EURO 2004: O MOMENTO TÁCTICO DO PORTUGAL DE SCOLARI

25 de Junho de 2004

Após dois anos de experiências em busca do melhor sistema táctico, só possíveis devido ao facto de Portugal não ter que disputar a fase de apuramento, Scolari chegou á fase final do Europeu-2004 convencido que o melhor esquema para o onze português seria o compacto 4x2x3x1 com dois médios defensivos, alas, um médio centro e um ponta de lança. Repassando todo o percurso de construção do onze luso, conclui-se que se perdeu demasiado tempo em ensaios utópicos (desde o impensável 3x5x2 do primeiro jogo frente á Itália até a testes em 4x4x2 frente ao Kuwait ou Kasaquistão), só possíveis devido ao desconhecimento de Scolari do futebol português e europeu na sua globalidade. Assim, em vez de ter testado o 4x4x2 frente a adversários fortes, Scolari insistiu no 4x2x3x1, sistema no qual o onze ganhou automatização de jogo, ao ponto de, neste momento, apesar de por vezes ele ser utilizado em situações de recurso, a equipa não dispõe, em campo, de mecanização colectiva suficiente para utilizar sistemas de dois pontas de lança como o 4x4x2 como principal ponto de partida na abordagem de um jogo frente a adversários fortes como os presentes nesta fase final.

Desta forma, o 4x2x3x1 é a imagem táctica de referência do Portugal de Scolari, um sistema apenas retocado, de jogo para jogo, em pequenos detalhes de dinâmica ou, em função dos resultados e das características dos jogadores, no plano das opções individuais. Com a alteração de três jogadores chave (o lateral direito, Paulo Ferreira por Miguel, o central, Fernando Couto por Ricardo Carvalho, e o médio centro, Rui Costa por Deco) a equipa cresceu táctica e tecnicamente, mas seria no jogo frente á Espanha, sempre em 4x2x3x1, onde surgiu duas novas alterações (o extremo Simão Sabrosa por Cristiano Ronaldo e o ponta de lança Pauleta por Nuno Gomes), que a selecção encontraria a melhor fórmula para desenhar o seu futebol apoiado e de toque curto, descobrindo, finalmente, um circuito preferencial de jogo que atingiu o seu ponto mais alto, nos quartos-de-final, frente ao 4x4x2 da Inglaterra de Eriksson.

EURO 2004 O MOMENTO TÁCTICO DO PORTUGAL DE SCOLARIO grande segredo, acima dos sistemas tácticos, reside no tal triângulo da vida no futebol: velocidade, técnica e condição atlética. Três atributos exibidos por Portugal em pleno relvado da luz, emoldurados num sistema táctico dinâmico de 4x2x3x1, com Figo a entrar pela esquerda e Cristiano Ronaldo pela direita, mas que de inicio teve a particularidade táctico-posicional defensiva com o recuo de Costinha para mais perto da dupla de centrais Ricardo Carvalho-Jorge Andrade, na intenção de vigiar mais de perto os dois velozes avançados ingleses Owen-Rooney. Embora sofrendo um golo, devido a essa alteração posicional que, numa dado momento do jogo, colocou Costinha em rota de colisão com o mesmo espaço dos centrais, nele fazendo um atraso de cabeça mal calculado, Portugal soube reagir e frente a uma Inglaterra muito recuada, com o meio campo em linha e uma distância muito longa (quase 30 metros) entre o meio campo e o ataque, inserindo nesse espaço intermediário, o outro triângulo mágico: o dos médios Costoinha-Maniche-Deco.

O facto de a quinze/vinte minutos do final, Scolari, em desespero, ter resquematizado a equipa em 4x1x3x2, lançou novamente o debate entre os sistemas de um dois pontas de lança. Assustado com a desvantagem no marcador (0-1), esta alteração teve como base não a saída de um extremo (como no primeiro jogo frente á Grécia), mas sim a de um médio defensivo (Costinha), passando Portugal a jogar só com um trinco, mantendo, ao mesmo tempo os dois alas, apoiados no centro pelos maestros Rui costa e Deco, que, perto fim recuou para lateral direito, após a saída de Miguel. No ataque, a dupla Nuno Gomes-Helder Postiga. O debate entre o 4x2x3x1 e o 4x4x2 carece, no entanto, de consistência face á falta de mecanização colectiva do onze para jogar em sistemas de dois pontas de lança, só o tendo feito, frente á Inglaterra, com o jogo “tacticamente” partido, numa altura em que os ingleses jogam quase todos atrás da linha da bola, segurando deseperadamente a vantagem. Desta forma, mesmo não sendo em teoria o melhor sistema para desenhar bom futebol (esse é, como parece claro, o 4x4x2 em losango), Scolari deverá continuar a ter o seu mecanizado 4x2x3x1 como sistema de referência, apostando nos alas Figo e Cristiano Ronaldo, a “fantasia” musculada, para construir o seu circuito preferencial de jogo, onde a velocidade, a técnica e a condição atlética terão de continuar a constituir o triângulo da vida dentro das “quatro linhas”.