A ESTÉTICA DA DERROTA

26 de Junho de 2015

Os registos eternizam os vencedores. A memória retêm os melhores. Cada época tem os seus encantos e dramas, mas olhando a história futebolística, duas grandes seleções emergem como supremas revolucionarias do jogo: a Hungria de 54 e a Holanda de 74. Revolucionando a abordagem táctica, criaram relações com a bola, espaços e posições como nunca antes se vira. A partir dai, tudo foram variantes (estilos e tácticas) desses tempos. E, no fim, para tornar toda essa existência mais mítica, ambas perderam. É a filosófica estética da derrota.

Vendo os 90 minutos do mítico particular Inglaterra-Hungria (Wembley 1953) vislumbram-se todos os princípios e dinâmicas que fazem o futebol atual. Os húngaros estão para a história futebolística como a civilização egípcia para a história da humanidade. São a base do pensamento do futebol moderno. Naquele tempo, derrubaram o “castelo táctico” do WM usando uma dinâmica posicional que ainda hoje consegue inovar: o falso nº9. Foi essa Hungria de que o inventou.

Esse primeiro falso ponta-de-lança foi Hidegkuti. Sabendo que os ingleses iriam marcar os seus extremos Budai e Czibor e o central de marcação (o “stopper”) ira cair em cima do nº9 Hidegkuti, a armadilha surgia quando, a atacar, a bola entravava nos últimos 25/30 metros. Nessa altura, ele recuava alguns metros, arrastando consigo o seu marcador e a bola era metida nos espaços vazios, por entre a defesa inglesa arrastada para fora do seu posicionamento de marcação habitual. Era então que surgiam, em diagonais, isolando-se, Czibor, Puskas, Budai e o “pássaro loco” Kocsis. Ganharam 3-6 desta forma. No papel, era um 4x2x4 mas ver esse jogo é ver nascer a “pressão alta” (os húngaros não deixavam os ingleses sair a jogar e recuperavam a bola logo no meio-campo deles) e as “transições” na sua essência, pois mal recuperavam a bola, faziam um passe a lançar o processo atacante.

Tenho gravadas todas as Finais de Mundiais desde 58, mas de 54 o tempo apenas transportou até os nossos dias um resumo, 40 minutos, que permitem seguir esse lendário jogo, a “Batalha de Berna”, onde a RFA venceu a Hungria por 3-2 (estava a perder 0-2 aos 8 minutos, estava empatada 2-2 aos 18, e fez o terceiro golo aos 85). Pelo meio, grandes jogadas dos dois lados, bolas no poste, grandes oportunidades e defesas de outro mundo (Grosics e Turek, os dois guarda-redes eram, de facto, avançados para a época. Notável como se colocavam na baliza, voavam ou saíam a cruzamentos). É emocionante seguir aquela meia-hora.

E confesso, também, gostaria que uma daquelas bolas de Kocsis ou Puskas na segunda parte tivesse entrado. É profundamente disparatado assumir isto mas naquele lance em que o Czibor se isolou ao minuto 90, já cheguei mesmo a saltar no sofá. Mas em nenhuma vez a bola entra. Turek defende. Confesso que uma das coisas de que mais gostaria era ter uma daquelas inverosímeis “máquinas do tempo” para voltar atrás e aterrar nessa mítica tarde e ver esse jogo ao vivo.

Os alemães, diga-se, também tinham uma grande equipa. E ganharam bem aquele jogo. Não acredito naquela tese do doping. Eles jogavam mesmo muito e fisicamente eram mais fortes. Fritz Walter tinha grande técnica. Basta ver como tratava a bola e a metia nas zonas de perigo.

A única coisa que não se vê bem no filme é se o golo de Puskas ao minuto 86 está ou não fora de jogo. Dá toda a sensação que não. Isso mudaria o resultado e a história, mas não o impacto dos húngaros no futebol e abordagem do jogo.

A ESTÉTICA DA DERROTA

“Pergunto-me por vezes se trocaria todos os elogios pelo titulo em si mesmo. Penso muito e sinceramente não. Hoje, tantos anos passados, ainda se fala mais daquela seleção da Holanda do que dos verdadeiros campeões do Mundo!”
 Johan Cruyff, capitão da Holanda 74

“FUTEBOL TOTAL” OU FUTEBOL “CIRCULAR”?

A Holanda que emerge nos anos 70 tem muito desses fundamentos húngaros de 54. Ficou eternizada com o nome de “futebol total” mas vendo-a jogar talvez o nome mais correto, como disse Rinus Michels, seu fundador, fosse “futebol circular”. Seria o melhor para definiri a dinâmica do seu jogo, que, num posicionamento estrutural (estático) inicial, seria um 4x3x3. Aquela Holanda não tinha, porém, sistema de jogo. Ou melhor, tinha muitos sistemas, e podia variar entre eles durante o jogo. Todos os jogadores sabiam o que fazer a cada momento, nas faixas, esquerda ou direita, ou no centro, mais atrás ou á frente.

A grande base ideológica estava na circulação da bola, com rápidas mudanças de flanco e aproveitamento dos espaços vazios, em constantes trocas posicionais e triangulações por todo campo num sucessivo jogo de desmarcações. É impossível definir uma estrutura única para esta equipa. Revendo religiosamente os seus jogos arrisco 3x1x3x1x2. Isto é: Suurbier-Haan-Krol mais Rijsbergen (o quarto defesa que se adiantava); Neeskens (à direita), Jansen e Van Hanegem (mais sobre o centro); Cruyff (interior armador esquerdo); Rep e Resenbrink (avançados móveis). A subida do “quarto defesa” era decisiva. noutros momentos do jogo, era possível ver Cruyff recuar e pegar a bola dos pés dos defesas. Era a “desorganização organizada”. Eis a definição perfeita para esta forma de jogar.

Na base estava, claro, a capacidade técnica (é a primeira vez que se vê um guarda-redes jogar com os pés no inicio da circulação de bola) e, sobretudo, o eclodir da dimensão física do jogo (potência e resistência) iniciada pelos ingleses em 66. Era o tempo do poder (físico e táctico-técnico) do futebol anglo-saxónico.

Na Final, perderam com a RFA (2-1) depois de terem marcado no primeiro minuto, num lance em que até a bola entrar, de penalty, nenhum jogador alemão tocara ainda sequer na bola. Tal como em 54, é justo dizer que ganharam bem o jogo decisivo. Digo mesmo que que aquela RFA de 74 foi a mais forte seleção alemã de todos os tempos.

Um 4x3x3 musculado com Beckenbauer a “líbero”, enquanto Vogts, à direita, e Breitner, à esquerda, faziam todo o flanco a defender e a atacar. Na Final, porém, Vogts foi destacado para marcar individualmente Cruyff por todo o campo. No meio-campo, o “motor” organizador-criativo era Overath, enquanto Bonhof “comia” todas as bolas nas recuperações. Na frente, Hoeness e Holzenbein “arrombavam” desde os flancos e no centro estava um “pequeno elefante” em forma de nº9, Muller, que fazia golos atrás de golos.

De “botas cardadas”, a Alemanha roubou duas vezes o sonho do titulo a Hungria e Holanda. Na memória romântico-revolucionária, eles foram, mesmo derrotados, os mais belos projetos de futebol de todos os tempos unindo táctica e técnica
Para perceber bem a origem inspiradora das revoluções húngaras e holandesas, uma frase de Cruyff explicando como toda aquela geração sentia o jogo: “Não tive maestro para jogar futebol. O meu único maestro foi a bola!”

DESTAQUE:
Em 54, os húngaros criaram o falso 9. Em 74, os holandeses as trocas posicionais. Tudo o que se faz hoje são variantes desse tempo.