FABRICANTES DE ESPAÇOS: Nº10 NO “EXÍLIO TÁTICO”

29 de Julho de 2014

O jogo foi devorado substituição, loucura e genialidade, de Van Gaal (trocar de guarda-redes mesmo no fim para os penaltys) mas decompondo 90 minutos de vários jogos, se há coisa que mais cativa e empolga, é ver um jogador, quase cavaleiro solitário a tentar lutar por emergir com o seu bom futebol por entre um jogo “amarrado” e que parece, no resultado e movimentos, um “beco sem saída”. Robben é uma “locomotiva laranja” impressionante, mas o jogador que vejo sempre a tirar a cabeça “fora de água” para não se deixar afogar nesse “jogo submerso taticamente” e colocar a equipa a “navegar” é Sneijder. O futebol com cabeça na ponta das botas.
O modelo de jogo (para além da troca de sistemas) que um treinador incute na equipa é quase como o programa de computador que mete na cabeça dos jogadores. Alguns, porém, vão além, disso. É o caso Sneijder. Van Persie, por exemplo, não o consegue, a não ser num remate inspirado.

Sneijder foge das zonas mais “militarizadas”, procura locais para ter a bola e poder “ler o jogo”, faz passes teleguiados, e, com eles, de repente transforma espaços curtos repletos em clareiras para se jogar. A isso chamo “jogador-fabricante de espaços”.
Rejeito tese que condena a existência dos nº10 no futebol moderno. Eles continuam a existir. Vivem é numa espécie de “exílio táctico” dentro das equipas. E mesmo que elas e seus treinadores não se apercebam, no final, são eles que, dos locais mais improváveis (por isso nem os reconhecem) lhe resolvem os problemas ou dão o melhor do seu jogo... coletivo.

O Mundial tem vários exemplares pelos seus relvados jogando na “clandestinidade”. Não com a classe e inteligência de Sneijder, mas pegando noutros casos pelo talento, Ozil, Hazard, o próprio Óscar (mais Gotze, Valbuena...) Todos “desterrados” para uma faixa para não atrapalhar a zona de pressão central que é só para “gente grande”. Todos? Não. Um pequeno careca de olhos bem abertos recusa submeter-se e continua a lutar no meio, avançando-recuando-avançando e, de cada vez que toca na bola, mostrando a verdadeira “cara do bom futebol”: Sneijder.

O “DESERTO” BELGA

FABRICANTES DE ESPAÇOS N10 NO EXÍLIO TÁTICOÉ das coisas que mais intrigam e difíceis de explicar: os processos de transformação. Não falo de biologia nem do decorrer do tempo, mas os que sucedem de momento para o outro. Penso nisso durante o Bélgica-Argentina, vendo como o onze belga jogava a andar, soporífero, quando poucos dias antes me fizer saltar da cadeira num jogo espetacular e veloz com os EUA.

O mais incrível é que essa falta de velocidade (e a perder desde cedo) não era só coletiva (uma exibição mal conseguida). Até individualmente, os jogadores mais rápidos tornaram-se...lentos. Wilmots falou num “pequeno erro” para causa da a derrota. Foi muito mais do que isso. Até Hazard acabou substituído. Eu sei que há o clima, calor, humidade, etc. mas ver esta Bélgica sair assim do Mundial causa perturbação. Como alguém cansado que, de repente, se viu sem a sua ultima garrafa de coca-cola a caminhar pelo deserto.

Olhando para os jogos que esta Bélgica deixou, fico-me com uma das maiores revelações deste Mundial. O nº9 Origi. Só tinha dele imagem de uns “raids” no Lille. É rápido, desmarca-se, bom de cabeça, e remata. E só tem 19 anos...