EURO 2004: Scolari, Saez, Rehhagel e os labirintos do 4x2x3x1

20 de Junho de 2004

Tacticamente, o duelo entre a Espanha de Inaki Saez e o Portugal de Scolari, colocou frente a frente dois sistemas iguais mas com dinâmicas diferentes: 4x2x3x1. Jogando com a vantagem do empate, Saez cometeu, porém, o lapso de tentar controlar o ritmo de jogo e o meio campo, sem escalar um médio centro clássico, estilo nº10, como seria Valerón, preferindo antes apostar em Raul como falso avançado atrás de Fernando Torres (um nº9 que, como se provara esta época no At.Madrid, só funciona em 4x4x2).

Sem vocação para organizar jogo, funcionando mais como um falso ponta de lança, Raul nunca conseguiu descobrir a dinâmica certa para ocupar as duas zonas do terreno, sendo anulado, numa marcação individual, por Costinha. Por outro lado, com os dois trincos volantes, Albelda-Xabi Alonso, muito recuados, o onze perdeu o seu ponto inicial de circulação de bola, desenvolvida sobretudo através dos longos passes em diagonal para os extremos. Assim, com a zona central do relvado sem presença espanhola, o onze português logrou, sem grande dificuldade, inserir nesse espaço decisivo o seu triângulo mágico automatizado, formado por Costinha e Maniche, volantes, com Deco no vértice, funcionando como enganche entre linhas meio campo-ataque. Ou seja, enquanto Portugal teve um nº10 moderno e um médio transportador, Maniche, para, no centro, controlar o meio campo, a Espanha apostou num falso avançado centro e em dois trincos recuados. Neste cenário, Scolari ganhou a batalha táctica do 4x2x3x1 e onze luso dominou, primeiro, e controlou, depois, todo o jogo.

GRÉCIA: O Camaleão táctico de Rehhagel

Um verdadeiro camaleão táctico, uma equipa com várias faces, expressa em 4x2x3x1, 4x5x1, 3x4x2x1 ou, ainda, 5x4x1. Legitimo representante da escola alemã, Rehhagel sente uma especial atracção por sistemas de três defesas (o esquema que lhe garantiu a qualificação), mas, procurando maior consistência defesa-ataque, optou, preferencialmente, neste Euro 20004, por uma espécie de 4x3x2x1, com um avançado fixo, Vryzas ou Papadoupolos e dois homens bem abertos nas alas, Charisteas sobre a direita, que quando flecte no terreno para junto do ponta de lança incute no sistema quase um design de 4x4x2, e Giannakopoulos, sobre a esquerda, surgindo Karagiunis como principal transportador de bola e Bassinas ou Tsartas como os grandes pensadores do onze.

Entre esta mescla de cérebros e desiquilibradores, emerge, como pêndulo, o experiente Zagorakis, apoiado por Katsouranis, que também pode jogar a central, em tarefas de marcação, como fez contra a Espanha, vigiando Raul (num sistema próximo do 5x4x1 quando Raul subia para a área), dando maior automatismo á marcação “mista” zona-homem a homem feita pela defesa grega, onde também se destaca a dupla de centrais Dellas, libero, Kapsis, “stoper”, o homem que marcou em cima Pauleta no primeiro jogo. Longe de ser uma equipa deslumbrante, a Grécia apura-se para os quartos-de-final jogando nos espaços vazios dos asversários que estuda pormenorizadamente antes de cada jogo, encaixando depois com mestria no seu plano táctico, de forma a depois, como tivesse um frasco de veneno escondido, soltar o mortífero contra-ataque. Trata-se, claramente, de uma equipa que se sente melhor, e é mais perigosa, nos jogos em que é pressionada do que naqueles em que é obrigada a ter a iniciativa.