Êxito e fracasso são os maiores impostores

04 de Junho de 2016

Uma das frases que melhor traduz o futebol é de Arsénio Iglésias e está no inicio do seu livro “El futbol del Bruxo”. Diz apenas: “detesto vencedores natos!”. Terminou a nossa época 15/16 e num balanço global percebe-se como o desfecho, em várias vertentes, teve muito desse ensinamento de Iglésias.

Desde o titulo nacional de Rui vitória, após fazer o “caminho das pedras” mais de metade da época (ir perdendo derby atrás de derby), até chegar ao momento decisivo em que superou oito pontos de desvantagem (e venceu o último e decisivo derby) sobre o destino de Jesus. E, também, na Final da Taça, que repetira em 120 minutos o filme bracarense da época passada (empatar 2-2 um jogo que “tinha ganho” por 2-0) mas que, desta vez, com Paulo Fonseca no banco, mudou a última cena dos penaltys, ganhando o troféu, quando na outra história a perdera, com Sérgio Conceição. Ao mesmo tempo, mantinha-se a eterna estética da derrota (jogando melhor) que acompanha Peseiro, de clube em clube. O futebol é um lugar estranho.

E, atenção, nenhuma destas histórias tem o nível dramático da cena que levou Arsénio Iglésias a escrever aquela frase. Ele perdera uma Liga espanhola quando era treinador do Corunha no último minuto do último jogo, com o resultado em 0-0, o seu defesa-central, o sérvio Djukic, falhou um penálti que daria o título inédito de campeão ao clube galego. Nenhum romance consegue ser mais dramático do que esta realidade.

É fácil identificar vencedores e derrotados pela simples frieza dos resultados. Não digo que não sejam uma sentença válida. E que Rui Vitória ou Paulo Fonseca, cada qual no seu estilo e percurso na época, mereceram que o destino os preferisse. Mas, o jogo de ilusões do futebol é muito irónico. Eles próprioz sabem disso. Nunca encontrei, nesse sentido, melhor frase para o escrever do que a Rudyard Kipling, que não pensaria certamente em futebol quando a escreveu, mas que o traduz de forma perfeita. “O êxito e o fracasso são dois grandes impostores”.

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Nada desta analise desvanece, porém, a ideia que tive desta época: Sporting e Braga foram as equipas que, na concepção e aplicação dos seus modelos de jogo, mais vezes jogaram melhor no decorrer da época.
O Benfica foi (a partir do momento que passou a “conhecer-se a si próprio”) a mais sólida taticamente. A que nunca se deslumbrou nem deixou esgotar as variantes estratégias da sua ideia (mesmo que muitas vezes as suas camisolas vermelhas estivessem, em jogos ditos grandes, mais atrás no campo do que é historicamente normal acontecer). Só que, como diria Gasset da vida, no futebol, o treinador “é ele (as suas ideias) e as suas circunstâncias”.

Rui Vitória não entrou em zonas de conflito verbais e isso foi um dos seus maiores trunfos. Antes, aproveitou-os para os transformar em “monólogos adversários” que podia pendurar como motivação na parede do balneário, antes dos jogos para os jogadores verem, sentirem e... jogar a seguir.

Este campeonato voltou a provar também que, tacticamente, o treinador português é dos mais inteligentes do mundo. No treino e leitura de jogo. Multicultural, sem complexos de ouvir outras escolas, mas que, no fim, impõe a sua filosofia. Prova, como disse Vítor Oliveira, adaptando uma velha frase de Capello, que “o melhor treinador é o maior dos ladrões”.
Por isso, é natural que na construção da sua ideia de jogo na Luz, Rui vitória tivesse utilizado muito do que vinha das épocas passadas (o “testamento de Jesus”) e acrescentado, com o decorrer dos jogos, as suas ideias, até criar uma identidade, táctica e mental, que até podia ver a equipa começar numa estrutura semelhante, mas depois via-se, no decorrer dos jogos, mais coesa (o fim do mito “equipa partida”) entre as diversas linhas/sectores. Aqui, onde tudo se decidia, não se admitiam os “impostores de Kipling”.

Vitor Pereira

Como terá de ser o novo treinador do FC Porto?

Entre os três grandes, o caso do “banco do FC Porto” tem hoje um peso decisório muito superior ao normal na sua história. O “mundo portista” sabe que tem hoje, olhando também a correlação de forças que se alterou face ao crescer de Benfica e Sporting, de contratar um treinador que esteja ao nível do clube. O FC Porto perdeu nas últimas três épocas, mas poucos recordam que nos três anteriores títulos ganhos, apenas sofrera uma derrota em três campeonatos consecutivos. Ou seja, a exigência aumentara muito.
Esses títulos já se inseriram num novo ciclo competitivo (pós-Jesus nos grandes) que exigiu muito mais do poder do futebol do campeão. A ideia-macro que fica, é que se antes “o FC Porto fazia os treinadores ganhar”, neste novo ciclo (dos três títulos conquistados e dos três perdidos) já será necessário o “treinador que tem de fazer o FC Poro ganhar”.
Eu sei que esta generalização é injusta para vários treinadores pós-Pedroto (o “fundador”), que passaram pelo seu banco nas últimas três/quatro décadas, mas é a constatação histórica do peso da estrutura portista. O FC Porto necessita de um novo “treinador de confronto”. Alguém que, com competências táctico-metodológicas atuais, saiba também ser um profundo “estudioso do comportamento humano” e lidar com ele virando-o a seu favor. Por dentro e por fora. No relvado e no balneário.

Djucic corunha

O QUE ME FAZ (FEZ) SONHAR

O pesadelo de Djukic

Este foi o homem que, em 94, falhou o tal penalty no último minuto em Espanha. Djukic. Mais do que o falhar, sempre me impressionou (mais até) a forma como reagiu a todo o drama que isso provocou. Enquanto toda a equipa caiu por terra em desespero, ele nunca se vergou e saiu de cabeça/queixo erguido. Durante os anos que passaram, muitos colegas foram dizendo que ainda bem que aconteceu com ele. Se tivesse sido com outro jogador do onze (Bebeto recusara marcar) nunca mais teria recuperado para o resto da vida.