A estética do bom futebol

05 de Dezembro de 2006

Conta Platini que decidiu tornar-se jogador de futebol quando, ainda miúdo, com 10 anos, foi pela mão do seu pai, ver um jogo onde estava Kopa. Houve então um lance que o marcou. Kopa recebera a bola à entrada da área. Muito marcado não tinha espaço para fugir. Foi quando fez um passe de calcanhar para um espaço vazio onde surgiria em corrida outro jogador que, na passada, captou a bola e fez a jogada que daria golo. Platini ficou espantado: “Mas, como sabia ele que ia aparecer alguém naquele sitio?” ”Sabia meu filho.Quando fez o passe, viu pelo canto do olho esse seu colega a correr, calculou o tempo que ele demoraria a chegar aquele espaço vazio e fez o passe com a velocidade exacta para a bola lhe surgir à frente quando ele lá chegasse, respondeu o pai. Michel calou-se por segundos, e disse-lhe com ilusão: “Já sei o que quero ser quando for grande. Quero ser como Kopa e fazer as mesmas coisas que ele faz!” Aqui está uma bela história sobre a relação entre o jogador, a bola e o espaço e como essa noção deve estar presente no fora-de-serie desde o primeiro dia que pensou tornar-se futebolista, mesmo que seja de forma apenas instintiva. Afinal, é disso que trata o futebol.

Afinal, era a isso onde Rijkaard queria chegar com aquela frase sobre a importância da táctica. E isto porque a história de Platini também se pode aplicar para a tentativa de cortar um passe do adversário. Altura em que o controlo do espaço é o primeiro passo para defender bem, noção que passa, sobretudo por equilibrar tacticamente a equipa em campo. Lembrei-me destas histórias cruzadas, durante aquela primeira meia-hora do jogo decisivo que o Barcelona realizou esta semana frente ao Bremen. Não sei se Deco também se cativou pelo futebol ao ver outro craque de visão de jogo superior, mas a verdade é que, tal como Platini, também ele traça as coordenadas da relação da bola com o espaço de forma perfeita. São, como diria, Di Stefano, duplo- craques. Por nascimento e por formação.

A estética do bom futebolNoutra reflexão, Capello dizia, com a autoridade que só um italiano tem nestes temas, que “no futebol actual defende-se com nove e ataca-se com dois. Todos o fazem. Real, Chelsea e Barcelona.” Eu acho que Capello foi muito benevolente. Muitas vezes as equipas actuais defendem com… onze. Com isso tentam equilibrar o jogo. Ou melhor, meio jogo. Porque, na raiz desses aparente equilíbrio está subjacente o facto de elas só jogarem meio jogo, o chamado jogo defensivo. Falta o outro momento do jogo, o que existe após a recuperação da bola. Nesse sentido, Chelsea e Barcelona até defendem com onze, mas, também atacam com onze. Todos os jogadores pensam o jogo nos diferentes momentos, defensivamente e ofensivamente, unindo as duas fases. Sabem distinguir a posse pela posse, mera quantidade de posse, da chamada qualidade de posse. Um superior entendimento do jogo que, nestas duas equipas, pode ser visto, nos pés de Deco e Lampard. Com ou sem bola.

Totti e Mexés: O perfume do futebol

A estética do bom futebolO futebol italiano deixou de estar na vanguarda da modernidade futebolística, que em termos tácticos, como em termos estéticos. Vendo as suas actuais equipas na Champions, há, no entanto, um jogador que conserva o traço do belo Calcio: Totti, cavaleiro andante da Roma de Spalletti. Cada jogada sua é como um grito de ironia no dramatismo táctico dos relvados italianos. Em busca de espaços de criação mais decisivos, é ele agora muitas vezes o homem mais avançado da equipa num esquema de 4x2x3x1. Quando isso sucede a equipa fica mais longa em campo. Quando, noutra opção, joga Montella no ataque e Totti recua para o espaço entre-linhas (entre o ponta-de-lança e os médios mais defensivos), o onze fica logo mais curto, sentindo-se mais confortável quando atrás da linha da bola. São duas opções tácticas e estéticas que respeitam a relação jogador, bola e espaço. Aliás, esta Roma, embora muitas vezes algo leve a abordar o jogo, é hoje a equipa italiana mais sedutora. O perfil dos próprios centrais reflecte isso: Mexes e Chivu. Um francês e um romeno. Ambos estilizados com a bola, se calhar em demasia. Ajeitam demasiado o cabelo, dirão alguns. Mexes preocupa-se em cada bola parada com o elástico que segura o seu rabo de cavalo.

Está bem preso? Ok, posso atacar a bola com outra confiança. Como no golo que deu a vitória frente ao Valência, indo buscar, nas alturas, uma bola ao segundo poste que devolveu à vida para na pequena área Panucci encostar para a baliza. Noutras ocasiões, faz lembrar a história de um velho jogador argentino que, dizia-se, punha desodorizante ao intervalo. Com isso estava simplesmente a dizer que, após uma primeira parte bem calma, também não estava pensar em correr na segunda metade. Ás vezes, fico com a sensação que Mexés, fiel ás raízes gaulesas, coloca um perfume caro antes de entrar em campo. O aroma que, no entanto, mais interessa que ele solte no relvado é o do bom futebol. Num ou noutro sentido, ele e Totti são os jogadores mais perfumados da bella Roma.