A CULTURA DO FUTEBOL ARTE

15 de Março de 2000

Corria o ano de 1987, quando o jornal “Líberátion” colocou frente a frente, em diálogo, dois supremos artistas gauleses de diferentes galáxias: Michel Platini e Marguerite Duras. Futebol e literatura. O músculo e o intelecto. - “Nós somos um pouco o único assunto francês que se fala, de resto, fala-se dos perfumes...”, dizia o futebolista. - “E da literatura...”, corrige a dama escriba. - “Sim mas se falar com os meninos pobres da Malásia ou da América latina eles não falam de livros. Infelizmente...”, responde Platini. - “Eu sou traduzida em 30 países. Ora, isso é mais do que a Europa e a América”, corrige Duras. - “Sim, mas se for ás favelas do Rio não penso que a literatura seja muito importante.

Pelo contrário, o futebol é a única forma deles expressarem a sua arte e cultura.”, sentencia o Astérix da bola. Embora parecendo presos em dois diferentes mundos, Duras e Platini são personagens do mesmo habitat. O Planeta da arte. No momento em que se encontraram, a saga do antes anónimo jogador belga, Jean Marque Bosman, então condenado a uma carreira discreta em clubes francófonos de segundo plano, ainda era algo de impensável. Eric Cantona, outra personagem mor de um universo criativo que clama por uma bola para se expressar, disse um dia que “O futebol é uma arte, uma forma de expressão cultural onde os gestos são da mesma forma nobres e admiráveis como os de um bailarino. Um dia diremos que Maradona esteve para o futebol como Rimbaud esteve para a poesia, ou como Mozart esteve para a música”.

Confuso, nos últimos tempos, o futebol mudou-se dos relvados para os centros financeiros e acabou aprisionado por três “monstros” insensíveis á sua génese: as leis, a economia e a televisão.
No primeiro ponto, a face mais visível da mudança chegou através da polémica Lei-Bosman, datada de 1995, que aplicou ao futebol, sem restrições, o artº48 do Tratado de Roma sobre livre circulação de trabalhadores de um estado membro para o espaço de outro ou de outros estados membros, vedando-se, conforme dispõe o artº7, qualquer discriminação em razão da nacionalidade. Juridicamente frios, os Juízes do Luxemburgo não ficaram sensíveis á especificidade do futebol. Apanhada, num primeiro momento de surpresa, a UEFA, após uma ténue resistência acabou claudicando. Dominada pelo “lobby” alemão e pressionada por uma elite de grandes clubes europeus –hoje grandes empresas que se gerem por fim lucrativos e de conquista de mercados- deixou de se preocupar com os efeitos da Lei Bosman sobre a demografia futebolística, responsável por uma profunda alteração cultural motivada por um constante trânsito de jogadores que afectou a identidade dos clubes e adulterou os estilos de futebol típicos de cada nação.

Meia década depois os efeitos na geografia do futebol são demolidores e a UEFA acordou finalmente para uma realidade assustadora onde se passeiam, entre outros, os casos do Corunha que lidera a Liga Espanhola alinhando apenas um jogador espanhol e o Chelsea, quase sempre apresentando, de inicio, onze jogadores não-britânicos e que poderá ser a primeira “equipa estrangeira” a ganha a Liga Inglesa. Perante esta situação, que ameaça continuar, será possível comparar os diferentes estilos de futebol? Algumas diferenças irão, certamente, continuar a detectar-se mas dificilmente se poderá voltar a falar numa identidade própria, num estilo de jogo típico, na expressão de uma “cultura futebolística”. Durante a disputa jurídica e nos anos consequentes ninguém se preocupou eficaz e seriamente em demonstrar que o futebol representa, sem sombra de dúvidas, uma expressão cultural dos países, espelho das suas características físicas, sensibilidades, idiossincrasias e morfologia. O confronto de estilos que era o grande aliciante das competições europeias é hoje uma quase visão romântica do passado.

Em toda a Europa do futebol, o principal termo de comparação passou a ser o financeiro. A Liga dos Campeões é um sucesso de milhões a que falta a verdadeira essência das competições europeias: o confronto e a dimensão cultural de cada estilo de futebol. Quando os tecnocratas de Bruxelas entenderem, como tentam muitas sensibilidades europeias, entre as quais emerge há muito, na linha da frente, a do italiano Walter Veltroni, que desde o tempo em que assumiu a tutela do desporto no governo transalpino, vêm alertando para a particularidade do futebol e para a necessidade de o equiparar a uma actividade cultural, como a música ou a pintura, atribuindo-lhe, desta forma, a mesma protecção prevista no artº128 do Tratado, onde se dispõe que a Comunidade deve respeitar a diversidade nacional e regional das culturas dos Estados membros, visando-se, assim, com a criação de competências comunitárias de extensão limitada, impedir a destruição dos traços que distinguem uma cultura da outra, o futebol ocupará o seu lugar e resgatará o sentido histórico que lhe pertence. Como é jogado por artistas é arte e, nessa perspectiva, deve-se proteger as diferentes características artísticas de cada país.

A UNIÃO EUROPEIA DA BOLA: DA LIBERAL HOLANDA Á SELECÇÃO INGLESA

Inicialmente recebida com agrado pelos jogadores, a Lei-Bosman transformou-se para eles num verdadeiro “boomerang” e hoje, com a anarquia que reina no mercado, apenas serve a uma pequena elite. Em Espanha, perante a invasão estrangeira, coincidente com o título mundial sub-20 na sequência de uma campanha de ouro das selecções jovens, os jogadores, através da AFE, a sua associação profissional, acordaram para a realidade e, em conjunto com a Federação e o Conselho Superior de Desporto, pressionaram a redução do limite de quatro para três não comunitários na Primeira divisão, com um máximo de seis contratados, e de apenas um, e não dois, na Segunda. Em Itália, na Serie A, são permitidos alinhar três estrangeiros não comunitários por equipa, sendo admitida a contratação de cinco. Na Série B são permitidos dois estrangeiros, com a imposição de um deles ser Sub-20. Em França, onde os jogadores tem o estatuto jurídico de podem jogar quatro não comunitários, mas um deles só no caso que leve mais de três anos no futebol francês. Não existe, porém, limite de contratações, mas os planteis não podem, em principio, exceder os 23 elementos com vínculo contratual profissional, não contando com os primeiros contratos celebrados com os jogadores saídos dos centros de formação.

Assim, se os clubes quiserem aumentar o seu plantel terão, obrigatoriamente, de investir na formação de jogadores. Na Segunda divisão apenas são permitidos dois estrangeiros por equipa. Na Alemanha a regulamentação é feita ao contrário. Isto é, na Bundesliga, impõe-se um número mínimo de jogadores alemães por cada equipa que, desta forma, deve pelo menos inscrever doze jogadores germânicos no seu plantel, não havendo, no entanto, depois, qualquer limite para a utilização de jogadores estrangeiros de origem europeia, comunitários ou não. De fora do “Velho continente” apenas se admitem três por equipa. Igual disposição vigora para a 2ªBundesliga.

AS FRONTEIRAS DO FUTEBOL PARA ALÉM DA LEI-BOSMAN

A CULTURA DO FUTEBOL ARTEA “Torre de Babel” em que se tranformou o futebol dos tempos modernos não é, no entanto, um problema exclusivo da UEFA, regente do panorama europeu. A facilidade com que os jogadores adquirem hoje outra nacionalidade é também um problema que preocupa a FIFA e todo o futebol mundial. Na história do futebol este não é, no entanto, um problema novo. Recuando no tempo até aos nos 50, onde se dizia estar o futebol liberto das regras do mercado, fica o estranho registo da possibilidade de o mesmo jogador poder alinhar por duas selecções diferentes, dependendo do local onde se encontrar a jogar. Foram, por exemplo, os casos dos magiares Puskas e Kubala, que jogaram pela selecção espanhola e do uruguaio Schiaffino que depois da selecção “charrua” actuou pela nacional italiana. Depois de várias décadas de estabilidade geográfica, as fronteiras do futebol voltaram, perto do final do século, a sofrer profunda mutação dando origem a novas situações pouco claras.

Até perto do inicio do Mundial-98, o único jogador jamaicano internacionalmente famoso era o antigo maestro do Liverpool, John Barnes. Apesar de ter nascido em Kingston, capital da Jamaica, fez carreira como internacional pela selecção inglesa. Com a possibilidade de jogar um Mundial, muitos jogadores, menos credenciados, a alinhar desde sempre na Inglaterra, a maioria deles da segunda geração de imigrantes das Caraíbas, descobriram subitamente as suas raízes jamaicanas. Foi o caso do central Sinclair, então no Chelsea, hoje no West Ham. O caso do jogador do Everton, Danny Cadamarteri era porém o mais intrigante. Com apenas 18 anos ele podia alinhar por cinco selecções diferentes! A Inglaterra, onde há 18 anos nascera em Bedford, a Jamaica, país de onde era natural o seu pai, e a Irlanda do Norte ou a Itália, terra natal dos seus avós. Convocado pela “Albion” sub-20, resolveu optar pela equipa de Sua Majestade. Mas no fundo, como confessou Sinclar na hora da decisão, a escolha é feita tendo sobretudo em conta a selecção onde terão mais hipóteses de alinhar. Foram, aliás, esses os casos do argentino Pizzi e do brasileiro Donato, que só aceitaram jogar na selecção espanhola de Clemente por manifestamente lhes ser quase impossível jogar nas nacionais “alvicelestes” e “canarinhas”, respectivamente.

Na Holanda a liberdade de circulação é total. Na Primeira divisão, como na Segunda, não existe qualquer tipo de restrição ao jogadores estrangeiros, comunitários ou não. Apenas se exige uma autorização de trabalho normal. Na paradigmática Inglaterra vigora, desde há muito, um sistema que, por vezes, tem causado alguma polémica. No futebol da “Velha Albion” os estrangeiros têm “controlo de qualidade”. Para serem admitidos têm de previamente obter um “work permit”, permissão de trabalho, passado pela FA que para os aceitar analisa o seu “curriculum”, apenas os admitindo imediatamente se tiverem jogado pelo menos 75% dos jogos da sua selecção nas duas épocas anteriores. Caso contrário só em circunstâncias especiais é que será admitida a sua inscrição. Depois de cumprida esta formalidade não há limite na “Premier League”, mas na “Division One” apenas se admitem três por equipa. A proposta de Joseph Blatter, alicerçada na obrigatoriedade de todas as equipas alinharem com seis jogadores nacionais, mais, eventualmente, cinco estrangeiros, é, em última análise, uma solução estratégica baseada no sistema alemão. Desta forma, pode-se defender que não se está a limitar a livre circulação de trabalhadores discriminando-os em razão da nacionalidade, apenas se impondo um limite mínimo de nacionais. Dificilmente, porém, a União Europeia aceitará esta norma, que, mesmo de forma subtil, contraria os princípios do Acordão Bosman.

A única forma de a ultrapassar é colocando o futebol no mesmo plano da cultura ou através da alteração do Tratado introduzindo-se, como defende a FIFA em conjunto com a UEFA, um protocolo sobre desporto de forma a que, como se lê na proposta por elas apresentado, a comunidade europeia passe a ter em conta o carácter nacional das estruturas desportivas, bem como as suas tradições históricas. No entanto, para os que sentem os gestos técnicos de um futebolista como uma obra de arte que varia de país para país, o ideal seria equiparar o futebol à cultura e colocar o simbólico Michel Platini no mesmo plano de Margerite Duras, que no âmbito da união europeia tem um tratamento diferenciado, á margem do vigente para a restante legislação laboral.

Quando em 1998, a França foi campeã mundial, reunindo genes futebolísticos de vários continentes, muitos glorificaram essa conquista multiracial, mas na memória de muitos que assistiram aos jogos da selecção francesa, estavam as palavras de Karembu, poucos meses antes, quando lembrou orgulhoso o facto de ter nascido na Nova Caledónia, antigo território gaulês: «Nunca me senti verdadeiramente francês. Não sinto nada quando ouço a “marselhesa”. Só alinho pela selecção da França para poder jogar ao mais alto nível e mostrar ao mundo a causa do povo do meu país». Há dois anos, ao chegar a Florença, Edmundo ficou espantado quando pelas primeira vez contactou com o outro brasileiro da equipa e reparou que ele mal sabia falar português. A razão residia, porém, no facto de Oliveira ter vivido muitos anos na Bélgica, onde fez toda a sua formação futebolística, selecção pela qual é internacional. O seu futebol, apesar de moldado pela escola europeia, ainda conserva porém os traços técnicos e virtuosos típicos do futebol sul americano.

A sua inclusão na nacional belga é, face ao seu passado, perfeitamente aceitável, pois foi nesse pais que efectuou todo o seu processo de formação. O critério base seria, assim, o do local da formação As últimas duas décadas do século, dominadas pelo panorama audiovisual, universalizaram definitivamente o futebol, mas, apesar de todas as fronteiras, geográficas ou de comunicação, que se esbatem, continua a existir, no meio de tudo, um mágico “rectângulozinho” verde coberto de relva onde perduram e perdurarão, apesar de tudo, as particularidades que distinguem um brasileiro de um alemão, ou um italiano de um inglês, porque, afinal, o mundo é uma bola!