A execução das (boas) ideias

09 de Fevereiro de 2016

 

No futebol, todas as ideias de jogo são boas. O que faz a diferença é a sua execução.
A questão coloca-se mais quando uma equipa mais pequena defronta um grande. São sempre de louvar as intenções ofensivas. O problema é que, depois, o jogo (devido à diferença de forças) disputa-se na maioria do tempo noutro momento, o defensivo, e é neste que ela tem de ser sobretudo eficaz. A boa ideia está atacada desde o inicio pela realidade que a cerca em campo.

O Belenenses de Júlio Velasquez apresentou, contra o Benfica, uma atraente ideia de jogo. num médio a central (Ruben Pinto, 1,80m) para começar a construir desde trás e num extremo a lateral (Fábio Nunes) para sair a jogar em profundidade. No papel, era um 4x3x3 mas a expressão em campo tinha um principio tático de “nariz no ar” com bola mas que, na prática, frente a um onze com Renato Sanches, Gaitan, Pizzi, Jonas e Mitroglou a cavalgar no meio-campo azul, dificilmente o deixaria passar muitas vezes do momento defensivo para os de transição/organização ofensiva.

Ou seja, aqueles jogadores azuis eram forçados, pelo “peso táctico inclinado” do jogo, a viver noutro momento, organização defensiva, para o qual as suas características (pensadas para um momento diferente) não tinham vocação. A boa ideia chocava com a capacidade de execução.
Nada impede, porém, que uma equipa dita mais pequena queira ideologicamente crescer neste estilo de jogo. O segredo é ter visão estratégica de a adaptar à sua dimensão e ao momento em que previsivelmente mais vai viver durante 90 minutos.
O importante é a equipa ser sempre competitiva. E as ideias em que aposta também. Não se trata de trair a sua identidade. Trata-se de adaptá-la à realidade tática mais hostil. Quando defrontar adversários do seu nível, já não terá de o fazer tanto. Vai gerir melhor os momentos do jogo. E crescer como quer. Sem fugir à realidade.

arouca

Tricheiras, pressão, marcação e contra-ataque

Na mesma jornada, noutro duelo entre equipa pequena-equipa grande, o Arouca reapareceu no seu estilo que rotulam “ideologicamente de bloco baixo”. No fim, Lito Vidigal surgiu a defender a sua ideia. Ou melhor a sua execução.
Ao contrário da ideia-Velasquez, meteu um central a lateral (Gegé) e inverteu o triângulo do meio-campo passando a jogar com dois médios-centro defensivos (entrou Adilson para o lado de Nuno Coelho) tirando um interior com maior qualidade de posse (David Simão). No papel, também era um 4x3x3, mas a sua expressão em campo tinha um principio táctico de reforçar o rigor de posicionamento sem bola em coberturas nos últimos 30 metros.

Frisou o saber dominar (saber viver) em todos os momentos do jogo. Baixar linhas quando necessário ou sente ser estrategicamente o mais útil. Ou subir mais uns metros e tentar pressionar/marcar mais alto para ativar melhor o contra-ataque. Não tem pretensões estéticas para a equipa. Só tática, pura e dura. Por isso, no Dragão, após uma primeira parte em que saltou entre os quatro momentos do jogo (organização defensiva-transições-organização ofensiva em contra-ataque) passou, intencionalmente, a viver na segunda parte quase exclusivamente em organização defensiva, baixando linhas, jogando com o relógio, quase não saindo em contra-ataque (o golo nasce de um pontapé longo de Bracali para lá na frente Walter Gonzalez inventar sozinho).

O futebol é um ecossistema onde cabem todos. Admite todo o tipo de ideológicas e estratégias. E, no campo, já todas foram vencedoras (ou perdedoras).
Sinceramente, se tivesse que escolher uma para jogar no meu jardim, escolhia, sem hesitar, a ideia de Velasquez. Para, porém, defrontar um grande com armas tão desiguais, já pensaria de forma diferente.
Este Arouca é uma equipa competitiva. Sem seduzir esteticamente, mas convencendo taticamente no plano da... execução da ideia.