A ESCOLA HOLANDESA

25 de Junho de 2004

“Ajax, daar hoorden zij engelen zingen!, Ajax, eles escutaram o canto dos Anjos!” Titulo de um filme documentário sobre a história do Ajax no futebol europeu, um continente que seria muito diferente sem o contributo filosófico e intelectual do futebol holandês, o apogeu da chamada inteligência em movimento.

O país que inventou o Futebol Total e revolucionou toda a abordagem táctica do jogo continua a ter uma ressonância mitíca nos mais românticos adeptos do belo futebol. Trata-se de um sentimento que remonta já ao inicio dos anos 70, num tempo em que a cultura hippie abanava as consciências sociais, o Ajax, o grande clube da história do futebol holandês e, depois, a sua selecção da Laranja-Mecânica, expressão futebolística da beat generation, revolucionou, ao som dos Doors e dos Rolling Stones, o futebol europeu e condicionou para sempre o seu status táctico. Em campo, com ou sem bola, ele é o supremo símbolo da inteligência em movimento, e a prova de, como diria Johan Cruyff, o futebol é um jogo para ser disputado com a cabeça. Uma ideia reforçada pela tese de Stefan Kovacs, o romeno que substituiu Rinus Michels no Ajax, quando fala do segredo holandês: “O sucesso do Ajax era o colectivismo. Ao Santos, sem Pelé, ganhava-se com facilidade. Ao Real Madrid, sem Di Stefano, também, o Ajax sem Cruyff, Keiser ou Neeskens, continuava uma força colectiva. Uma equipa de futebol deve ser como uma empresa, só que sem gerentes, apenas com trabalhadores.”

Entre essas grandes equipas e selecções holandesas dos anos 70 e as do presente, existem, porém, acentuadas diferenças. Desde logo, na imagem. Assim, na década de era impossível descobrir um jogador negro a alinhar com as cores da selecção da Holanda ou pelos seus grandes clubes. Recordamos essas fantásticas equipas e logo nos vem á memória os longos cabelos ruivos de homens como Neeskens, Krol, Resenbrik, Rep e, entre outros, os irmão Van der Kerkof. Só a partir dos anos 80, é que as estrelas negras com origem na América do Sul, o Suriname, começaram a invadir os relvados holandeses. Eles eram a nova geração do Voetbalstrat (futebol de rua, em holandês).

A filosofia no sistema táctico

Em termos de desenho táctico, o famoso Futebol Total esquematizava-se, no papel, num 4-3-3, com uma defesa em linha de 4, 3 médios armadores e 3 avançados que partiam de perto do meio campo. No relvado, porém, com marcação á zona, nenhum dos jogadores tinha posição fixa. O segredo estava na circulação de bola, com constantes mudanças de flanco, o célebre carrocel mágico, e no aproveitamento dos espaços vazios. Futebolisticamente poético, os holandeses giravam em campo, lembrando as pás de um moinho. Assim, num ápice, o 4-3-3 inicial, transformava-se, de posse da bola, em 3-4-3 ou 4-4-2. Em síntese, seria o revitalizar do esquema húngaro de 1954, acrescentado da circulação de bola e de uma clara intenção de jogar pelas alas. Quando, por exemplo, quem conduzia a bola pela esquerda via que não tinha linha de penetração, passava-a para um elemento recuado, mais para dentro do campo, para esse homem virar o jogo para a direita. Os adversários ficavam hipnotizados com este carrocel, até que o espaço era criado e Cruyff ou Rep surgiam na cara do golo. Era um ideologia futebolística inovadora, mas que não ganhou asas quando interpretada por uma fantástica geração de jogadores como a que Michels teve ao seu dispor, sob a magistral batuta de Cruyff. Todas as outras que foram surgindo depois, ao longo dos tempos, reflectiram, pura e simplesmente, a mesma filosofia de jogo, numa sucessão dinastica idolatrada por todo o mundo, como um verdadeiro futebol de autor, transformado agora quase como num futebol de culto.

Em meados dos anos 90, o futebol mundial já parecia estar conformado com o fim dos extremos de raiz. O incremento dos laterais ofensivos parecia ditar a sentença final. Em 1995, no entanto, o Ajax resgatou o conceito de estremo á moda antiga: veloz, com drible em progressão, capaz de chegar á linha de fundo, em corrida, e centrar para trás. O nome do principal jogador de recorte revivalista: Marc Overmars. Para além disso, recuava no terreno, fazia todo o corredor e marcava a meio campo. Conquistando, ao mesmo tempo, o titulo de campeão europeu, o Ajax voltava a abalar as consciências tácticas do futebol do Velho Continente. Um destino que, ao longo dos tempos, marcou a sua história, bem espelhada no titulo de um filme documentário sobre esse trajecto mítico: Ajax, daar hoorden zij engelen zingen!, ou seja, em tradução livre, Ajax, eles escutaram o canto dos Anjos!

Suriname: O renascimento laranja dos anos 80/90

Os mesmos conceitos estenderam-se á selecção, agora com uma imagem e contornos diferentes, consequência da aculturação estilística de vários talentos da bola vindos um pequeno país nas margens da América do Sul que entretanto se tornara independente: o Suriname. Finda a era colonial, muitos dos seus habitantes emigraram para a Holanda, antiga potência colonizadora, e, através dos genes virtuosos de, na primeira geração, Gullit e Rijkard, e, agora Davids e Kluivert, a segunda geração, moldaram, com arte e imaginação, a nova imagem do multirracial futebol das túlipas. A filosofia permanece igual, mas a cor e o aroma são diferentes. Sucessivamente, surgiriam um conjunto de enormes talentos com a mesma origem e estilo futebolístico, que, dotados de uma musculatura muito própria, introduziram um traço mais técnico e imaginativo, de inspiração sul americana, no futebol holandês, mas sem nunca descurar a condição atlética. Analisando a historia do futebol holandês, eles foram, finda a era dos holandeses voadores, o grande impulso para o renascimento do encanto da escola laranja que após a geração-Cruyff, falhara o apuramento para o Europeu 84 e para os Mundiais 82 e 86.

O triunfo no Europeu-88, no Olímpico de Munique, o mesmo local onde 14 anos antes dera ao mundo o esplendor do Futebol Total, e revolucionária toda a abordagem táctica futura do jogo, foi, assim, no fundo, como que um pequeno ajuste de contas com a História da bola. Para tornar mais justo o refazer do conto, Rinus Michels, agora mais velho, com 62 anos, voltava a estar sentado no banco. Os mais niostálgicos apressaram-se a divulgar o renascimento da Laranja Mecânica. No relvado já não estavam Cruyyf, Krol e Neeskens, mas estavam Gullit, Rijkard e Van Basten. Sistematizada num elástico 4x4x2 orquestrado por um líbero fabuloso, Ronald Koeman (que no PSV campeão europeu nesse ano, era pura e simplesmente o melhor defesa, o melhor médio e o melhor avançado) a Holanda ganhou consistência defensiva. No meio campo estava o seu irmão mais velho, Erwin Koeman, o experiente Muhren e o tecnicista Gerald Vandenbeurg, cujo estilo meio brasileiro tal era a forma artística de tratar a bola levou a imprensa a chamá-lo de Geraldinho, num sector que não contou com Rijkaard, entretanto recuado para central por Michels. No centro do ataque um ponta de lança fora de série: Marco Van Bastan, o bailarino voador Portentoso no jogo aéreo, parecia pairar no ar á espera da bola, acrobático a rematar de qualquer posição, autor de golos de sonho.

O presente da Laranja-Mecânica

A ESCOLA HOLANDESA1É tudo uma questão de filosofia de jogo. Mais de trinta anos depois do advento do Futebol total, os seus princípios básicos, posse de bola e sua circulação por todo o relvado, continuam activos e detectáveis nas novas gerações, como se pode ver na forma de tocar a bola, conduzi-la para o ataque, virar o jogo ou inventar novos movimentos, quando ela vem parar aos pés de um novo belo exemplar saído da escola de artes de Amesterdão, já vestido com a camisola nº.7 da principal selecção laranja: Wesley Sjneider. A seu lado, outras jovens referências: Andy Van der Meyde e, sobretudo, com alma de playmaker, Rafeal van der Vaart. Mas existem mais: Van Persie, rebelde do Feyenoord, Heitinga, libero do Ajax, e, provando como deve á Holanda a grande luta pela manutenção dos extremos, uma espécie em vias de extinção no futebol mundial, Robben, um extremo esquerdo quase á moda antiga.

Apesar do talento das novas gerações, espelhadas na elegância de Bergkamp, na classe dos irmãos De Boer e no labor de Davids, o Olimpo do futebol continua a preferir a divina geração de Cruyff: “Em geral eu sinto que o futebol total do Ajax e da Holanda de 74 era mais completo e profissional. Tecnicamente e tacticamente fomos nós os percursores. Tinhamos mais maturidade. As equipas actuais parecem-me ter menos carácter e força moral, mas penso que os poderá adquirir. Sobretudo, penso que ela já não serve de modelo, de referência como nós éramos anos atrás.”