A PEDRA FILOSOFAL: VALDERRAMA-MATTHAUS

03 de Agosto de 2015

A tentativa de descodificar o futebol de forma mais científico-estatística começa, verdadeiramente, nos anos 80/90. Os Mundiais são um palco sublime para apreciar como diferentes expressões de jogo podem revelar distintos padrões de comportamento das equipas. Com os jogadores, esse contraste é quase romancear o jogo. Um desses choques de estilos que gosto de recordar foi, no Mundial 90, num Alemanha-Colômbia, entre a velocidade técnica vertical/musculada de Matthaus e a cadência técnica apoiada de Valderrama.

Vestindo a pele de nº10 em pleno processo de transformação entre os “velhos maestros” e os novos “organizadores rotativos” do presente, ambos mandavam no jogo de cada equipa. Os números revelavam, porém, filosofias de vida em campo muito diferentes.

Durante os 90 minutos, Valderrama teve mais intervenções diretas no jogo, as então chamadas “bolas negociadas” (73 contra 61) mas apesar da cultura de posse que essa Colômbia de Maturana preconizava, tocara menos vezes na bola de que Matthaus (146 contra 153). A diferença era feita pelos lances resolvidos só num toque: Valderrama, 32, Matthaus, 13. A diferença existia nos passes curtos: Valderrama, 49; Matthaus, 17; enquanto nos longo (20/40 metros) Matthaus tinha 38 e Valderrama... 2. Nos passes verticais (entenda-se o passe para a frente) Matthaus fez 35, e laterais (para o lado) apenas 11. Valderrama verticalizara 19 vezes e lateralizara 21.

As estatísticas coletivas de remates, ataques ou cantos raramente dizem como o jogo foi verdadeiramente... jogado. Com esta descodificação individual é possível ver-se as expressões de dois estilos.

Podemos tirar vários ensinamentos: embora o numero de intervenções no jogo (e espaço onde as iniciou) seja semelhante, os meios para tentar chegar aos mesmos fins é totalmente diferente.

Valderrama era um profeta do “toque”, construía “pedra a pedra” (passe a passe) as jogadas, procurando soluções curtas. Matthaus tinha a bola e acelerava. Queria chegar com ela à frente ou mete-la rapidamente em zonas de perigo.

As trajetórias da bola obedecem quase sempre aos jogadores mais influentes de cada equipa. São eles que marcam o seu estilo de jogo. Nisso, o futebol apesar do primado crescente do coletivo sobre a individualidade não mudou. Até se refinou.

Jogadores como Valderrama são hoje, porém, uma “causa perdida”. Táctica e tecnicamente. Não vejo nisso um progresso. A frase que mais gosto para definir um bom jogador é quando se diz que ele tem boa...”leitura de jogo”. Hoje, acontece cada vez mais um fenómeno estranho: as equipas (jogadores) correm cada vez mais e jogam cada vez mais... lento. Falta abordar o jogo, cada jogada ou passe, como cada página de um livro.

DESTAQUE:
A melhor forma de definir um bom jogador é dizer que ele tem boa “leitura de jogo”

A PEDRA FILOSOFAL

DA “FÚRIA” AO “TOQUE”

Na evolução do jogo, a Espanha foi o país (equipas, jogadores e seleção) que mais mudou a sua forma de jogar nas última década. Da “fúria” para o “tiki-taka”. Do jogo como um “estado de espírito” para o jogo como “construção pensada”. O interessante desta evolução é que não foi preciso ir às bases para formar uma espécie de “jogador novo”. Isto é, este tipo de jogador, tecnicamente evoluído, sempre existiu dentro do jogador espanhol, geneticamente latino e, por isso, de escola tecnicista. Nunca soube foi a usá-la (nem fora estimulado).

Lendo o livro “Los secretos de La Roja”, lê-se vários testemunhos de diferentes gerações de jogadores espanhóis que viveram todas essas épocas e período de transição. Custa recordar como jogadores como Juanito, Lopez Ufarte, Michel, Martin Vasquez, Butragueño, até Raul, na fronteira da mudança, viveram presos nesse estilo até, como disse Menotti, deixarem de ser o “touro” para serem o “toureiro”.

Criar um estilo não é um processo obrigatoriamente longo. Basta respeitar o ADN. O estilo anterior era contranatura porque nem sabiam jogar assim nem eram corpulentos como outras equipas. Foi Aragonês que se deu conta disso. Com gente técnica e que gosta de ter a bola, há que abrir o campo. Aos poucos, jogadores mudaram de posições mas a estrutura não estava bem definida. O sistema era um 4x1x4x1 (no Euro 2008, com Senna a pivot) mas convertia-se num 4x3x3, 4x2x3x1 ou 4x4x2. Pouco importava. O fundamental era os jogadores depois fazerem bem as...coberturas.

Os espanhóis, na inspiração da escola-Barça, sabem os riscos que correm ao jogar desta forma a partir dos... defesas. Perder a bola nessa zona é terrível. Mas não são só eles que sabem isso. Sabe-o todo o mundo e todas as equipas que jogam contra eles. E, no entanto, eles continuam a jogar assim. Ao mesmo tempo, ninguém ousa copiá-los. Ou seja, o mundo escolhe uma maneira, e os espanhóis outra. Uns correm desde o inicio, outros jogam.

A PEDRA FILOSOFAL1

TRANSIÇÕES

MOMENTOS DE (DES)EQUILÍBRIO

As transições (defesa-ataque/ataque-defesa) são o momento que melhor define a capacidade duma equipa estar ou não equilibrada em campo. Atacar ou defender bem depende desses “momentos de fronteira”.

A primeira referencia que vejo ao termos “transições” vem da escola de leste, dum treinador que foi o mestre de Lobanovsky. Era Boris Arkadyev, que, nos anos 50, disse “não existe futebol defensivo, nem futebol ofensivo. Existe futebol equilibrado”.

Por isso, a escola holandesa define as transições como momentos de... desequilíbrio da equipa. Isto é, se antes estava equilibrada (jogador nas posições adequadas) para atacar, dum momento para outro tem de se readaptar para colocar-se nas posições certas para defender (ou vice-versa). Quanto mais rápida for a fazer essa transição (de posicionamento e atitude) melhor será porque mais rapidamente estará... reequilibrada no jogo.

O “mundo tático ideal” seria a equipa estar sempre equilibrada e desfazer esses momentos de transição mas tal não é naturalmente possível nas dinâmicas naturais do jogo. O “jogo posicional” defensivo e ofensivo obriga a ocupações diferentes dos espaços.

Quando a URSS dizia, nos anos 70/80 que jogava o futebol do ano 2000 estava a falar de tudo isto. Da velocidade das transições e de encurtar o mais possível o tempo entre os diferentes momentos do jogo. Ver jogar essa seleção de Lobanovski é uma lição da evolução da história do futebol. A grande Polónia dos anos 70 também foi outra extensão desse pensamento sobre o jogo. E, no fim, tal como os húngaros e holandeses, também perderam.

DESTAQUE:
O grande futebol de leste, URSS e Polónia: A base do estudo das “transições”