Euro 2008: Relatório Final

01 de Julho de 2008

No final de cada grande torneio, existe um comité técnico para analisar o que fica de mais relevante em termos de inovações ou tendências tácticas de toda a competição. Tenta-se decifrar, em profundidade, para onde caminha o futebol. Acredito que, para a UEFA, o relatório técnico e táctico do Euro-2008, será dos mais positivos das últimas décadas. Não surgiram, claro, inovações tácticas (hoje um livro fechado) mas surgiram tendências de jogo interessantes que, em muitos momentos, marcaram uma ruptura com a tendência depressiva que torneios anteriores tinham deixado no ar.

Em termos de sistema, o 4x3x3 parece-me cada vez mais romântico. Mesmo considerando que não se joga em 4x3x3 (ou 4x4x2 ou 3x4x3, etc) mas sim a partir de 4x3x3 (depois na dinâmica adquirem-se muitos outros desenhos) a verdade é que a referência inicial a partir de onde os jogadores devem começar a correr (e voltar depois de finalizada a jogada) está, no futebol de top, cada vez mais relacionada com a maior e melhor ocupação dos espaços no meio-campo (o espaço de transição por excelência). Só nesse sector se pode controlar o jogo, manejando-lhe os tempos de passe (mais curtos) e ritmos de jogo (apoiado). Depois a mudança de velocidade faz a diferença, entendendo-se mais o centro como zona de pressão e as faixas como zona de transição preferencial. Excepção só a Espanha, que soube pressionar e fazer transições da mesma forma no centro como nas faixas (embora o fizesse mais pelo centro, com Xavi, conduzindo em posse a transição defesa-ataque).

O 4x4x2 ou do 4x2x3x1 garante, na abordagem do jogo, superioridade numérica na ocupação dos espaços intermediários. Este é o ponto de partida para controlar um jogo. Sobretudo quando as exigências tácticas e a intensidade competitiva crescem. O 4x3x3 exige uma pressão alta muito forte para compensar a inicial inferioridade zonal na ocupação dos espaços perante equipas que distribuem nas zonas de pressão/transição quatro ou cinco médios verdadeiros.

E estas palavras, médios verdadeiros, são chave. Porque, como os quatro ou cinco médios da Espanha (Senna-Xavi-Iniesta-Silva-Fabregas) explicaram, o melhor futebol é obra de especialistas, e não de polivalentes ou adaptações, como faz o 4x3x3, que tenta reequilibrar o meio-campo com o recuo de um extremo ou a subida de um lateral.

Todas as equipas que chegaram à meia-final (Alemanha, Turquia, Rússia e Espanha) jogavam com o meio-campo a «4» ou a «5», com médios especialistas e intensos nas transições, mas nenhuma em pressão alta. Depois, mudam de velocidade na passagem da primeira para a segunda fase de construção. É o momento de mostrar quem melhor pensa o jogo. Diferentes momentos e ritmos sublimados, neste Espanha, através da posse, passe e, sobretudo, na recepção orientada de todos os jogadores (médios sobretudo). Uma equipa para pendurar na parede de todos os balneários, com uma moldura bonita, e todas as equipas olharem para ela antes de entrar em campo. Porque… jogar bem é isto!

1. Organização defensiva

Euro 2008 Relatório FinalCriou-se a ideia que para defender e pressionar bem, só defendendo e pressionar alto. Não é verdade. Pode-se pensar em jogar bem a partir de diferentes estruturas e colocação do onze. Neste Euro, quase todas as equipas optaram por um bloco médio-baixo (muitas vezes sem recear mesmo o baixo). No fundo, a intenção era manter a organização defensiva sempre completa, não arriscando muito subir o sector mais recuado para não dar espaços nas costas e evitar que se criassem excessiva distância entre-linhas para a primeira linha do meio-campo, o tal local onde se o adversário conseguir furar pode desorganizar toda a nossa organização defensiva.

É uma tendência que segue a dos grandes clubes. Nessa filosofia, a pressão alta deixa de ter aplicação. Passa para média-baixa. Para provar isso, reparem como na maioria das equipas os pivots-defensivos adversários saíram sempre a jogar à vontade. O objectivo é o bloco manter-se o mais unido possível, sem dar espaços entre-linhas, que, assim, ficam mais bem definidas, evitando inclusive desposicionar pouco os laterais, sempre mais recuados.

2. Transições

É o grande momento do jogo. Defesa-ataque e ataque-defesa. Trata-se de saber como reagir à perda ou recuperação da bola, evitando que a equipa fique desequilibrada. Quanto mais rápido as fizer, melhor se move e (re)coloca a equipa. Em geral, as equipas agiram melhor na transição defensiva, pois optam por um pressing colectivo intenso, embora detecta-se sempre um jogador destacado para o activar conforme o local onde cai a bola.
O facto de ser efectuado em posições mais recuadas no terreno (devido à opção pelo pressing médio-baixo) impede que, depois, a transição ofensiva seja muito rápida, sendo feita de forma mais apoiada.

Quando foi mais rápida (com o bloco medio-baixo) o risco de perder a coesão entre-linhas era muito ficando a equipa então exposta, após a perda da bola, na transição defensiva. Um dos erros que motiva isto é o facto de só pensar-se em criatividade na transição ofensiva. Também para defender bem (e pressionar bem, de forma vertical construtiva e não basculante destrutiva) é necessário criatividade. Nesse ponto, o balanço das transições deste Euro decepcionou.

3. Organização ofensiva

Cada vez mais as equipas escondem sobre as faixas os jogadores mais criativos no um para um. Este simples facto condiciona a organização ofensiva perto da área. Provoca sobretudo diagonais, de fora para dentro, do que tabelas entre interiores e alas, para assim criar desequilíbrios. Só quando os laterais sobem essa situação acontece. Na passagem da primeira para a segunda fase de construção, as equipas privilegiaram o passe curto e apoiado. A Espanha (toque de Senna para Xavi) foi o maior exemplo.

Os laterais subiam então até á linha do meio-campo para servir de apoio de circulação, mas, depois, recuperavam a posição defensiva. A presença do pivot-defensivo único essencialmente posicional (Senna, Aurélio ou Frings) contribuiu para que a distinção entra as duas fases se notasse mais. Só Semak saia mais de posição. Desta forma, para não perder os enganches entre-linhas, quando a equipa pegava na bola à entrada da sua área (em campo pequeno) mantinha o bloco médio-baixo ou, subindo-o lentamente, tentava depois aumentar o campo dando profundidade através do esticar dos avançados.