A arte da posse de bola

13 de Maio de 2005

A posse de bola, por si só, tal como a técnica, não existe no vazio. Necessita de um critério, de um modelo ou de um circuito preferencial de jogo que a emoldure. Um sistema e uma táctica que a tornem na base de uma filosofia onde nenhum jogador tenha receio em a pedir, ao ponto de, na sua mente, enquanto ela vem no seu caminho, pré-conceber antecipadamente o passe seguinte que irá executar e, numa perspectiva mais ampla, o desenvolvimento subsequente de toda a jogada. Tudo isto nasce da combinação da táctica e da técnica, individual ou posta ao seu serviço do colectivo. Tendo o meio campo como zona cerebral do terreno onde a equipa se move, os médio devem saber quando jogar a um-dois toques ou quando segurar a bola. Mais do que ter muito tempo a bola em seu poder, devem antes tocar na bola muitas vezes.

Isto dá critério á posse da bola e faz com que ela deixe ser um mero dado estatístico inócuo, sem espelho no resultado, e se torne no instrumento base para controlar o ritmo de jogo, sem que este pareça quase andebol como sucede em muitas equipas do presente. Depois, na zona criação, devem emergir os tais passes camuflados, ultimo estádio da posse da bola que dá sentido a tudo que está para trás. Dizia Parreira há uns anos que estava a trabalhar uma forma de colocar a sue Brasil a jogar em 4x6x0. Esse seria o futebol do futuro. A base desta tese reside no estilo-harmónio do meio campo, onde todos defende e atacam, fundindo os dos movimentos que terão de ter uma coordenação perfeita.

A arte da posse de bolaÉ um ideia com substância. O futebol de hoje em dia é um futebol compacto. O objectivo é criar espaços a atacar e reduzir a defender. O pressing recuperador deve ter implícita a noção de construção e começar nos homens mais adiantados. Num esquema normal nos avançados, no ensaio de Parreira, no «6» que se planta á frente da defesa e faz todo o resto do terreno. Revendo a história, não é difícil ver onde Parreira foi beber estar ideia que, em 1970, teve a oportunidade de ver em prática de forma muito aproximada. Nessa altura ele era preparador físico da mítica selecção brasileira orientada por Zagalo. Uma mítica equipa de ataque mas que, vendo bem, só tinha um avançado: Tostão! Todos os outros magos, partiam ou recuavam para a zona intermediária: Rivelino, Clodoaldo, Gerson, Jairzinho e...Pelé! Necessitamos, pois, de um paradoxal regresso ao futuro!