FIGO, BOLA DE OURO 2000

17 de Dezembro de 2000

FIGO, BOLA DE OURO 2000

Eusébio e Figo, o futebol português com o mundo a seus pés. Do preto e branco dos anos 60 á atmosfera lunática do fim de século. Desde os tempos em que os ventos colonialistas equiparam com as quinas ao peito, um menino pobre filho do Moçambique de outrora, que, na alvorada dos anos 50, passara dias e fins de tarde, a correr descalço atrás de uma bola de trapos, sob a sombra tutelar de uma velha palmeira vergada, até aos tempos recentes decorados por olés de loucura e paixão, gritada e sentida nas canchas hispânicas, da temperamental Catalunha á altiva e nobre Castela, feudo de amores eternos, subitamente transformados em ódio, nas fogueiras acesas pelo indomável espirito da religiosa afición hispânica. No entretanto, ficaram as gincanas e zigzags estonteantes de uma serpente do Montijo que cedo zarpou para Madrid, depois de deslumbrar a Europa com o símbolo do Dragão: Paulo Futre. Não atingiu o Olimpo da Bola de Ouro, mas, genial, despertou, nos anos 80, o ego da alma lusa, adormecido desde a épica saga dos Magriços na Velha Albion.

A vitória de Figo no ano 2000, superando o francês, Zidane, para muitos, o Rei da década, recoloca o futebol português na senda do Olimpo futebolistico. Desde o tempo em que começou a correr trás da bola no Pastilhas, popular clube de bairro, até ao milionário presente em que seduz o mundo, passando pelos tempos de sonho nas selecções jovens do Professor Queirós, muito futebol correu nos relvados. Em todos os momentos, uma certeza, se o futebol é uma arte, Figo é um dos seus maiores artistas de sempre. Um dia diremos que ele esteve para o futebol, como Mozart esteve para a música ou como Van Gogh esteve para a pintura.

EUSÉBIO, REI DOS ANOS 60

FIGO, BOLA DE OURO 2000 Graham Greene, escritor inglês que atravessou o século, profundo conhecedor dos mistérios de África, escreveu em The Heart of the Matter: Cuidado, este não é um lugar para emoções. Para os amantes do futebol, no entanto, África continua a ser um território onde nasceram muitas emoções. Para os portugueses, a maior de todas, Eusébio, a pantera negra. Chegado a Portugal no inicio dos anos 60, explodiu muito cedo nos relvados lusos. “É ouro, Caiado!, É ouro!”, repetiu Bella Gutman para o seu fiel adjunto quando o viu treinar pela primeira vez no relvado da luz, entre glórias como José Águas e Coluna. A mesma sensação teria, poucos anos depois, em 1962, no clima histórico de Amesterdão, todo o Velho Continente, quando o perfume africano de Eusébio venceu o aroma hispano-argentino da Saeta Rúbia, Di Stefano. Nesse ano, a Bola de Ouro, seria atribuída ao pequeno fantasista checo Masopust, mas o outrora menino tímido de Lourenço Marques, já conquistara a Europa, abraçando a Bola de Prata.

Ironicamente, a consagração dourada de Eusébio surgiria no ano em que o seu Benfica perdera na Final da Taça dos Campeões. Foi em 1965, quando um fraco remate de Jaír furou por entre as pernas de Costa Pereira e, no dilúvio do S. Siro, deu a Taça ao Inter de Facchetti e Suarez, segundo e terceiro classificado na edição da Bola de Ouro desse ano. O mesmo paradoxo não surgiria em 1966, ano do Mundial de Inglaterra e da consagração planetária de Eusébio, quando o eleito foi o inglês Bobby Charlton. Eusébio ficou em segundo, perdeu por um escasso e torturoso ponto. Na memória ficou a estranha votação do jornalista português, dando a vitória ao nobre inglês, ao invés de eleger a nossa pantera.

Caso contrário, Eusébio, que nunca entenderia essa decisão, seria hoje, muito justamente, dono de duas Bolas de Ouro. Depois disso, com a idade a avançar, nunca mais voltaria a ocupar o pódio europeu.

1987: FUTRE E GULLIT, A SERPENTE E O ARANHA-CEÚS

FIGO, BOLA DE OURO 2000 Em 1987, depois da travessia do deserto dos anos 70, o futebol português voltava a reinar na Europa, através do fabuloso FC Porto de Artur Jorge, no culminar de um projecto herdado do Mestre Pedroto. Em Viena, no cenário mágico das mil e uma noites, dois dragões deram corpo ao maior feito da história azul e branca: Madjer e Futre. Num ano em que a Bola de Ouro permanecia aberta apenas a futebolistas europeus, o profeta do Magreb teve que limitar-se a vencer a outra versão do trofeu, a Bola de Ouro Africana, reservada a jogadores do continente negro. No cenário europeu, Futre, apesar do seu talento explosivo, não conseguiria driblar o arranha céus holandês, Rudd Gullit. Na tabela final, a serpente do Montijo ficaria em segundo lugar, com 91 pontos, atrás do gigante holandês, com 105. Foi uma decisão pouco pacífica. Nesse ano, Futre, com 21 anos, conquistara a Taça dos Campeões, enquanto que Gullit, com 26, limitara-se a vencer a Liga Holandesa, com o PSV. No defeso, ambos tinham protagonizado duas célebres transferências: Futre para o At.

Madrid e Gullit para o Milan, Personalizado, o holandês dedicou a Bola de Ouro a Nelson Mandela, então preso, há mais de duas décadas, nas sul africanas celas do apartheid. Ao mesmo tempo, pensava-se que outras oportunidades surgiriam para o então jovem Paulo Futre, numa época em que ainda estava presente a forma como Jesus Gil irrompera pelo estágio do FC Porto em Milão, onde se encontrava a disputar o Mundialito, para contratar a estrela portuguesa que o faria ganhar as eleições no clube colchonero. Nessa altura, confessa que se visse Futre na rua, não o conhecia. Conta então que quando estava no hotel a falar com os dirigentes portistas, sentiu alguém a seu lado, olhou para o chão e viu escrito nas sapatilhas o nome Futre. Foi então que levantou a cabeça e disse: “Mira, este és Futre!”. O mundo de problemas em que, no entanto, se tornaria o At. Madrid de Gil, aliada á ausência da selecção portuguesa dos grandes torneios internacionais, impediriam que voltasse a ombrear com esta elite dourada.