FC PORTO-BENFICA: Clássico dos clássicos

27 de Outubro de 2006

FC PORTO-BENFICA Clássico dos clássicos

Uma bola, um relvado, um árbitro, 22 jogadores e uma multidão em seu redor. Não faz falta mais nada. Uma das maiores vítimas do futebol actual é a memória. Não a das frias estatísticas dos resultados, mas a das emoções. O FC Porto-Benfica é, para os religiosos da bola como eu, um mundo de recordações inesquecíveis. Dou um passeio pelo baú das memórias e surgem um desfile de imagens sacudindo poeira. Aí está o inesquecível jogo de 79, o livre do Ademir, a sete minutos do fim, dando ao Porto um título que fugia há 19 anos. Lá estão, também, as subidas do lateral-direito Gabriel, os cortes do Freitas, um central que parecia ir se desmontar todo quando corria mas que no fim não deixava passar nada, a bola ou o adversário , os sprints do Seninho, os solos do Oliveira; Aí está a defesa de Bento num penalty de Gomes em 81, a autoridade de Humberto Coelho, os calções sempre limpos de Nené. Os dois golos do César Brito na chuva de 91, após jogadas encantadas de Valdo e Paneira ; Os golos do Gomes e do Jardel, as cabeçadas do Walsh, as arrancadas do Isaias, a arrogância criativa do Alves, as fintas do Chalana. Futebol, futebol e futebol. Novo e velho.

Quando as revoluções faziam sentido, o futebol era como uma fronteira de liberdade. Hoje, as revoluções são privadas, os adeptos transformaram-se em clientes e os sentimentos em sociedades anónimas. Por isso, quando chegam estes dias, dá-me vontade de fechar em casa, trancar portas e janelas, e ficar sozinho desfolhando jornais velhos e vendo, no vídeo, todas essas imagens que guardo religiosamente. E qualquer dia também ponho à entrada uma tabuleta como o pai do Maturana: “recinto de um louco feliz!”.

Jesualdo versus Fernando Santos (Ano 2006)

FC PORTO-BENFICA Clássico dos clássicosOk, arrisquemos agora por o nariz fora da porta e olhar os relvados actuais. Após sete jornadas, ainda é cedo para se fazer um juízo definitivo sobre o que valem como equipas FC Porto e Benfica. Já existem, porém, indícios suficientes para fixar alguns pontos de análise Antes do jogo de Alvalade, Jesualdo Ferreira sentiu a necessidade de repetir várias vezes que o FC Porto iria manter-se fiel ao seu sistema de referência, o 4x3x3. Com isto, estava a dizer que o de Londres não voltaria a repetir-se e que o Porto não iria alterar a sua a forma de jogar, a identidade táctica, em função do adversário. Este é o melhor ponto de partida para se construir uma equipa: dar-lhe uma identidade de jogo. Modelo, sistema e táctica. Admitir nuances estratégicas em jogos específicos, mas nunca lhe alterar a filosofia base, a tal identidade.

No Benfica, Fernando Santos queixa-se de ter ainda uma equipa que se desequilibra em campo com facilidade. O problema não é tanto como se posiciona, mas antes como se move, sobretudo na transição defensiva, isto é, quando perde a bola. Este é outro bom ponto de partida para se começar a dar bases sólidas a uma equipa. Incutir-lhe pilares de posicionamento e reacção defensiva. O pressing, volta a estar no topo do debate, mas, futebol e pressão não são, no estilo, a mesma coisa. Ganha quem tiver melhor relação com a bola e os espaços. Nenhuma noção existe sem a outra. Hoje como ontem, independentemente do ritmo. Mas, falando de memórias das Antas, uma boa forma de terminar o artigo é recordar Oliveira, insolente poeta da bola azul e branco dos anos 70. Uma tarde, mesmo após ter feito um golo fabuloso, Pedroto não hesitou em o substituir pouco depois por, consta, não ter respeitado uma ordem sua.

Enquanto abandonava o campo, na berma do relvado, um repórter de pista correu ofegante a perguntar-lhe como tinha sido aquele golo. Altivo, o nº10, respondeu sem pestanejar: “Quem viu, viu. Quem não viu… não volta a ver!”. Eu vi. E a memória garante-lhe eternidade, porque, como alguém disse um dia: “um jogo de futebol não dura só 90 minutos. Dura 90 minutos mais a vida toda de quem o viu!”

EXISTE OU NÃO UM QUARTO CANDIDATO? O Sp.Braga de Carvalhal

FC PORTO-BENFICA Clássico dos clássicosPelo valor do plantel, o Sp.Baraga é, indiscutivelmente, a única equipa com aspirações legítimas a intrometer-se ente os grandes no topo da classificação. A sua produção de jogo, qualidade e quantidade, ainda estão longe, no entanto, do ideal. O problema, em termos tácticos, reside, essencialmente, na dificuldade do meio campo manejar as diferentes velocidades do jogo. Como Carvalhal privilegia uma transição rápida com distância entre linhas, pois defende num bloco médio-baixo, o jogar da equipa ressente-se muito da falta de velocidade estrutural do meio campo na saída para o ataque (transição ofensiva). Madrid é a âncora da equipa, mas, sem Vandinho, não existe outro jogador capaz de acelerar o jogo. R.Chaves e Frechaut são estruturalmente lentos. Hugo Leal é médio de segunda linha e joga sobretudo em passe longo. João Pinto, pelo contrário, é de passe curto, e na encruzilhada nas trocas posicionais centro-direita, ainda não encontrou a mecanização certa de movimentos.

Esta falta de velocidade na transição ofensiva de contra-ataque sentiu-se muito no jogo da Naval, onde, depois de ter feito o mais difícil, o golo e ficar em vantagem, forçando a Naval a jogar num bloco mais subido, nunca conseguiu activar o contra-ataque acabando por ser sufocado pela pressão do adversário. É por isso que a recuperação de Vandinho é fundamental para equilibrar as ligações entre-linhas do onze.

Se resgatar esses elos de ligação pode assumir-se como o quarto candidato.

JAIME PACHECO NO BOAVISTA: O eterno regresso (Parte III)

FC PORTO-BENFICA Clássico dos clássicosComo gosto de personagens genuínas, tenho de gostar do Jaime Pacheco.

Nunca escolhe os caminhos mais fáceis. Para o bem e para o mal. Esta semana, não resistiu, e regressou, pela terceira vez, ao banco do Boavista. Já agora, voltando ao início desta página, é uma das personagens para quem a memória faz sentido. Mais do que tácticas e transições, para ele quase ciência oculta esmagada por essa coisa simples que é o instinto do jogador, o que mais o faz entusiasmar é a recordação dos tempos em que ainda tinha cabelo. Foi campeão pelo Boavista, um feito no futebol português só comparável, em termos de história universal, com a ida do homem à lua, mas onde o seu olhar brilha mais é quando recorda os tempos do seu Aliados Lordelo que, em finais dos anos 70, quase chegou à I Divisão. Desfila essa equipa de um a onze com o entusiasmo de pátio de escola e acabamos, já depois das duas da manhã, com um prego e uma cerveja como testemunhas, a discutir se o Marques, um médio que também jogava nessa equipa, tinha ou não jogado pelo Salgueiros a Liguilha de 81! Perante amigos comuns que nos olhavam como se fossemos dois aliens, eu dizia que sim, o Jaime duvidava. Isto chama-se viver e respirar futebol. Aquele onde cabem as memórias e fazem sorrir o Jaime. Esqueçam, pois, essa questão de escolas.

O futebol é um ecossistema onde cabem todos, mas, com lugar de destaque, só os que tem memória. Como o Jaime, claro. E, agora, o terceiro desafio no Bessa. Cá estaremos para falar do seu 4x3x3 com pressing alto, das transições rápidas e da profundidade pelas faixas. Ou será que se chamam outra coisa?