisteas Giannakopoulos Vryzas Temperado com marcações individuais, é o sistema de referência da Grécia neste Europeu, no qual surge um triangulo basculante de três trincos á frente da defesa, no qual Katsouranis marca ao homem e Zagorakis é o guia espiritual. Sem Karagounis, jogam dois alas abertos nas pontas, apoiando o ponta de lança com entradas em diagonal, ficando a missão de elaborar jogo no centro entregue ás subidas do cerebral Basinas. Foi este o esquema utilizado contra Portugal.

Opção 3. 4x2x3x1

Nikopolidis Seitaridis Dellas Kapsis Fyssas Basinas Zagorakis Charisteas Tsartas Giannakopoulos A prova de como a entrada de um simples jogador pode, mantendo o mesmo sistema, alterar a sua dinâmica. É o que sucede se no lugar de Karagounis jogar Tsartas. Em vez de futebol apoiado e transporte de bola, o jogo passa a ser mais “directo”, aproveitando a precisão de passe longo de Tsartas, um nº10 clássico que torna o ritmo de jogo mais lento, pelo que dificilmente pode coexistir no mesmo onze com Bassinas, o outro cérebro do futebol grego.