A fórmula Redondo

29 de Março de 2007

Existem vários pontos de partida para pensar o futebol. A partir da fantasia individual, do pensamento táctico, ou da força e combate. Todos têm o seu espaço e as ideologias que o sustentam. Há jogadores que, de imediato, nos fazem viajar até aquelas diferentes formas de viver o futebol. Cristiano Ronaldo e Ronaldinho, no universo fantasista. Schweinsteiger ou Gerrard, no combate: Cesc ou Pirlo, pensando futebol Só um sentido colectivo unificador a todos eles pode permitir uma coexistência na mesma equipa sem a desequilibrar em campo. Pensem nos fantasistas. Eles são os jogadores que nos fazem sonhar, mas, na sua essência, a ordem colectiva não nasce a partir da fantasia, mas antes do pensamento. O futebol sempre elegeu as suas referências. Jogadores protótipos. Nos últimos tempos, há um cuja a sua reencarnação tem sido, ciclicamente, anunciada. Redondo. A sua capacidade elegante e personalizada de unir aqueles três factores, arrumando em campo a casa e decorando-a com flores, criou um culto ao seu estilo. Os pretensos herdeiros de Redondo sucedem-se.

A fórmula RedondoGago chegou a Madrid com essa aura. Antes falou-se de Cambiasso, ou até Guti e, agora, em Portugal, até se fala em Miguel Veloso. Os penteados são, de facto, semelhantes. O estilo com bola também tem parecenças. Mas os tempos tácticos são diferentes. E a capacidade de unir aquela trilogia fantasia-pensamento-combate, também. Nesta reflexão entra muito a questão de jogar com duplo-pivot defensivo ou só com apenas um jogador nessa posição à frente da defesa. Um lugar chave no futebol moderno, desde há sensivelmente década e meia para cá. A opção pelo duplo-pivot impede, por si só, o aparecimento de mais projectos como o de Redondo, Guardiola ou Paulo Sousa. No fundo, esta opção táctica condiciona a existência de verdadeiros médios organizadores que dá à equipa o tal sentido tridimensional do bom futebol. Estas duas correntes estão em confronto nos relvados actuais. Nas equipas e nas selecções. Foi desolador, no Itália-Escócia, ver Pirlo, protótipo moderno do pivot defensivo/ofensivo, sentado no banco. No seu lugar, estava um duplo-pivot de dentes cerrados: De Rossi-Gattuso. Ganhou o combate. Perdeu o pensamento. Esqueçam a fantasia. Desolador também ver o poeta Cesc, no banco, abrigado da chuva, sem jogar pela Espanha.

Uma equipa desordenada no processo de construção. Schuster, um homem que também cresceu naquela posição nos anos 80, como símbolo dessa união sagrada, disse que, em termos de estilo, a equipa ideal uniria defesas argentinos (sólida e que meta medo), médios alemães (pela intensidade de jogo e capacidade atlética de jogar área a área) e avançados brasileiros (pelo fogo e fantasia). Nesta fórmula-Schuster estão, no fundo, implícito os três factores do início do texto. O dilema estaria no meio-campo. É a questão de pensamento. O pivot-defensivo único. A base para dar substância ao combate e à fantasia.