EURO 2012- “Bloco de notas”

07 de Junho de 2012

Seguindo as selecções rumo ao Euro-2012, ficam muitas notas tácticas e desenhos técnicos para «pensar futebol»

1. A Holanda de Van Marwijk, em 4x2x3x1, vive um problema conceptual no inicio da sua construção ao colocar dois pivots muito posicionais à frente da defesa (De Jong, trinco puro, e Van Bommel, 35 anos, já sem a saída de bola de outrora). A equipa parece começar a jogar com um «peso amarrado aos pés» nesse sector. A distância para o médio 10 de segunda linha, Sneijder é, por vezes, enorme, mas, em vez de ser um pivot a sair em transporte, é Sniejder que recua para pegar na bola desde trás. Vejo jogar a Holanda e fico sempre a pensar como seria diferente com apenas um pivot (Strootman, que está no banco, é um talento) e dois interiores, um mais recuado, outro mais subido.

E nessa equação até poderia entrar a melhor notícia laranja dos últimos dias: o regresso de Affellay, após lesão nos ligamentos o ter tirado da relva esta época. Ressurgiu sobre a esquerda (é destro, mas tem uma facilidade impressionante em usar os dois pés). É menos extremo, mas com ele a equipa ganha logo outros olhos a atacar, num modelo de jogo que não usa os flancos no inicio de transição/construção desde trás, mas sim o corredor central. Por isso se notar tanto o peso do duplo-pivot no jogo tão amarrado que só se solta e ganha asas (faixas) quando chega ao ataque.

2. A Inglaterra busca um clone de Rooney para dois jogos. Colocar Ashley Young (que é mais um ala) é uma solução porque tem velocidade de arranque. Isto é, sabe parar para se orientar em função do adiantar do nº9 clássico para entre os centrais (em 4x4x2), metendo depois uma simulação e entrada nos espaços vazios. Sem Barry, terá de ser Parker a ficar mais no espaço dos pivots como referência. Ser mais 6 e menos 8. Menos agressividade, maior nível técnico com bola.

É um 4x4x2 muito posicional: interiores (Parker-Gerrard ou Lampard) e alas puros, onde o canhoto Downing é o mais objectivo a ir à linha, enquanto Milner é mais um equilibrador que segura o meio-campo quando um interior subir. No banco, Hodgson parece deslocado de tudo isto.

3. A Dinamarca (4x2x3x1) quer jogar pelos flancos, mas não tem alas que lhe garantam essa profundidade. Krohn-Dehli procura muitas diagonais e Schone não causa desequilíbrios. É Rommedahl, 33 anos, quando entra, que ainda acelera melhor, mais vertical. A outra opção é Kahlenberg, mas vejo-o mais como segundo-avançado, só que como nesse espaço central já está o talento Eriksen, o mais natural é Kahlemberg, que faz bem diagonais (e no «plano B» em 4x4x2 pode jogar ao lado de Bendtner) jogar a entrar desde a direita.

No duplo-pivot, Zimling é a carraça indispensável, num modelo que para ganhar vida/profundidade pelas faixas pede talvez demasiado a subida dos laterais: Wass, à direita e Simon Poulsen, à esquerda. O problema depois é ter o timing certo para recuar defensivamente.

Inventar espaços

EURO 2012Bloco de notasBuscando possíveis surpresas, a Polónia tem evoluído muito nos últimos tempos, enquanto a Grécia vive o debate «táctica-jogadores».

4. Na Polónia, um grande ponta-de-lança móvel: Lewandovski, com pedigree de equipa grande. Dá, ao mesmo tempo, profundidade sem perder presença fixa entre os centrais. A equipa (4x2x3x1) alarga bem o jogo porque tem alas puros (Blaszczykowski, na direita, desequilibra sempre vai para cima dos defesas, e Rybus ou Grosicki, mais inconstantes, inventam na esquerda) e tem as posições bem definidas na relação com as zonas interiores, onde Polanski (algo lento, mas intenso) conduz desde o duplo-pivot e Obraniak, desequilibrador nato de último passe, é o 10, embora necessite aumentar a rotação de jogo.

5. A Grécia de Fernando Santos espelha um dilema táctico do futebol grego: não existem extremos. Mesmo assim, quer jogar em 4x3x3. Por isso, Samaras acaba encostado à esquerda, quando é mais nº9 (como de Gekas ou Salpingidis, este o que arranca melhor desde a faixa). O ala mais natural é Ninis, promessa grega, mas, vindo de lesão, custa-lhe a mudar de velocidade, num onze que ainda tem Karagounis-Katsouranis a mandar no eixo central, onde Maniatis (avança-recua) pode ser uma boa solução. Desde trás, uma espécie de «Zanetti grego»: Torossidis, tal a quantidade de lugares que faz (lateral e interior no meio-campo) sempre com alta rotação e qualidade.

Flancos e rotinas

A Alemanha transmite força, a Rússia transmite rotinas

6. Na Alemanha, a dúvida é perceber como irão jogar os alas (ou melhor, os ocupante dos flancos) do seu 4x2x3x1. A solução Podolski, velho 9 reciclado como ala, desde a esquerda, e Muller, vertical e veloz, na direita, enquanto o futuro Gotze-Reus espera esperam para entrar. Acredito que acontece ao segundo jogo. Mais difícil encaixar Kroos. Com Ozil (passe+invenção de espaços) a 10, fica só em aberto o espaço do duplo-pivot onde já está Khedira-Schweinsteiger. Veremos. Deixar Kroos de fora do onze é perder um dos médios que melhor que segura, dá peso e passa.

7. A Rússia tem a defesa e o meio-campo que se conhece melhor. Jogam juntos há muito, selecção e clube. Na CKS a dupla de centrais Berezutsky-Ignashevich; No Zenit, o triângulo do meio-campo Denisov (equilibrador nato) Shirokov, Zyryanov, onde também pode entrar Semshov. Joga em 4x3x3, subiu Zhirkov para médio e solta Arshavin desde uma faixa (num torneio curto, pode aparecer em grande outra vez) com Kerzhakov veloz no meio, estica o jogo com facilidade quando mete a bola na frente.