EURO 2004: O eterno drama do futebol italiano.

27 de Junho de 2004

Caiu, mais uma vez agarrada aos seus arquétipos tácticos, a “latiníssima “selecção italiana, uma presença perturbante em cada Mundial ou Europeu, pela forma dramática como surge em todos estes torneio, com o manual de sofrimento debaixo do braço, “piano piano”, até á derrota ou, o que só sucedeu por uma vez na história do dito futebol moderno, á vitória, numa era dominada por magos como Conti, Antognoni, Gentile ou Rossi, saudável união entre a táctica e a técnica individual. A mentalidade do futebol italiano não se resume a uma questão de treinador. Mesmo os ditos da nova vaga (como Mancini, Prandeli, Zacheroni, profeta do 3x4x3, ou até Lipi, apontado como substituto de Trapattoni) iriam, de certo, quando sentados na cadeira eléctrica da selecção azzurra, não conseguir resistir à mesma tentação defensivista. Depois, como quase sempre perdem por margem tangenciais, nunca encontram nas derrotas razões de fundo para mudar.

Talvez noutra vida, pensará Baggio, o nº10 budista que o Calcio expurgou da sua selecção como se fosse um marginal subversivo. No jogo decisivo da primeira fase, frente á Bulgária, Trap alinhou um onze mais ofensivo, menos conservador, pois só a vitória ainda daria direito a sonhar, mas, nesse momento, a montanha a escalar em direcção ao apuramento já era muito alta e dependia da colaboração escandinava. Falhou e voltou à “bota da Europa” mergulhada numa nova depressão. Daqui a dois anos, no Mundial 2006, iremos ver, podem estar certos, os mesmos dramas tácticos, o dilema colectivo-individualidades e as polémicas dos sistemas. Questões satélites de um problema de fundo no qual reside a dramática filosofia de jogo do futebol italiano.

Uma opção de vida dogmática dentro das “quatro linhas” na qual moram as sucessivas derrotas e frustrações do Calcio, a maior prisão de talentos do futebol mundial com sucessivos carcereiros: Valcaregi, Sacchi, Zoff, Trapattoni, etc... Talvez, só um homem, com o sorriso erguido num sábio cachimbo se encontre ainda a rir: Bearzot, o último campeão de mundo, com a chamada “zona mista”, em 82 (48 anos depois de Pozzo nos anos 30). Fica, mais uma vez, a lição da história, no momento em que, tacticamente, parece certa a evolução do 4x2x3x1 para o 4x3x1x2 que os últimos jogos com Trapattoni na linha de execução deixaram antever para o novo ciclo que se abrirá com Lippi, um treinador apesar das tentações conservadores com um espirito táctico tenuamente mais aberto.