Euro 2016: Onde está o “futebol-champagne”?  

09 de Junho de 2016

Pela primeira vez, 24 seleções na fase final do Europeu. Estarão aqui, algumas, que, quase “passageiros clandestinos”, nunca chegariam a este nível no anterior contexto de “ reserva de admissão” mais elitista. Apesar desta extensão, não muda como olhamos para o seu topo e procuramos elencar os grandes candidatos.

Numa análise sintética, olhando ao momento que cada uma das seleções atravessa, dividira esse topo desta forma:

  1. Alemanha e França
  2. Espanha e Itália
  3. Inglaterra, Bélgica e Portugal
  4. Croácia, Áustria, Rússia, Turquia... (e podem continuar por aqui fora, já entrando no que chamo o “clube dos sonhadores”

Poderá ser diferente. Talvez este respeito pela Itália seja mais... respeito pela sua história numa altura em que a “squadra azzurra” busca novas referencias de classe para o seu onze. A cultura táctica dos seus jogadores e a forma (intensa tacticamente e dramática emocionalmente) como vivem estes momentos, fazem-na, porém, ter sempre porte de candidato. Algo indiscutível para o “império da bola alemão” e cola-se na pele da seleção da casa, a França, apesar de já não ter o “football-champagne” de Platini ou Zidane.

A maior duvida em termos de estado de forma (ou melhor, de condições de colocar em prática o seu estilo de jogo de toque e passe) será a Espanha, debatendo-se com a fase de extinção da sua geração dourada.

2.

 

Na Itália, veremos quem entra na “casa táctica de Pirlo”, um lugar-chave na organização de jogo em que Thiago Motta, sem requintes tecnicistas, pode ser o melhor ponto de equilíbrio entre as soluções disponíveis.

Na França, pode ser Griezmann a nova imagem para o “arco do triunfo”. Joga pela faixa (quase extremo) e explode, joga pelo meio e surge com perigo (junto a Giroud, o nº9 elegante que entra na ausência perturbante de Benzema).

Na Espanha, continuo a ver em Silva a imagem do novo profeta do estilo pela forma como segura, olha (fazendo a pausa) e passe, acelerando ou não depois. Tem é de jogar mais no meio e não tanto na faixa (mas este é o dilema da maioria dos criativos do futebol moderno).

Na Alemanha, a “sala de máquinas” Kross-Khedira no meio-campo e três “motores de explosão” Draxler-Ozil-Muller, em músculo ou criatividade, para (com ou sem nº9, que na versão clássica será Mário Gomez) atacar as assustadas balizas adversárias.

 

3.

cr-quaresma

Portugal entrará depois deste lote. Com Ronaldo em forma e a fazer daqueles jogos em que “parte tudo”, já o meteria (“meio pela razão-meio pelo coração”) num patamar acima, mas é difícil olhar para o nosso onze e ver razões para pensar assim. É uma seleção que terá de valer muito pelo seu conjunto no sentido de ser capaz de aplicar um sistema (4x4x2) com o qual já não jogávamos numa fase final há longos anos. Extremos a jogar como avançados soltos/móveis, médios-cento descaídos nas alas, desaparecimento do 10 e, na defesa, confiar na experiência balzaquiana dos centrais.

Detecta-se, porém, que há muita coisa a nascer. Sinto isso quando vejo João Mário tocar na bola. Mas, não é fácil fazer coincidir esse renascimento (não gosto da palavra renovação, numa seleção que junta, naturalmente, jogadores de 18 anos, Renato Sanches, como de 38, Ricardo Carvalho) com o sucesso que tirando situações especiais dum torneio curto (como aproveitaram a Dinamarca ou Grécia) poucas vezes sucederam.

 

4.

kane

A Inglaterra espelha sempre uma imagem de força mas depois, no jogo a eliminar mais difícil, não consegue ter a “esperteza estratégica táctica” para o ganhar. É o que chamo uma seleção “demasiado sincera”. O que ameaça fazer, faz mesmo. E mesmo que o velho “kick and rush” seja hoje passado dando lugar a um jogo apoiado posicionalmente (em 4x4x2 que já tem a variante losango desde Erickson em 2004 e que Hodgson resgatou) a “Velha Albion” não aumentou a consistência competitiva. Depende muito dos factores de cada jogo.

A defesa é forte, mas sobretudo plano físico do ataque à bola, não no plano inteligente de atacar ao... espaço. Tem um novo profeta a meio-campo, Alli, mas é com Rooney e os avançados Kane-Vardy que vão a todas as bolas como os velhos avançados ingleses sem dentes que têm mais esperanças em ganhar.

 

5.

 

de bruyne

A Bélgica é hoje, talvez, a seleção em que todos detectam mais talento a aparecer por todos os lados, mas é difícil ver um candidato numa equipa que tem de inventar a sua linha defensiva para jogar este Europeu, no sentido de adaptar laterais a centrais ou centrais a laterais tal a forma como todos os elementos desses sector trocam em ambas essas posições. Com De Bruyne e Hazard inspirados a inventar com a bola (no centro ou vindo da ala) e um nº9 que parece crescer de tamanho e mortífero, Lukaku, podem, porém, sonhar com os “pés assentes na relva”.

 

6.

 

ibra-arnautovic

Entre as seleções mais “sonhadoras”, o talento com carácter da Croácia continua o mais sedutor quando reúne Modric-Kovacic-Rakitic e tem ainda Pjaca a pedir para entrar. É uma seleções que dá a sensação de precisar de estar inspirada e, face ao seu lado temperamental, com a “cabeça no sitio” nos jogos para poder ganhar.

A Turquia também tem muitos espécies de nº10 espalhados pela segunda linha do meio-campo (Çalhanoglu-Ozyakuk, Arda Turan) mas precisa equilibrar-se melhor quando perde a bola. Pode, se for taticamente mais realista, ser uma surpresa neste Euro, onde até podemos ver quase “dois Ibrahimovics”. Estranho? Um pouco, admito que sim.

O verdadeiro, claro, na Suécia (jogando acima da equipa mas respeitando-a na qualidade de passe, em 4x4x2) e, na Áustria, num “clone” de estilo e temperamento, Arnautovic, o mesmo traço (até no pequeno rabo de cavalo na cabeça) e o talento semelhante em... muitas jogadas.