A arte da mentira

08 de Março de 2008

A inteligência, a arte do engano, continua, a ser o grande trunfo no futebol. Um grande jogador é aquele que em cada jogada pensa em pelo menos quatro ou cinco ideias sobre o que fazer à bola. Ela vem a caminho e ele já idealiza várias soluções a dar-lhe. São raros os jogadores com esse nível de inteligência. Um dos problemas do futebol actual é muitas jogadas serem anunciadas antes. Ou seja, os jogadores fazem o que ameaçam e essa denúncia leva ao aumento das bolas divididas. Sucede em qualquer posição em campo. É uma questão complexa, mas, por vezes, a transformação táctica de um jogador pode ser uma das formas de descobrir o melhor local onde ele pode enganar o adversário. O belga Kompany destacou-se, no Anderlecht desde miúdo como um defesa-central elegante. Via-se que tinha categoria mas parecia preso naquele espaço limitado que, por natureza, um defesa tem. Hoje, reaparece como médio-defensivo do Hamburgo. Mais do que um mero trinco, solta-se desse espaço e, em passada larga, ganha metros na condução da bola, disputando lances em zonas adiantadas. Aumentou de intensidade competitiva. No fundo, Kompany lia mais espaços ao mesmo tempo do que os que, da sua posição de central, lhe eram permitidos vislumbrar. Um avançado também pode pensar assim. É quase como uma vocação de berço que distingue os mais móveis dos que jogam mais fixos na área.

O argentino Fórlan, hoje no At.Madrid, confessa adorar mover-se sem bola, explorando os espaços. Vem de uma escola, a sul-americana, que trabalha muito tacticamente as duplas de avançados. Mais do que a europeia, como basta ver pelas equipas argentinas ou brasileiras. Todos os avançados sul-americanos geralmente sabem jogar sem bola. Para entender a capacidade que um jogador tem de mentir com a bola nos pés, uma boa forma é atentar na sua posição do corpo. Esqueçam o olhar. É a agilidade corporal que dá pistas sobre o que estará a pensar fazer. Mas, claro, há os grandes craques que dão tantas pistas ao mesmo tempo que é impossível descobrir o que vão fazer. Van Basten era o máximo dessa arte de enganar como ponta-de-lança. Sempre que se isolava frente ao guarda-redes, colocava o corpo de lado. Ficava quase de perfil. Assim tinha duas opções perfeitamente controladas. Ou rematava colocado, com a parte de fora do pé, para um lado fora do alcance do guarda-redes, ou simulava e fintava para o outro lado. O bom futebol tem caminhos próprios. Como dizia Guardiola, “eu no inicio jogava porque jogava e acreditava que as coisas aconteciam porque sim. Só me senti jogador quando me fizeram entender que sucediam porque há uma certa lógica. Isto é, educaram-me para decifrar o jogo”. A inteligência do engano com bola.

Inter-Roma, as ironias de Totti

A arte da mentiraInter-Roma. Primeiro e segundo frente a frente. A distância era grande (9 pontos) mas para a Roma de Spalletti era o jogo perfeito. Não é favorito mas sabe que tem uma arma poderosa e irónica consigo: tem o projecto exibicional mais atraente do Calcio. É a equipa que mais tenta ganhar jogando bem. O inicio do jogo confirmou a ideia mas com amarras táctica. Ambas as equipas tentam encher o meio campo com cinco homens. Mas um jogador brincava com tudo isto quando recebia a bola: Totti. Só com um problema grave. Pensa o jogo muito à frente dos outros jogadores em campo. Há um passe dele logo aos dez minutos que de tão inteligente, feito nas barbas dos sete defesas do Inter, o seu colega (Perrota) que ficava isolado nem o entendeu e a bola perdeu-se pela linha do fundo. Mesmo assim, a Roma foi mantendo a superioridade, no jogo e no placard. Tudo mudaria quando passou a jogar em superioridade numérica. Perdeu os requisitos com que iniciou o jogo e tentou especular atrás da linha da bola. Quis ser outra equipa e foi-se perdendo em campo. Perto do fim, sofreu o golo do empate. Tudo tão natural que só dava vontade de pegar no comando da televisão e premir o botão “off” como quem prime um gatilho de um revolver.

Cantona descodifica Ferguson

A arte da mentira- O que significa este clube para si? (silêncio) “Tudo. Estará no meu coração até ao último dos meus dias”. - Sente então a falta dos grandes jogos com a sua camisola? –“Não!” (resposta pronta). Ouvir uma entrevista com Cantona é entrar noutra dimensão do futebol. Falava do Manchester e das razões que o levaram a deixar o futebol tão novo, ainda no auge. Aos 31 anos. “Perdi a paixão!”. No fundo gostava de ser como Ferguson. 20 anos depois continua com o mesmo olhar ansioso, continua a festejar os golos como o entusiasmo de sempre. “Há os que escrevem um bom livro e chega. Há os que escrevem três ou quatro bons livros, mas param muito tempo entre eles. E há os que nunca param de escrever. Sempre com qualidade, com paixão”. Esse é Ferguson. O domador de Cantona. Pensem nisso quando o virem festejar, aos 66 anos como um miúdo na bancada, o próximo golo do Manchester United.