A bola ou os espaços?

27 de Fevereiro de 2015

Há treinadores que quando a equipa perde a bola que gritam para pressionar! E há outros que, nesse momento, gritam para organizar! As ideias movem-se. Existe a ideia da superioridade moral da pressão alta como filosofia duma equipa. Em tese, também gosto mais de ver uma equipa com esse principio mas tal não é um imperativo para pressionar bem. Também é possível fazê-lo em linhas mais recuadas, pressão média-baixa. O segredo está na equipa saber até onde pode ir (na ideia e posicionamento em campo) e adaptar essa filosofia a cada jogo.

O fundamental é nunca perder a organização. Se para isso tem de baixar linhas, não existe nenhum drama tático por isso. Pelo contrário. O passo seguinte fundamental é a segurança do passe de transição. Esse é que não pode falhar. Porque é o que lhe vai permitir, após interceptar o ataque adversário, lançar o seu momento ofensivo, em geral num ataque rápido ou contra-ataque que apanhe as costas do adversário.

O Mónaco de Jardim é a cara dessa forma de jogar. Como sempre foram as suas equipas (cada qual com a sua dimensão e interpretes). Personificam, numa dimensão de exigência máxima, a beleza estratégica da táctica. Em rigor, demonstram o que é uma boa “equipa de treinador”. Aquela que, vendo-a jogar, sentimos que tem aquele valor e qualidade sobretudo pelas ideias com que joga e não tanto pelos jogadores que tem.

Contra o Arsenal, esteve sempre organizado e tranquilamente sereno mesmo baixando linhas (vendo dançar à sua frente Giroud, Alexis, Ozil, Welbeck, Cazorla...) mas conseguindo, com isso, retirar profundidade ao ataque inglês para, depois, recuperada a bola, fazer a transição de passe seguro (sem Toulalan, muito bem o duplo-pivot improvisado Fabinho-Kondogbia) par, então serem eles a ganhar profundidade nas costas da defesa subida (e lenta) do onze de Wenger.
Nesse esticar de jogo, notável Martial sobre a esquerda (ele que é destro e de vocação nº9) enquanto na direita Dirar fez um grande jogo sobretudo a...defender (isto é a ajudar a fechar).

A pressão é, pois, algo que vive em função dos chamados “encurtamentos”. Isto é, à medida que o avançado progride, o bloco do Mónaco espera e, cirurgicamente, sai para... encurtar o espaço de execução ao portador da bola adversário, obrigando-o a lateralizar. Nesse momento, o bloco reage mas em... organização, basculando sem se partir de um lado para o outro.

A noção de pressão vive mais de forma individualizada nas características dos jogadores. Ou melhor, de um jogador que gere esse momento de forma notável táctica-fisicamente, no sentido do timing e gestão de esforço: Moutinho, claro (ao ponto, de no inicio da reorganização defensiva a equipa quase desenhar um 4x4x2 com Moutinho numa linha subida de pressão, mais perto de Berbatov do que dos pivots).
Tudo isto é táctica. Tudo isto são bons jogadores a perceberem as ideias.

A PRESSÃO DO LEVERKUSEN

A equipa que, nestes oitavos da Champions mais me impressionou pela forma como pressionou, alto e bem, foi o B. Leverkussen. Não por ter tido essa opção (tem sido princípio do modelo do técnico Roger Schmidt) mas pela eficácia e superioridade com que o fez contra o At. Madrid que raramente perde um jogo no plano da intensidade do meio-campo. O Bayer conseguiu-o mesmo com um onze, no papel, desenquadrado dessa missão, com o duplo-pivot defensivo de pressão Castro-Bender (em vez de Reinartz-Rolfes, que entrou ao minuto 67, para o lugar de Bender). Com esta pressão, o trio Son-Calhanoglu-Bellarabi tem mais oxigénio para cair em cima dos adversários confundidos por não recuperar a bola como costumam fazer. Tinham perdido o controlo do ritmo de jogo.

Este Bayer de Schmidt não é, no entanto, uma equipa para esperar pelo contra-ataque. Por isso, no jogo da segunda não, as bases táticas serão lançadas de forma semelhante. O desafio é fazer esta pressão e controlo de ritmos em Madrid.