Fátima, 2008: Sete a zero

13 de Fevereiro de 2008

Fátima, 2008 Sete a zero

O futebol português tem mil e uma imagens. O livre de Ronaldo em Manchester. A selecção Sub-16 goleada pela Espanha por 7-0. A euforia do Euro 2004 e os mesmos estádios hoje vazios. Os três grandes, os jogadores de classe média rumando ao Chipre ou Roménia e muitos clubes no caos financeiro. Mais fotografias podiam ser tiradas, mas qual destas melhor espelha o actual futebol português? Dirão que todas, cada qual no seu contexto. Não. Uma análise séria ao futebol de qualquer país só pode ser feita a partir da percepção de qual a ideia que, cruzando essas várias realidades, é transversal a todas elas. É como detectar uma identidade. Ronaldo não é o futebol português profundo. É apenas uma imagem de marca. Não personifica uma identidade. Para procurar uma identidade deve começar-se pelas bases. A passada semana foi exemplar para isso. De Fátima a Zurique.

É intrigante que a goleada (7-0) sofrida pelos Sub-16 frente à Espanha não tenha merecido reflexão pública mais profunda. Porque é nessas raízes que se começa a construir a identidade futebolística nacional. Em Portugal, o final dos anos 80 explicaram bem isso, quando Queirós e sua equipa construíram um projecto que mudou o nosso futebol. Chocou, depois, com uma parede de interesses, mas, quando saiu, ficara muitas sementes. Ficou um edifício cruzado desde as selecções jovens (que então passaram a ter uma filosofia de jogo e treino transversal, expressa nos resultados) até ao onze principal (moldado pela nova mentalidade do jogador português, feita nesse percurso desde as bases, surgindo na idade adulta sem os complexos de inferioridade do passado). Ficou uma identidade.

Tudo isto foi-se perdendo com o tempo. Destruído, mesmo. E os resultados estão à vista. As causas são múltiplas e não cabem neste artigo. Vejo jogos de equipas Sub-16 representadas na selecção triturada pela Espanha e vejo um quadro competitivo desigual onde os mesmos jogadores ganham quase sempre por goleada, sem trabalhar processos defensivos indispensáveis frente a adversários poderosos.

Vejo Scolari falar da Itália, uma selecção que joga da mesma forma (a tal identidade) há décadas, dizendo que da próxima também nós temos ser cínicos, e vejo o espelho perfeito da tal falta de ideias para construir a nossa identidade, que nunca será copiada da italiana. Será, antes, resultado de entender o nosso jogar, dos miúdos Sub-16 aos seniores. Quando Scolari sair da selecção, o que fica em termos de identidade para o futuro do nosso futebol? Para além do resultado do último jogo, não fica nada.

O problema, porém, não é de Scolari nem dos outros técnicos da federação. O problema é de uma estrutura sem a tal ideia que devia cruzar todo o futebol. A falta de identidade não é hoje um problema de treinadores, mas a solução passa por ter técnicos com responsabilidade para mais do que pensarem só no próximo jogo, pensarem nas gerações seguintes.