«Fado e samba», O futebol e a vida

03 de Janeiro de 2008

«Fado e samba», O futebol e a vida

São mundos diferentes. Os ritmos, os espaços e o clima. De todas as paisagens sul-americanas, os jogadores brasileiros são aqueles que mais sentem a diferença entre os seus aromas tropicais e o mais sisudo universo europeu. O futebol e a vida. Em campo, até o tamanho da relva muda. Mais alta no Brasil, mais baixa na Europa. Fora dele, a picanha e o samba atenua a distância. Mas nem sempre chega. Quando, nos anos 90, Edmundo, o animal, chegou a Florença a sua primeira pergunta foi onde fica o mar? Dispostos a tudo para o agradar, os directores da Fiorentina mostraram-lhe a cidade e algumas casas no centro, carregadas de significado histórico. Não, demasiado velhas, disse, mais habituado à moderna arquitectura do seu apartamento de luxo junto à areai ardente de Copacabana.

A contratação de um jogador brasileiro envolve, pois, um risco que ultrapassa o seu valor futebolístico. É preciso relativizar todas essas diferenças que, no relvado, o impedem de repetir as mesmas coisas que fazia nos gramados. É necessário sempre um período de adaptação aos tais novos ritmos e espaços. Algo mais notório quando são cariocas. Os gaúchos, do Sul, regra geral, adaptam-se mais facilmente.

Entender um jogador, criar o seu jogar espelhando-o no colectivo, é uma missão complicada. É preciso entender a sua forma de, primeiro, pensar e viver, e, segundo, colocar-se e jogar em campo de forma a fazer mais vezes o que fazem bem e menos vezes o que fazem mal. Os brasileiros são, nesses aspectos, os casos mais difíceis. Recordo o caso de Carlos Alberto. Um brasileiro puro, no jogo e na vida. Um estilo de vida festivo com um jogador de futebol no meio. É preciso entender as duas coisas. Em 2004, foi chave no caminho ao titulo europeu. Conta-se que quando passou na torre dos clérigos afirmou deslumbrado que já me tinham dito que Sintra era muito bonita. Um estilo de vida festivo, com um jogador de futebol no meio. Depois desse ano, porém, o Feijão desapareceu e acabou por sair.

A qualidade dos pés de Liedson está provada. Os atalhos da sua cabeça continuam insondáveis. Ou não, porque, em geral, no futebol, o que parece é. A rebeldia aumenta na quadra natalícia. Férias maiores e o mercado a abrir-se. Liedson está já na sua sexta época no Sporting. É difícil imaginar a equipa sem ele. Paulo Bento também pensará o mesmo e por isso disse prescindir de extremos pois eles não combinam com a forma de jogar do “levezinho”. O jogador sente-se importante e joga com isso. Esta relação de Lieson com o entendimento do jogo é, no entanto, um dos traços que melhor distinguem os craques do “Novo Mundo” quando chegam ao “Velho Continente”.

«Fado e samba», O futebol e a vidaNão é fácil, no entanto, para qualquer treinador europeu entender e domar com muitos jogadores sul-americanos. Regra geral, são mais participativos no jogo. Ou seja, questionam mais o porquê das coisas, mesmo que seja apenas numa perspectiva de interesse individual. Isto tanto facilita o jogo como cria problemas. O jogador europeu é mais receptivo e disciplinado a acatar as ordens tácticas. Ouve e cumpre.

Dizem “Faço o que o treinador manda” como se isso fosse um exemplo de honestidade. No fundo, com essa frase, apenas fogem das suas responsabilidades. O sul-americano, mais o argentino que o brasileiro, ouve e pergunta. Claro que existem excepções, de ambos os lados, mas, no geral, isto espelha um pouco o choque de mentalidades do jogador sul-americano quando chega à Europa. Dá mais importância à liberdade do que o europeu. É um estilo que se espelha nos relvados, mas que começa na atitude fora deles. Até nas emoções que transmitem. Não imagino Cristiano Ronaldo quando ouço um samba e Ronaldo é um génio da bola. Mas pertence a outra cultura. Quando ouço tamborins e cuícas, imagino Robinho, por exemplo. É uma maneira de ser. Da mesma forma que um treinador necessita um jogador em quem confia, o jogador necessita um treinador em que acredite. Entendimento da forma de vida, em campo e fora dele.