A leste do paraíso

03 de Maio de 2002

Na memória, o chamado futebol científico, congeminado para deter o menos tempo possível a posse da bola, reduzindo o tempo a pensar com ela nos pés, preferindo o passe ao primeiro toque, velocidade e eficaz ocupação de espaços vazios em lineares jogadas de contra ataque. O ideal colectivista em forma de movimento táctico futebolístico. Um estilo que foi, durante décadas, a imagem das equipas de leste, sobretudo, nos anos 70 e 80, as soviéticas, polacas e checas, que faziam tremer os anárquicos adversários do ocidente. Era raro um jogador destacar-se num onze tipicamente de leste, pelo que os eleitos eram mesmo grandes estrelas: Blokhine e Zavarov na URSS, Nehoda e Panenka na Checoslováquia, Lato e Boniek, na Polónia. Ver jogar a selecção polaca dos anos 70 era ver jogar a perfeita coordenação entre a capacidade técnico-atlética e a velocidade com bola. Hoje, findo o Pacto de Varsóvia, o estilo do futebol de leste mudou, no design e no temperamento. Na Rússia, por exemplo a dupla Mostovoi e Karpin, é já, no génio e carácter, um produto da nova geração do futebol russo. Por toda a região, o estilo passou a ser mais curto e apoiado, com mais passes a meio campo, e, ao contrário do passado, a bola não é solta tão rapidamente e a equipa já não possui a mesma inteligência de movimento colectivo. Não é, fácil, porém, criar uma nova identidade futebolística. Socialmente, toda as nações de leste ainda vivem uma profunda crise existencial. O futebol, em campo, ressente-se disso.

A leste do paraísoO caso polaco reveste-se, no entanto, de contornos inimagináveis há ainda uma década. No ataque, onde antes estavam jogadores louros e fortes, como Szarmach, Gadocha ou Smolarek, surge agora um negro esguio, espelho da confusão geográfica em que o mundo caiu: Olisadebe, um nigeriano descoberto por um caçador de talentos do Jasper United. Ingressando no Olonia Warsóvia, revelou-se, fiel ás suas raízes africanas, um talento puro, virtuoso, mágico e ofensivo. Pensou-se então em o naturalizar polaco para jogar pela selecção. A ideia suscitou debate, mas seria exactamente uma grande estrela do passado a defender esta tese: Boniek, hoje vice presidente a Federação Polaca de Futebol. O tempo nunca pára mas a história sempre preferirá os maiores. O velho e temível futebol de leste já não existe. O mundo fica mais pobre.