A insustentável leveza do futebol português

30 de Maio de 2007

Quarta-feira foi um dia triste para o futebol português. Não consigo descobrir, seja com a razão ou a emoção, outra definição para a notícia que nos surgiu no crepúsculo da tarde. Dois dos maiores craques do nosso campeonato, daqueles que nos fazem vibrar, nas bancadas ou no sofá de casa, soltando ahs! e ohs! de espanto com as suas maravilhas em campo, deixaram Portugal. Anderson e Nani.

Elogiam o encaixe financeiro dos clubes, mas essa necessidade é, sobretudo, consequência de péssimas gestões anteriores que obrigam a essas vendas, do que de decisões estruturadas no tempo, visto tal ser, como se sabe e não faltam exemplos, um processo recorrente. O grande negócio foi, esse sim, para o Manchester United e para aqueles que hoje detêm, o poder absoluto no mundo do futebol, os empresários. Para estes, não interesse um mercado parado. Ele, e as respectivas contas bancárias, tem de mexer todos os anos. Para os jogadores, a alucinação de muito dinheiro e um sonho de super-futebol quando ainda jogavam com a casca de ovo na cabeça. Os nossos clubes são hoje meros pontos de passagem, apeadeiros numa carreira, para esses jogadores. Anderson, 19 anos, fez apenas 9 jogos a titular no FC Porto (meio ano na equipa B, outra metade lesionado). Aos 20 anos, só na fase final da época, Nani, depois de passar por uma crise existencial futebolística, estabilizara no onze principal do Sporting. É decisivo para o futebol português (dimensão competitiva internacional dos nossos clubes e campeonato, cativação de adeptos, etc) criar condições para os aguentar nos nossos relvados mais algum tempo. Mais um ano que seja. Vão, no entanto, para o clube ideal para crescer. Sobretudo Nani. Com o saber de Carlos Queiroz. Quanto a Anderson, Old Trafford não demorará a fazer outro cântico de êxtase à sua magia.

A insustentável leveza do futebol portuguêsÉ impossível, naturalmente, competir com os colossos ingleses, espanhóis e até italianos ou alemães. O canto da seria de 30 milhões de Euros esmaga qualquer debate, mas é possível, no entanto, competir, com as devidas proporções, em termos de boa gestão, rigorosa e realista (entenda-se comprar bem e vender bem, condicionar despesas ás receitas). Tudo aquilo que, evidentemente, os nossos clubes não fazem. E, depois, ficam felizes com estes encaixes financeiros que, servem, fundamentalmente, para atenuar passivos e, depois, comprar, no mesmo mundo subterrâneo, outro saco de jogadores de valor, digamos, questionável. E fui, agora, muito comedido neste adjectivo escolhido. Esqueçam a ideia que esse dinheiro vai dinamizar o mercado entre clubes da chamada segunda linha desportiva-financeira. Não existe prospecção séria, nem interesses transversais, que garanta esse destino. Serão, novamente, os empresários a ir ter com os clubes com portfolios de pretensos craques, do que os clubes a ir em busca dos jogadores. O status de poderes está bem enraizado em todos os quadrantes e os clubes vivem reféns dele. Voluntariamente. Por incompetência ou estratégia. Até pode parecer, mas, na verdade, não são eles que determinam quando e como vendem, mas sim os poderes (empresários e grupos financeiros) que os rodeiam. São estes quem controlam os timings dos negócios das grandes transferências. É a insustentável leveza do futebol português.