A escola latina

05 de Junho de 2004

Em comum, a qualidade técnica, o jogo apoiado, o toque curto e uma certa predilecção pelo contra-ataque, parecendo mais confortável quando está atrás da linha da bola do que quando é obrigado a jogar em ataque continuado. Tudo pilares que cada país latino emoldura, depois, nas suas distintas concepções sócio-futebolísticas.

Neto de um imigrante italiano de Piamonte, o pequeno Platini crescera na vila de Jouef, situada na região mineira de Loraine, habitada por muitos imigrantes italianos e polacos, onde o seu pai, um grande apaixonado do futebol, tinha um café. Le Café de Sports.

Também ele ambicionara ser um grande jogador de futebol, mas uma lesão no joelho roubou-lhe esse sonho. Jogou em pequenos clubes, até aos 40 anos, o que acumulava com a profissão de professor de matemática, e consta que marcava muito bem livres. Foi por essa altura, com menos de 10 anos, que petit Michel se lembra de ter visto jogar um famoso emigrante polaco naturalizado francês, Kopa.

Nesse jogo, como quase sempre, ele estivera divinal. Houve então um lance que marcou o futuro grande craque gaulês: Kopa recebeu a bola mais ou menos na meia lua, á entrada da área, mas, muito marcado, não tinha espaço para fugir. Foi quando inventou um passe de calcanhar para um espaço vazio onde surgiria em corrida outro jogador que, sempre em movimento, captou a bola e fez a jogada que daria golo.

Platini ficou de boca aberta e perguntou ao pai: - Mas, como foi possível, como sabia ele que ia aparecer alguém naquele sitio?

- Sabia, sabia, meu filho. Ele quando fez o passe, viu pelo canto do olho esse seu colega a correr, calculou o tempo que ele demoraria a chegar aquele espaço vazio e fez o passe com a velocidade exacta para a bola lhe surgir á frente quando ele lá chegasse, respondeu professoralmente o pai.

Michel ficou espantado. Calou-se por alguns segundos até que se virou para o seu velho e disse-lhe com os olhos mais felizes que nunca:

- Agora já sei o que quero ser quando for grande. Quero ser como Kopa e fazer em campo as mesmas coisas que ele faz!, profetizou aquele menino que naquele tempo começava a pensar qual seria o seu futuro na vida.

Entretanto começava a destacar-se nas peladas de rua. Treinava os livres na porta da garagem que ficava numa rua estreita pelo que para tocar nela mesmo na parte de cima, tinha de dar um grande efeito na bola. Foi ai que iniciou essa sua arte de cobrar livres directos que o faria admirado em todo o mundo do futebol: “Adoro, sempre adorei marcar livres. Não sei explicar, não era por pensar que assim conseguiria melhores contractos. Era como um jogo á parte para mim, uma diversão onde estava em vantagem e só eu podia tocar e fazer o que quisesse da bola”.

As diversas expressões do futebol latino

A escola LatinaCuriosos ou aparentemente sem grande significado, estes dois pequenos episódios da infância daquele que viria mais tarde a ser um dos maiores jogadores da história do futebol europeu, sempre com a camisola fora dos calções, porte blazé, classe pura, sem osso e com lançamentos em profundidade com uma precisão capaz de meter a bola dentro da abertura de uma lata de cerveja, espelha, no entanto, as mais profundas raízes do virtuoso futebol latino: poema de técnica, inteligente, viveiro de grandes individualidades e consciente de quem tem de correr é a bola.

É, afinal, o simples reflexo das idiossincrasias e morfologia dos seus povos. Um jogo de espelhos entre a vida e o futebol que se pode detectar por todo o Velho Continente, onde, por exemplo, a Alemanha é expressão de futebol força e a Holanda, presa entre o norte e o sul, representa um jogo cuja miscegenação de raças, brancos e negros, que ganhou cor com a arte do Suriname, antiga colónia, terra de Gullit.

O futebol latino, -Itália, Espanha, França, Portugal e Roménia- tem, por sua vez, uma tendência geneticamente mais defensiva. Em comum, a qualidade técnica, o jogo apoiado, o toque curto e uma certa predilecção pelo contra-ataque, parecendo mais confortável quando está atrás da linha da bola do que quando é obrigado a jogar em ataque continuado. Tudo pilares que cada país latino iria, depois, emoldurar nas suas distintas concepções sócio-futebolísticas. Apesar desses traços semelhantes não é possível detectar, no entanto, um verdadeiro estilo comum a todas essas expressões de latinidade futebolística.

Cada qual tem as suas particularidades que foram evoluindo, ao longo dos tempos, devido, sobretudo, á maior ou menor abertura multiétnica de cada nação. É uma questão, ao mesmo tempo, cultural e desportiva. Portugal, por exemplo, recebeu, no seu período mais glorioso, as influências vindas das suas antigas colónias ultramarinas, um acrescento de magia quase felina que temperou o seu futebol com o aroma africano, ao mesmo tempo que permaneceu sempre um devoto admirador da arte sul-americana, o que levou muitos analistas internacionais a reverem no futebol luso os traços do tecnicista e bailado jogo á brasileira.

França, Espanha, Roménia e Itália: As raízes de cada estilo

A França é, porém, o caso mais emblemático de como um país pode mudar o curso do seu futebol e com a influência de outras culturas construir um novo estilo sem, ao mesmo tempo, perder as suas principais referências técnicas. Terra prometida para onde ao longo do século rumaram muitos aventureiros desterrados, a França é hoje um país socialmente muito diferente do que era há 30 ou 40 anos.

O seu futebol, também mudou. Manteve as suas raízes latinas defensivas, mas acrescentou a força e talento de alguns jogadores vindos da África negra, Ilhas do Pacífico, muitas antigas colónias e territórios, da região norte africana ás Caraíbas. Uma nova realidade que, ironicamente, pode nos levar a dizer que a vitória no Mundial-98 ou no Europeu-2000 começaram, neste termos históricos, a serem construídas em 1635 com a colonização de Guadalupe, terra de Tierry Henry e Thuram...

Ao seu lado, na Península Ibérica, a Espanha viveu durante muitos anos sob inspiração da Fúria, mais do que um estilo de jogo, antes um estado de ânimo, expressão de um futebol tauromáquico que, a certo ponto da história, teve o acrescento do carácter índio da América Latina, antigas colónias, embrião temperamental da maior agressividade competitiva sempre demonstrada pelo fútbol hispânico em relação ao lusitano, mais influenciado pelo açucarado ritmo canarinho. A Roménia, por sua vez, caminhando na direcção ás Balcãs, na sombra dos Cárpatos, sofreu a influência política, social e cultural de leste o que tornou o seu futebol dono de uma ideologia de jogo mais colectivista em relação aos rasgos técnicos individuais dos outros aromas latinos.

Observando a história, pode-se concluir, assim, que, de todas as nações do mundo latino, a Itália, historicamente a sua maior potência (a nível de clubes e de selecção) foi aquela que futebolisticamente mais permaneceu fiel ao seu estilo e carácter. Ao contrário de todas as outras nações latinas que foram incorporando novas culturas através dos tempos, ao invés, a Itália permaneceu sempre fiel ás suas raízes. Dos tempos de Pozzo aos de Trapatoni, o dilema colectivo-individualidade é uma ameaça ao equilíbrio táctico, sempre emoldurado num contexto idiossincrático e futebolístico praticamente imutável.

O perfil dos seus jogadores é hoje o mesmo que era há meio século atrás. Fala-se em Del Piero, Baggio ou Totti e logo a nossa memória recua até á época de Mazzola, Rivera ou Riva. Até no recurso aos oriundi,, os naturalizados argentinos, a nação italiana vive hoje tempos de revivalismo, com a naturalização do médio-ala gaúcho Camoronesi a fazer recordar os tempos longínquos de Orsi e Monti. Por isso, as suas tácticas defensivas, o maquiavélico Cattenacio continua a inspirar muitas mentalidades do futebol transalpino. Elas são a expressão mais genuína da escola italiana, dogmaticamente fiel ás suas raízes estilísticas, congeminadas sobre um venenoso dolce fare niente técnico-táctico que, por vezes, parece mais perigoso quando não tem a bola do que quando a recupera.

Existe um verdadeiro estilo de futebol português?

Quando, em 1935, Cândido de Oliveira, escreveu o livro “Futebol, Técnica e Táctica”, distingiu, logo a abrir, duas grandes escolas europeias de futebol: a inglesa, do passe longo, e a escocesa, do passe curto. Trata-se, há distância de quase 70 anos, de um sublime ensaio sobre as origens do futebol moderno. O futebol latino sempre foi, entre todos, o que mais se preocupou com a abordagem estética do jogo.

Nesses tempos ancestrais, remotos anos 30, identificava-se mais, no cenário europeu, com a escola escocesa, de passe curto, os seguintes países: Áustria, Checoslováquia, Hungria, Jugoslávia, e, claro, Escócia. A seu lado, noutro quadrante, adoptavam o chamado sistema inglês de passe longo, os restantes países, embora havendo neles algumas equipas mais do tipo escocês. Casos, citava-se, do Sevilha, em Espanha e do FC Porto, em Portugal. Era o tempo em que o futebol latino buscava referências para fundar a sua própria escola.

Os pilares, depois de analisar o barro que moldava os seus futebolistas, seriam a predilecção pelo passe curto, por ser mais belo e exigir menor condição atlética. Um futebol desenhado pelos chamados jogadores de roda baixa, esquivos e pouco dados a duras lutas pela bola. Era uma opção lógica e natural, como explica Cândido de Oliveira no seu livro, escrito pouco tempo depois de regressar Inglaterra, onde, claro, logo vira que o poder de Cliff Bastin ou Hapgood, nada tinha a ver com a frágil malícia lusa de Pinga ou Vítor Silva. Para fundar a escola do futebol português, com identidade própria, teve, como condição essencial, de desenvolver a capacidade técnica quanto ao controle da bola e ao seu comando nas sucessivas triangulações por todo o campo.

Um futebol de médios, chamaram-lhe os críticos, embora, noutras nações latinas, outros factores -como a atitude competitiva, a fúria, em Espanha, ou a evoluída abordagem táctica, em Itália, tivessem melhor preenchido a totalidade do relvado. Nesta perspectiva, e pensando na sua afirmação estilística ao longo dos tempos, será que o futebol português tem alguma coisa de próprio, ao ponto de constituir um estilo, ou é, apenas, o decálogo latino temperado por uma ou outra linha caracterizante, como, por exemplo, o contra-ataque?

Numa análise sintética, diga-se que, durante muito tempo, o facto de, como sublimemente definiu José Maria Pedroto, lhe faltar os tais 30 metros na fase ofensiva, inclinou a resposta para a segunda opinião. Era quase um fatalismo. Habilidade fina, bolinha no pé, mas uma visão curta do campo de jogo impedia traduzir esse virtuosismo em resultados. Visitando os últimos 20 anos, podemos, paulatinamente, ver nascer o novo estilo, ou melhor, as novas linhas caracterizantes -a nível futebolístico e mental- que formam o, digamos, futebol português da era moderna.

Este é um percurso que, claramente, nasce com Pedroto, que, já nos anos 70, dizia devermos ser sempre fieis ao nosso futebolzinho que, quando inteligentemente interpretado nas bruscas mudanças de jogo, em que o passe largo, aspecto do futebolzão, tem o seu lugar imprescindível, faz emergir a nossa maneira peculiar de jogar. Neste processo de crescimento, a actual selecção portuguesa é um produto acabado dessa bela arte lusitana de jogar futebol

Espanha: A fúria reciclada pela técnica

A escola latina1De entre todas as nações latinas, aquela que sempre sentiu maior dificuldade em construir uma identidade nacional própria, devido a razões culturais e por inerência futebolísticas, foi a Espanha, que abriga no seu híbrido território uma verdadeira babibilónia de povos, atmosferas e influências culturais. Tal “cocktail” de diferentes identidades também condicionou, inevitavelmente, o estilo do seu futebol, expressão dentro das quatro linhas das múltiplas idiossincrasias que abrigam aquela região ibérica.

Assim, essas diferentes atmosferas regionais produziram um futebol eclético, híbrido, onde coexistiram diferentes escolas, desde a combatividade basca á técnica andaluza, passando pela cosmopolita escola castelhana, embrião do grande Real Madrid, onde ao longo dos tempos, chegaram jogadores e treinadores de todo o mundo. Ente húngaros, jugoslavos, argentinos e franceses, cada um deles deixou algo do seu futebol e gerou um estilo que embora temível carecia de homogeneidade táctica e estilística.

No final do século, porém, a partir dos anos 80, sob o signo de Butragueño, craque inspirador de uma futura casta de tecnicistas, de Guardiola a Raúl, a nova geração do futebol espanhol, mesmo por entre a invasão estrangeira dos seus relvados, olhou de lado a “fúria” e face á sua secular mescla de influências, inventou-lhe um novo estilo, mais técnico e personalizado, simbiose de técnica e picardia, razão de ser de uma década de ouro expressa nas conquistas das suas selecções jovens e que só falta, agora, estender-se á dimensão maior do principal conjunto nacional pois apesar de ter ganho, ao longo dos anos, o respeito da comunidade futebolística internacional, nunca se tornou a nível de selecções um verdadeiro gigante do futebol mundial.

A nova mentalidade latina: novo motor de transformação

Mais do que em questões técnico-tácticos, o aspecto fundamental em que o futebol latino cresceu muito nos últimos anos situa-se no plano mental, ou, por outras palavras, na sua maior resistência e fortaleza psicológica para enfrentar o jogo. Tornou-se mais frio e concentrado, aproximando-se, nesse aspecto, da mentalidade anglo-saxónica.

Apesar da invasão de estrangeiros dos seus campeonatos e das diferentes propostas tácticas, as quatros grandes selecções (Itália, França, Espanha e Portugal), no seu perfil essencial, continuam fieis ás suas raízes e espelham, historicamente, a génese tecnicista do futebol latino, devoto do jogo apoiado e do toque curto, procurando fazer rodar a bola de pé para pé, hipnotizando o adversário, dando por vezes quase a sensação que jogar sem baliza, num estilo onde o contra-ataque surge como um dos mais sublimes símbolos da virtuosa e venenosa escola latina.

A sua presente superioridade –em resultados e na forma de controlar o ritmo de jogo- sobre o futebol anglo-saxónico tem, no entanto, bases diferentes da hegemonia verificada em muitos outros pontos do passado, (anos 60, sobretudo) quando as diversas culturas futebolísticas estavam claramente separadas no discurso e no método. A diferença que caracteriza o tal futebol latino da era moderna situa-se, essencialmente, no déficit de beleza técnica, ou, digamos, na menor decoração artística, da maioria das actuais selecções quando nas grandes competições internacionais.

No fundo, o futebol latino tornou-se mais realista e, na sua nova mentalidade competitiva, aproximou-se das bases das velhas selecções alemã ou inglesa, deixando de ter, como desde sempre nunca existiu nos manuais anglo-saxónicos, grandes preocupações estéticas com o abordar do jogo. Assim, o grande segredo do êxito das actuais selecções latinas está em não deixar jogar o adversário e saber perfeitamente o que fazer em cada momento. Depois, com o frasco de veneno atado á cintura, a diferença é feita em rápidas jogadas de contra-ataque, ou em pormenores incutidos por grandes individualidades, leia-se Zidane, Totti, Figo, Raúl, Henry....