EURO 2004/ HOLANDA: O manual táctico de Advocatt

27 de Junho de 2004

Tacticamente, a Holanda de Advocatt após disputar a fase de apuramento quase sempre numa espécie de 4x4x1x1, variante do 4x4x2, na tentativa de conciliar no ataque a dupla Kluivert-Van Nistelrooy (jogando, neste caso, Kluivert um pouco mais recuado), chegou ao Euro-2004 com a intenção clara de resgatar o perfume ofensivo do velho 4x3x3 como sistema preferencial para explorar o jogo pelos extremos. Longe de ser considerado um grande estratega táctico, Advocatt continua, no entanto, a sofrer para descobrir qual o melhor modelo para sistematizar a sua constelação de estrelas, sobretudo na organização e ligação meio campo-ataque. Apesar de dispor de quatro fabulosos pontas-de-lança (Van Nistelrooy, Kluivert, Van Hooijdonk e Makaay), não conseguiu encontrar a dinâmica certa para desenhar, nesta fase final, qualquer sistema clássico com dois avançados tradicionais, nunca utilizando, por exemplo, o tal 4x4x1x1 que serviu de base ao apuramento, acabando, até ao momento, por Kluivert passar todos os jogos no banco.

As duas variantes do 4x3x3

Partindo da clássica defesa a «4» (Reiziger-Stam-Bouma-Van Bronckhorst), o principal dilema na constituição do onze, em termos de dinâmica de ligação meio campo-ataque, reside num espaço entre-linhas onde Advocatt pode optar por duas diferentes soluções, ambas em 4x3x3 mas com designs táctico-posicionais muito diferentes. Solução 1: Utilizada no jogo inaugural contra a Alemanha,. Joga com um triângulo atacante com um vértice ofensivo ocupado por um médio playmaker, Van der Vaart, fazendo o rombo nas costas do ponta de lança, Van Nistelrooy, e servindo de placa giratória central, entre os dois extremos, abertos nas alas, Zenden, á esquerda e Van Der Meyde, á direita, ficando na cobertura defensiva, dois médios de contenção, Cocu, a dobrar e a orientar as movimentações para fechar espaços e Seedorf mais como transportador de bola. Solução 2: Utilizada contra a Suécia, nos quartos-de-final.

Joga, ao invés, com o triângulo intermédio invertido, isto é, com o vértice virado para trás, colocado defensivamente, onde estaria, nessa posição mais recuada, o pendular Cocu, ficando mais sobre as pontas, com tendência para flectir no terreno, os “motores” Seddorf, partindo da direita, e Davids, partindo da esquerda. Neste modelo, sem um médio centro tradicional, caberia sobretudo a Seedorf, através de diagonais sem bola, a missão de flectir da faixa para o centro, quando a equipa recupera a posse da bola e parte para o ataque, de forma a dar equilíbrio entre-linhas ao onze e, ao mesmo tempo, servir de ponto de referência essencial para os extremos na hora de abrir jogo ou fazer circular a bola.

Os extremos e o dilema do médio centro

EURO 2004 HOLANDA O manual táctico de AdvocattA grande força ofensiva desta Holanda reside, claramente, na profundidade de jogo ofensivo pelos flancos, dispondo, para isso, de extremos rápidos, dribladores e capazes de projectar as suas investidas pelas faixas com a mecânica colectiva do onze, abrindo-o o jogo a toda a largura do terreno (e logo o campo parece maior). São ainda os ecos do velho carrossel mágico. A falta de mecanização da linha recuada e de construção do meio campo, que por ser sucessivamente alterada não possui, obviamente, qualquer automatização colectiva de movimentos, é que impede a criação de um circuito preferencial de jogo perfeitamente definido. Neste sentido, face á baixa de forma de Davids ou, noutra variante, à pouca vocação do playmaker Van der Vaart em recuar para “pegar” no jogo, acaba por ser enigmático o facto de Addvocatt não apostar num dos jogadores mais inteligentes do actual futebol holandês, ao mesmo tempo organizador de jogo e transportador de bola deste trás, leitura de jogo, passe preciso e sentido posicional a defender e a atacar: Sjneider, pérola de 20 anos do Ajax. Com ele em campo, o onze laranja tem logo outra dimensão e parece, num ápice, melhor distribuído pelas várias zonas do terreno.

4x4x2 ou 3x4x3, as soluções de recurso

EURO 2004 HOLANDA O manual táctico de Advocatt1Como principais soluções de recurso, sobretudo utilizadas com o jogo a decorrer e o resultado é desfavorável, emergem, basicamente, o 4x4x2 e o 3x4x3. Solução 1: 4x4x2, utilizada na segunda parte frente á Alemanha, como Van Hooijdonk ao lado de Van Nistelrooy na frente. Este modelo carece, no entanto, de um equilíbrio táctico meio campo-ataque, pois para colocar mais um ponta de lança, Advocatt tira um dos extremos e a equipa fica como que com uma perna “torta” a atacar, deixando de ter a mesma profundidade de jogo pelos flancos e capacidade de cruzamentos para a dupla atacante. Ou seja passa a jogar num 4x4x2, com três médios recuados e só um aberto na faixa, cabendo ás subidas de um dos laterais um a dos médios centrais, descaindo para uma faixa a atacar, a missão de colmatarem na fase ofensiva, essa lacuna de dinâmica do sistema.

Solução 2: 3x4x3, velho sistema do futebol holandês, utilizado frente á Suécia, a partir dos 75 minutos, no qual passa a jogar com a defesa a «3» (Heitinga-Stam-Bouma), laterais ofensivos, com liberdade para subir (Reiziger, á direita e Van Bronckhorts á esquerda), passando, neste caso, a jogar só com um médio defensivo típico, Cocu, fazendo a primeira linha de cobertura defensiva atrás de Seddorf que, assim, surgiu mais na zona predilecta de acção, o centro, organizando e distribuindo jogo, ora assistindo o ponta de lança, ora abrindo em passes diagonais para os extremos, onde estava Robben e, numa surpreendente inovação posicional, Makaay, tradicional aponta de lança transformado em extremo direito no lugar de Van Der Meyde.

AS DUAS VARIANTES DO 4X3X3

Solução 1: 4x3x3 (com triângulo defensivo)

EURO 2004 HOLANDA O manual táctico de Advocatt6Sistema utilizado frente á Suécia na variante defensiva do 4x3x3 a meio campo, com o triângulo invertido, regido por um médio defensivo Cocu, e os alas mais recuados, Seddorf e Davids, a entrar em diagonal para organizar jogo quando a equipa de posse da bola. Nos extremos, Robben e Van der Meyde abrem o jogo a toda a largura do terreno, mas é sobretudo quando Seedorf sobe sobre a zona central que o onze ganha eficácia na circulação de bola e construção ofensiva.

Solução 2: 4x3x3 (com o triângulo ofensivo)

EURO 2004 HOLANDA O manual táctico de Advocatt7Na outra variante do 4x3x3, a principal alteração resulta da entrada de Van Der Vaart ou Sjneider para o posto de playmaker passando o triângulo do meio campo a ter o vértice na posição atacante, permitindo maior coordenação na construção das manobras ofensivas, embora com menor consistência defensiva. Em qualquer modelo, surgem sempre dois extremos bem abertos nas faixas e um ponta de lança em cunha. Cuidado Portugal, é aqui que devem surgir as tais “comportas defensivas” para travar a circulação de bola ofensiva dos holandeses!