A construção táctica

15 de Fevereiro de 2006

A construção táctica

Cada equipa deve ter uma ideia de «jogar» pré-estabelecida. Ela é propriedade do treinador. Cada um tem a sua, indissociável e una. É por esta, e só quando lhe dão condições para a por em prática, que deve ser analisado e julgado o seu trabalho. Digamos, que, de forma mais ou menos vincada, cada treinador tem o seu futebol de autor. Depois, definida a filosofia, é tudo uma questão de comportamentos. Criar hábitos comuns susceptíveis de aplicar os princípios de jogo defendidos pelo treinador. Fábio Capello disse um dia que o melhor treinador era o “maior dos ladrões”. No fundo, referia-se àquele que, ao longo da vida, conseguisse juntar o maior número de ensinamentos retirados de outros treinadores ou ideias de futebol apreendidas ao longo dos anos, e, depois, formasse com eles o seu conceito de futebol (jogar e treinar). Para o colocar em prática é fundamental, por um lado, ter jogadores capazes de o interpretar, e por outro, criar uma ideia de jogo comum a todos. Isto é, os movimentos tácticos individuais devem ter sempre presente uma ideia de movimentação colectiva. Quando essa sintonia não existe, os princípios de jogo não saem do papel. É em função destes aspectos, sua efectivação ou não, que se pode falar na tal questão da equipa estar ou não estar em forma.

Neste contexto, o treinar e jogar em sistemas de três defesas é claramente o mais difícil. O mais evoluído, mas também o mais arriscado. É por isso que científicos como Mourinho e Capello o elogiam tanto, mas nunca o aplicam, a não ser em situações de último recurso para tentar virar um resultado. A equipa pode estar educada para entender todos os princípios dinâmicos das diferentes variantes do sistema, mas colocá-los em prática só está ao alcance de jogadores fora-de-série, sobretudo com uma dinâmica tipicamente ofensiva (como o 3x4x3 holandês, com a linha de «3» formada por dois laterais ao lado de um central), muito diferente, por exemplo, do 3x4x3 de Goethals (com a linha de «3» formada por um trio de centrais). No fundo, jogadores com diferentes características sentem a mesma missão de forma diferente. Com menos elementos no sector, a largura da linha defensiva cresce e os seus integrantes são obrigados a uma constante basculação muito maior. Isso exige velocidade, precisão e grande sentido táctico-posicional, ligada a uma rápida leitura de jogo e consequente reacção ao mesmo, para fazer o fora-de-jogo, apoiado por uma primeira linha do meio campo sempre a pressionar alto.